Brasileira é premiada em veneza por obra sobre violência

Brasileira é premiada em Veneza por obra sobre violência – 21/07/2025 – Ilustrada

Celebridades Cultura

Dois anos posteriormente provocar comoção no Festival de Avignon, no sul da França, a atriz, dramaturga e diretora brasileira Carolina Bianchi foi premiada, no último sábado (19), com o Leão de Prata na Bienal de Dança de Veneza, na Itália, porquê um reconhecimento ao diálogo que promove entre dramaturgia, traumatismo, as origens da misoginia e uma sexualidade em crise.

Em 2023, no festival gaulês, ela apresentou “A Novia e o Boa Noite Cinderela”, primeiro espetáculo da trilogia “Cadela Força”, em que investiga a história da arte e a violência sexual contra as mulheres.

Na peça, com duas horas e meia de duração, ela usa o próprio corpo, inconsciente posteriormente o consumo de um coquetel de tranquilizantes, para encenar e denunciar o estupro. A obra começa com uma conferência em que Bianchi lê, em português, trechos de “Inferno”, da primeira segmento de “A Divina Comédia”, de Dante.

O ousado repto físico e psicológico levou Bianchi a tornar-se uma referência da cena experimental. A apresentação inseriu a brasileira na tradição das experiências mais extremas da performance artística feminina, em uma lista que inclui a francesa Gina Pane, a sérvia Marina Abramovic e a cubana Tania Bruguera.

“Investir em artistas para fabricar o trabalho que desejam é fundamental para a Bienal de Dança. Nossos Leões de Prata, artistas mais jovens que ainda têm muito a proferir sobre suas obras e tempo para isso, não são exclusivamente celebrados em Veneza, mas também recebem pedestal para seu próximo grande projeto”, disse Wayne McGregor, diretor da bienal.

Bianchi, nascida em Porto Jubiloso, estudou na Escola de Artes Dramáticas da Universidade de São Paulo e trabalhou na capital paulista durante dez anos com o coletivo teatral Rostro de Cavalo, da cena independente.

Em 2020, decidida a voltar a estudar, mudou para Amsterdã, na Holanda, para cursar um mestrado e investigar mais profundamente as possibilidades de sua dramaturgia e presença de palco. Na Europa, colocou em prática a pesquisa sobre a trilogia, que há tempos rondava os seus pensamentos.

No espetáculo “Lobo”, de 2019, apresentado na Mostra Internacional de Teatro de São Paulo, por exemplo, ela dividiu a cena com 16 homens, entre atores, bailarinos e músicos, em uma sequência performática em que corriam, despencaram no soalho, transavam e declamavam poemas de Emily Dickinson.

Apesar de qualquer reconhecimento, o grupo enfrentou tempos difíceis na cidade, principalmente devido à falta de recursos financeiros.

Posteriormente o sucesso em Avignon, o respaldo europeu permitiu à artista a estreia, na Bélgica, da segunda segmento da trilogia, “A Irmandade”, também apresentada em Veneza na semana de premiação.

“O prêmio é um reconhecimento que eu nunca imaginei que poderia suceder, porque geralmente a gente pensa nessas coisas porquê alguma coisa distante”, disse à Folha, logo posteriormente a cerimônia. “A premiação reconhece um trabalho de investigação e também o corpo que passa por essa jornada através de diferentes experimentações da linguagem.”

Nos agradecimentos, Bianchi falou sobre o risco de investigar alguma coisa a fundo. “Esse prêmio reconhece a recusa da arte porquê substância apaziguadora de sensações.”

Para a artista, a sexualidade é material complexa e desorganizada e o corpo é veículo de investigação sobre tempo e memória —ou a falta dela. “Adentrar na floresta escura da geração é um processo violento e extremamente transformador”.

Bianchi segue trabalhando com o coletivo Rostro de Cavalo, agora com os artistas se dividindo entre o Brasil e a Europa. Não há previsão para que os espetáculos da trilogia sejam apresentados em palcos brasileiros, apesar de isso ser o libido da artista.

“Eu adoraria, é o nosso lugar. Fazemos uma peça que é totalmente falada em português, são três horas e meia de português. Libido compartilhar com o lugar de onde a gente veio”, diz sobre “A Irmandade”.

No espetáculo atual, Bianchi aborda um sistema de fraternidade masculina, que muitas vezes atua em detrimento às vidas das mulheres e é chamada de “Brotherhood” pela antropóloga argentina Rita Segato, uma pesquisadora da violência de gênero. A dramaturgia da brasileira faz uma relação entre esse sistema e a história do teatro.

A obra é uma ininterrupção de “A Novia e o Boa Noite Cinderela” a partir da pergunta sobre o que acontece quando alguém se recupera de uma agressão —a artista sofreu uma violência sexual há 12 anos, o que deu origem às pesquisas que realiza. A terceira segmento da trilogia deve estrear em 2026.

“Muita gente me pergunta por que é uma trilogia. Acho que tem uma questão nessa temporalidade, de deixar uma coisa reverberar na outra”, afirma. “Tem um processo de fabricar, mas também observar o que é aquilo e no que vai se transformando. As questões não são estanques, elas vão se movendo”.

O processo de geração de Bianchi é fundamentado na proximidade quase radical com os autores que estuda, o que exige períodos de isolamento ao lado de livros. Para “A Irmandade”, uma companhia intensa foram os escritos de Sarah Kane, dramaturga inglesa que mergulhou na crueldade do mundo em que vivemos e renovou o teatro.

Folha

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