Brasileiras estrelam versões do balé 'Giselle', em Londres 24/02/2026

Brasileiras estrelam versões do balé ‘Giselle’, em Londres – 24/02/2026 – Ilustrada

Celebridades Cultura

Duas cariocas tomaram os holofotes de duas novas montagens do balé “Giselle” em Londres. Fernanda Oliveira, do English National Ballet, e Mayara Magri, do Royal Ballet, cada uma em sua montagem do espetáculo, expandem o fascínio pela história fantasmagórica.

“Giselle é uma camponesa, uma pessoa simples que nunca viu a vida para além das árvores que cercam a sua vila. Ela colhe uvas, mora com a mãe e adora dançar. Quando ela se sente mais livre é quando ela dança. Ela é humilde, pura, ingênua, nunca amou, e nós a vemos aprender sobre a vida da maneira mais trágica provável.”

É logo que Magri, de 31 anos, a única brasileira a integrar o seleto time de primeiros-bailarinos do Royal Ballet, define a protagonista do espetáculo criado pelo compositor gálico Adolphe Adam, em 1841.

Promovida ao mais cimalha posto do elenco fixo da companhia há cinco anos, esta é a primeira vez que ela vai dançar o papel profissionalmente, a partir do próximo sábado.

Carioca do Cimalha da Boa Vista, Magri será ainda uma das artistas homenageadas num evento na embaixada brasileira em Londres, liderada por Antonio Patriota, ex-ministro das Relações Exteriores do governo Dilma Rousseff.

A montagem, concebida por Peter Wright em 1985, voltou ao palco da Royal Opera House, o terceiro teatro mais idoso da capital britânica, no coração do província teatral de West End. É uma versão que segue o clássico quase à risca, com uma pequena, mas significativa mudança no original —em vez de morrer vítima de um coração partido, Giselle comete suicídio.

“O balé faz muitos comentários relevantes para os dias de hoje. Há o declínio social, o roupa de um rapaz da nobreza tirar proveito de uma pessoa simples, a desilusão do primeiro paixão e, no segundo ato, o contraste entre o mundo real e o além-mundo, o místico, onde se encontra esse tropa de fantasmas de mulheres que querem se vingar dos homens que as feriram”, diz Magri, que enxerga uma veia feminista na história.

Esses espíritos, as Willis, são lendas da floresta e são lideradas por Myrtha, sua rainha. Uma vez que o vilão Von Rothbart de “O Lago dos Cisnes”, Myrtha comanda magicamente as divindades, que têm uma vez que objetivo forçar qualquer varão que apareça na floresta durante a noite a dançar até a morte.

A líder das Willis é o segundo personagem feminino mais importante de “Giselle” e, nesta temporada, também tem uma carioca uma vez que sua tradutor —a primeira-solista Letícia Dias, de 29 anos, da Tijuca, que dança em outro elenco, ao lado da estrela russa Natalia Osipova.

“Todas dançam com os braços cruzados na região do ventre, uma vez que se estivessem segurando os filhos que nunca tiveram. Enfim, no século 19, uma mulher sem filhos seria o equivalente a uma morta-viva”, afirma Dias, que está em rota de subida ao posto de primeira-bailarina no Royal Ballet e que vai dançar o papel principal de “La Fille Mal Gardée” em junho.

Segundo Magri, há muitos desafios em viver Giselle. O primeiro é a técnica. “Eu tenho que reproduzir uma técnica de quase 200 anos detrás.”

Juntemos a isso a demanda da personagem. No segundo ato, Giselle está entre o mundo dos mortos e dos vivos, suas pernas são firmes, enquanto o tronco deve estar solto e quebrável.

O terceiro duelo é o drama. “É um balé para quem gosta de dançar e atuar”, diz Magri, que é conhecida por sua vantagem técnica, mas que na temporada passada cativou público e sátira com seu impecável timing de comédia uma vez que a Rainha de Copas, em “Alice no País das Maravilhas”, um papel considerado difícil devido à comicidade, que a faz dançar “inverídico”. A revista Tatler publicou uma sátira dizendo que Magri havia roubado a cena.

A poucas quadras da Royal Opera House, no palco do teatro Coliseum, é comemorada a 25ª temporada de outra primeira-bailarina brasileira, Fernanda Oliveira, de 45 anos, também encarnando Giselle, mas para o English National Ballet.

Sua Giselle, porém, é outra —imigrante, operária numa fábrica de tecidos. “Ela é o poder, ela sabe o que quer da vida, por isso, quando eu voltei a fazer o clássico, eu não senti mais a personagem. Eu me sentia boba, não me conecto mais com aquela mulher”, afirma a carioca do Méier. Talvez por ser tão possante, nesta montagem, Giselle acabe sendo assassinada.

Ela é fruto da mente do bailarino e coreógrafo Akram Khan, famoso por misturar dança contemporânea com o “kathak”, uma forma clássica de dança indiana caracterizada por intenso trabalho de pés, giros vigorosos e movimentos manuais que remetem às histórias do “Ramáiana” e do “Mahabharata”.

“Esse balé foi criado em 2016 e a cada ano dá mais a você. Você muda uma vez que pessoa e, uma vez que você mudou, o balé vai mudando também. Não sei por quê”, diz Oliveira.

“Quando eu dancei esse balé pela primeira vez, eu tinha 36 anos. E a gente não conhecia [o Akram Khan]. A cada ano, a gente entrava mais no estilo dele. E a coreografia dele, uma vez que disse o nosso diretor de tentativa, o Mavin Khoo, é para gente da nossa idade. Porque ele tem 52 anos e ele ainda dança”, diz a bailarina, que não acredita que esta é sua última temporada.

“Meu corpo ainda não está me pedindo para parar. Você aprende sobre seu corpo quando se machuca. Meu pior caso foi quando eu rompi o ligamento cruzado do meu joelho aos 35. Eu estava dançando ‘O Lago dos Cisnes’ no Royal Albert Hall. Levou 11 meses para eu me restaurar. Você se torna mais cautelosa. Hoje em dia, eu faço no sumo quatro aulas por semana em vez de seis. Faço musculação e treino pensando exclusivamente no balé que eu vou dançar.”

Além do subtexto social —que na montagem do English National Ballet é representada por um muro que divide classes sociais, vivos e mortos—, na “Giselle” de Akram Khan há outras subversões do clássico. Além da música que nos transporta a uma atmosfera industrial, são os bailarinos que seguem o tempo da orquestra, não o contrário, uma vez que acontece na montagem do Royal Ballet.

Historicamente popular, o balé viu seus ingressos se esgotarem rapidamente para todas as performances, tanto da versão clássica, estrelada por Magri, quanto da contemporânea, com Oliveira no papel que dá nome à obra.

“Na nossa montagem talvez isso se deve ao roupa de a Giselle ser uma imigrante, e a questão com os imigrantes continua atual. No clássico, o que eles gostam é da pureza”, diz Oliveira. “Ela é muito frágil, simples, e eu acho que é isso que está faltando no mundo hoje. As pessoas gostam por pretexto disso.”

Folha

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