No dia 5 de outubro pretérito, uma expedição brasileira saiu de Katmandu, capital do Nepal, rumo à região de Anapurna, nos Himalaias. O fado era a serra Himlung Himal, com 7.126 metros de altitude. E o grande diferencial da expedição era o vestuário de todos os seus integrantes, das montanhistas até as guias sherpanes, serem mulheres, num repto organizado pela treinadora especializada em trekking e escalada Vanessa Oliveira, que preparou corpo e espírito indo em maio até o monte Denali, no Alaska, ponto mais basta da America do Setentrião, com 6.190 metros de altitude.
Desde o início da organização, Vanessa fez questão de certificar às interessadas que a expedição seria 100% feminina. “Ao todo, no final, éramos 40 mulheres, das quais 30 brasileiras e 10 nepalesas, sendo 3 brasileiras e 5 nepalesas escaladoras”. As demais fizeram exclusivamente o trekking até o acampamento-base do Himlung Himal e de volta a Katmandu —o que, convenhamos, também não é pouca coisa.
A iniciativa gerou todo um agito desde antes mesmo de a expedição deixar Katmandu, onde a absoluta maioria das turmas rumo aos cumes mais altos dos Himalaias é formada por homens, com uma ou outra mulher pingando cá e ali. “Foi um movimento tão grande, tão bonito de se ver, que quando a gente passava as pessoas chegavam e nos perguntavam, ah, vocês é que são o grupo só de mulheres, queriam saber de tudo, e isso deixava principalmente as sherpanes, as guias nepalesas, orgulhosas de estarem fazendo o trabalho de guias, que em universal é difícil para elas, sempre os guias homens são priorizados”, conta Vanessa.
“As sherpanis são fortes, são geneticamente adaptadas às altitudes, mas acabam não sendo contratadas em um envolvente 100% masculino, portanto esta expedição, para elas, era muito importante, uma delas nos contou que estava havia quatro anos sem conseguir ir para a serra por falta de oportunidade, sempre os guias homens são escolhidos”, diz.
Evidente que nem tudo foram (porquê nunca são) alegrias ao longo dos 30 dias de convívio de um grupo tão heterogêneo, com idades variando entre 21 e 50 e poucos anos (elas detestam racontar a idade…). “Mulheres são diferentes, temos muita vontade, mas também percebi muita emoção, era uma coisa mais emotiva, em momentos de tensão, de discussão, principalmente na escalada, daí a pouco estávamos chorando, nos abraçando, pedindo desculpas uma à outra”, relata Vanessa. Por fim, no grupo havia quem menstruasse, quem estivesse na menopausa, toda uma sarau de hormônios em ebulição. Fora as histórias pessoais que cada uma carregava serra supra.
“De repente, uma das sherpanes caiu no pranto, porque o marido havia morrido escalando o Everest e isso tocou muito o lado emocional de todas nós”, lembra. “Outra contou que havia entrado no Guinness Book of Records por ter sido a primeira pessoa a subir com pai e irmão, mas que só eles arrumavam trabalho, ela nunca era escolhida”.
A escolha zero óbvia da Himlung Himal, segundo Vanessa, se deu porque a intenção era escalar um pico supra dos 7.000 metros, uma coisa gradativa para se pensar depois o que fazer avante. “É uma serra muito formosa, não tecnicamente difícil embora muito fria, pegamos 40 graus negativos, houve resgates de pessoas com congelamentos e tem toda uma segmento místico envolvida, um povo que sorri com os olhos ao longo de toda a trilha”.
De todo o grupo, no final, exclusivamente a consultora de gestão e montanhista experiente Daniela Furusawa acabou chegando ao cume. Vanessa, que subia com ela depois as outras desistirem, teve de descer para conferir se uma das que haviam ficado no caminho estava muito, e, subindo pela segunda vez, admitiu que não teria mais condições de ir além dos 7.000. Sem anticlímax, por obséquio: só quem já precisou desistir de um cume a poucos metros dele para não botar a vida em risco sabe o quanto isso é doloroso, e porquê exige coragem reconhecer que o limite está ali e pronto.
“Eu sempre falo que o cume não está lá em cima, mas no campo-base, quando a gente retorna, porque a vitória é voltar com vida e com todos os dedos, havia sério risco de frigoríficação ali”, analisa Vanessa.
E porquê foi para Daniela chegar ao cume do Himlung Himal? “Eu tinha parado nos 7.000, a Vanessa veio, mas não estava muito, eu tambem tinha parado ali, pensei em voltar, mas o que mais me impulsionou foi ver que para as sherpanis que estavam conosco a subida era muito importante, faltavam só 100 metros, portanto, quando melhorei da taquicardia que me tinha feito parar, pensei que faltava tão pouco —e, sim, pouco na serra, muitas vezes pode ser super perigoso— e elas começaram a caminhar, aquilo significava muito, e chegamos lá”, relata ela.
O Himlung Himal não foi a primeira 7.000 de Daniela, mas para ela teve um sabor rememorável. “É uma serra menos escalada, portanto no trekking até lá você passa por vilarejos que não veem tantos turistas, são regiões remotas de povos mais crus, digamos assim, onde você pode saber um pouco mais da cultura menos globalizada dos nepaleses”, explica. Agora, é esperar pela próxima empreitada.
