Transpor “Brokeback Mountain” para o palco é um treino de coragem artística. A montagem brasileira, dirigida por Moacyr Góes, encara o repto com uma premissa clara e ambiciosa: substituir a vastidão panorâmica do cinema pela intensidade do confinamento psicológico. O resultado é um espetáculo sóbrio e formalmente inventivo, que encontra sua potência justamente nos recursos da linguagem teatral.
A venustidade da produção reside na capacidade de mostrar em vez de expressar. A cenografia, composta por estacas que delimitam um sitiado, funciona porquê uma metáfora polivalente: sugere tanto o refúgio campesino da serra quanto a asfixia das prisões sociais. A iluminação de Adriana Ortiz esculpe esses espaços com precisão, alternando a frieza dos lares com a luminosidade contida dos encontros clandestinos.
A trilha sonora ao vivo, sob direção de Breno Ganz, dá voz aos sentimentos inarticulados dos protagonistas. Porém, há uma salvaguarda estética: a presença metódico de Milena Suzano no palco a cada melodia — interpretando o repertório original do filme de Ang Lee — por vezes interrompe a mergulho, soando mais porquê uma interferência do que porquê um fluxo orgânico da cena.
Marcéu Pierrotti e Júlio Oliveira entregam ótimas interpretações e fisicalidades complementares. Pierrotti internaliza a agonia de Ennis em cada músculo contraído, revelando um varão em metódico guerra consigo mesmo. Já Oliveira confere a Jack uma pujança expansiva e vulnerável, personificando a tragédia da esperança persistente.
A química da dupla, todavia, floresce menos nos momentos de afeto e mais nos silêncios e conflitos. A conexão que os une parece habitar mais o território das ideias do que o do sentimento súbito – o que, longe de ser um demérito, confere à obra uma densidade único.
A montagem acerta ao não isolar o drama do par medial. A simultaneidade de cenas é um trunfo narrativo: ver a solidão resignada de Psique (interpretada com dolorosa precisão por Francis Helena Cozta) enquanto os homens buscam sua liberdade é um dos grandes momentos da peça.
Por outro lado, o mundo exterior carece de certa materialidade. Embora as múltiplas figuras interpretadas por Eduardo Rieche simbolizem o sistema, a hostilidade cotidiana nem sempre ganha a textura necessária para que o testemunha sinta, e não unicamente entenda, o risco que os tapume.
Sem incerteza, esta versão brasileira é uma imposto valiosa que expande o universo original através de uma encenação sólida. Em vez de competir com o cinema, a peça usa a simultaneidade do teatro para aprofundar a reflexão sobre os custos invisíveis do paixão proibido, transformando a repressão e o silêncio em uma experiência sensorial sobre a fragilidade humana perante códigos sociais rígidos
Três perguntas para…
… Júlio Oliveira
O seu Jack é possui uma masculinidade menos normativa, permitindo-se ostentar sensibilidades que o Ennis tenta sufocar. Uma vez que foi o processo de procura por esse registro físico e emocional para diferenciá-lo da rigidez de seu parceiro de cena?
A chave para diferenciar Jack da rigidez de Ennis foi entender os dois espaços onde ele performa sua existência: embaixo da serra e na serra. É um paralelo com a vida, onde, por premência ou legalização, muitas vezes adotamos uma máscara heteronormativa para nos encaixar. A diferença é que, na vida, fazemos um esforço imenso para sermos bem-quistos em lugares que não nos cabem. Na serra, porém, Jack não tem para onde fugir de si mesmo. Ao se perceber naquela relação, o que há dentro dele começa a vazar pelas frestas.
Falamos de dois homens criados para serem extremamente heteronormativos. Quando percebem que aquela relação vai ocorrer, a sensação é de uma rédea curta, um cabresto recluso neles para que possam continuar vivendo — mormente em 1963, no interno do Texas. A grande diferença está nesta localidade: entender onde ele exerce sua performance e onde simplesmente não consegue mais fugir do que é.
Se hoje já sabemos que a sensibilidade de um varão não tem a ver com sua orientação sexual, mas isso ainda é polêmico, imagine naquela estação. A magia do texto está justamente nessa troca: porquê se é em um lugar e porquê se é em outro, longe do mundo — que é a serra.
Uma vez que é o repto de atuar em um papel de tamanha trouxa emocional e, ao mesmo tempo, trenar a função de diretor de produção do espetáculo?
O repto é, na verdade, uma delícia. Há muito tempo, ser ator no Brasil exige uma ração de autoprodução. É uma asserção rígida, mas real: quando você aprende a se produzir, deixa de ser refém de um mercado muitas vezes injusto. A sensação é de liberdade. Continuo participando de processos seletivos, mas ao desenredar esse viés, você se torna mais possuidor até dos “nãos” que pode dar — porque tem contas a remunerar.
Simples, não faço zero sozinho. Meu maior coligado foi o tempo; comecei a produção com muita antecedência, organizando tudo de forma planejada. Existem percalços, mas uma produção não se avalia pelos problemas que evita, e sim pelos que soluciona. É isso que faço dia e noite quando não estou no palco: resolver questões, sejam pessoais ou profissionais.
Narrativa com um assistente de produção, Yelon Daniel, um artista estreante na função e extremamente competente. Brinco que sou o criativo e ele é o Excel: ele organiza minhas ideias em planejamento, e assim vamos dando firmeza ao projeto. Estou muito feliz porque já temos sessões esgotadas com antecedência — e sabemos o quanto isso é, se não o maior, um presente enorme para um ator.
Em seu oração de estreia, você afirmou que esta montagem coloca os atores em “estado de risco”. O que exatamente atravessa você ao recontar essa história de afetos que precisaram virar sigilo?
Sinto que vivo um pouco procrastinado em relação ao tempo que deixei que me roubassem — ou que eu mesmo roubei de mim. Perdemos tanto tempo na vida tentando nos encaixar. Se tivéssemos consciência disso, com certeza não repetiríamos as coisas da mesma forma.
Quando digo que somos colocados em estado de risco, é porque nos deparamos com situações que questionam nossa estrutura, o que somos. Acho que muitas pessoas, inclusive as próximas, vivem uma vida inteira sem chegarem perto de se desenredar, por inúmeros fatores. Quando temos a oportunidade de fazer arte, somos reconvidados o tempo todo a nutar esses alicerces que imaginamos estáveis — e eles não são. São móveis, frágeis, alguns trincados, outros precisando só de reparo. Estão mudando de lugar o tempo todo, e essa é a nossa base.
Sinto que sou um eterno garoto, por não ter exercido toda a pujança da minha juventude quando deveria. Hoje, vejo pujança em tudo. Sou a pessoa mais básica: você pode estar sentado comigo, tomando um moca, contando uma piada, e eu olhar para você e legitimamente expressar o quanto te senhor, sem esperar um momento peculiar, com fogos de artifício. Aprendi a ser poderoso no simples. Porque a maior secção da vida acontece no simples, não no inimaginável.
Teatro Itália – av. Ipiranga, 344, República, região medial. Qua. e qui., 20h. Até 26/3. Duração: 90 minutos. Classificação indicativa: 16 anos. A partir de R$ 50 (meia-entrada) em sympla.com.br
