Brasil é destaque em novo espaço da fundação cartier

Brasil é destaque em novo espaço da Fundação Cartier – 27/10/2025 – Ilustrada

Celebridades Cultura

Mal o repórter anuncia sua origem, Grazia Quaroni exclama em francesismo, com poderoso sotaque italiano: “Nós temos muitos artistas brasileiros!” Mas a diretora da coleção da Instauração Cartier faz questão de ressalvar que a preocupação do novo espaço cultural de Paris, cândido ao público no sábado (25), não é promover a arte deste ou daquele país. “O que nos interessa são os artistas.”

De roupa, desde sua geração, em 1984, a instauração reuniu mais de 4.500 obras de 500 artistas de 60 nacionalidades. A mostra inicial, que vai até agosto de 2026, apresenta muro de 500 delas. O Brasil está literalmente representado de “A”, de Claudia Andujar, a “Z”, de Luiz Zerbini —passando por Adriana Varejão, Alex Cerveny, Bruno Novelli, Ehuana Yaira Yanomami, Eliane Duarte, Izabel Mendes da Cunha, Jaider Esbell, Joseca Yanomami, Mahku (Movimento dos Artistas Huni Kuï), Santídio Pereira e Véio.

O interesse por artistas brasileiros não para aí. A instauração adquiriu recentemente uma obra da mineira Solange Pessoa, conta Quaroni. “Queremos dar a ela esse lugar medial, é importante que as mulheres artistas estejam conosco”, diz a curadora.

Convidado para o evento de introdução, Alex Cerveny disse à Folha estar emocionado e orgulhoso. “A equipe trata os artistas de uma forma inigualável, um pouco inédito para mim. Uma vez que eles começam uma relação com o artista, não é uma relação descartável ou temporária.” É uma legado do trabalho de Hervé Chandès, diretor da instauração entre 1994 e 2023.

Cerveny está representado por duas telas de 2019, “Paraná Paraguai” e “Rio Preto e Solimões” —a sombra do próprio artista, projetada porquê se fossem as duas bacias hidrográficas— e pelo acrílico sobre tela “Mondo Reale: Stop, Look, and Listen”, de 2022. Ele labareda a atenção para o roupa de que a Instauração Cartier não etiqueta os artistas com rótulos porquê arte popular, ingênua ou antropológica. “O artista é o artista”, diz.

Assim, estão presentes, sem jerarquia, as esculturas de Véio, pseudônimo do sergipano Cícero Alves dos Santos, de 78 anos, que se inspira na paisagem e na fauna do sertão nordestino; ou uma série de 16 desenhos a caneta e lápis de Joseca Yanomami, sobre espíritos e paisagens do universo autóctone.

Os yanomami estão fortemente representados. Além de obras de Joseca e de Ehuana Yaira, estão expostas fotos de Claudia Andujar, uma tela de Adriana Varejão e uma película de 2003 do consagrado fotógrafo francesismo Raymond Depardon. Trabalhos de Andujar e da mexicana Graciela Iturbide serão tema de um debate na instauração, no próximo dia 14 de novembro.

A exposição é caracterizada pela enorme variedade. O visitante vai encontrar a estátua hiperrealista “Mulher com Compras”, de Ron Mueck; um submarino fake de aço do belga Panamarenko; desenhos de David Lynch, mais publicado porquê cineasta, morto em janeiro deste ano; um sarapintado “salão de eventos” do boliviano Freddy Mamani; ou as fotos inquietantes do nipónico Daido Moriyama.

“A Instauração Cartier se interessa por todas as disciplinas”, afirmou no evento de lançamento o diretor-geral da instituição, o historiador de arte belga Chris Dercon.

Tanta variedade lado a lado ensejou uma sátira do jornal parisiense Libération, que insinuou preferir uma “museografia organizada”.

O novo prédio da instauração já nasce porquê visitante imperdível para quem está em Paris e já fez o volta obrigatório Torre Eiffel-Notre Dame-Champs-Elysées. A localização não podia ser mais medial, na terreiro do Palais Royal, muito ao lado do recém-assaltado Louvre.

A arquitetura em si, a missão do lendário Jean Nouvel, de 80 anos, é outra atração turística. Nouvel tem uma relação antiga com a instauração: foi ele que projetou o prédio anterior da instituição, um cubo de vidro inaugurado em 1994 no bulevar Raspail.

No novo prédio, foi preservada a frontaria de 1855, que até 1974 foi uma monumental loja de departamentos à voga antiga, os Grands Magasins du Louvre. O título da mostra de introdução, “Exposição Universal”, é uma referência ao letreiro gigante que atraía os consumidores da Belle Époque.

Uma teoria feliz de Nouvel foi instalar vitrines, criando um diálogo entre a motim da rua e a contemplação das obras. Os pedestres podem prever o interno, com 6.500 metros quadrados de espaços expositivos moduláveis.

A inauguração da novidade Instauração Cartier, em um espaço tão transcendente de Paris, reafirma o poderio recente das instituições privadas no setor cultural francesismo. Ela se junta à Instauração Louis Vuitton, ensejo em 2014, e à Coleção Pinault, desde 2021, porquê espaços nobres para a arte contemporânea, competindo com os museus estatais.

A competição com as entidades públicas se dá inclusive no recrutamento —assim porquê há quatro anos a Coleção Pinault foi buscar sua diretora-geral Emma Lavigne no Palais de Tokyo, meio de arte contemporânea sob controle estatal, em 2023 a Instauração Cartier tirou Chris Dercon da presidência da Reunião dos Museus Nacionais. As duas contratações geraram o temor de um esvaziamento dos museus públicos franceses.

Folha

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