Cancelamento não é militância é violência política 23/12/2025

Cancelamento não é militância é violência política – 23/12/2025 – Wilson Gomes

Celebridades Cultura

Desculpem os complacentes, mas cancelamento não é militância, sátira ou modo de invocar à responsabilidade quem supostamente cometeu um erro. É forma de violência política. Uma violência que combina bullying, linchamento moral e mordacidade, exercida de modo coletivo, irregular e covarde, mas capciosamente protegida pela persuasão de superioridade moral.

Porquê o bullying, o cancelamento é dirigido à humilhação de seu objectivo. Porquê o linchamento, é movido pelo contágio emocional da povo e voltado para a punição réplica de alguém. Porquê a mordacidade, tem por objetivo destruir reputações, redes profissionais e afetivas e meios de subsistência. Mas o cancelamento não é unicamente a soma dessas práticas: ele as reúne num único gesto e ainda as reveste da linguagem do muito, da justiça e da virtude. O cancelador está perceptível de que é muito melhor do que o seu objectivo.

O curioso é que os cancelados nunca são ideias, princípios ou valores, mas indivíduos. O cancelamento não refuta teses, não enfrenta argumentos, não disputa interpretações; ele ataca pessoas. Quem é cancelado não “perde um debate” nem é revisto; perde reputação, trabalho, redes de afetos. Trata-se de uma prática sádica, porque extrai prazer da humilhação pública, e covarde, porque se exerce em grupo.

Zero disso é casual. O cancelamento não é um excesso ocasional nem um descontrole emocional forçado pela lógica das redes. É método. E seu funcionamento revela alguma coisa ainda mais incômodo: só são bem-sucedidos quando atingem pessoas do próprio campo progressista. Combater adversários externos é, em universal, inofensivo. Quem não compartilha a gramática moral progressista não depende dela para viver politicamente. Que mal faria a Nikolas Ferreira ser chamado de machista ou transfóbico pela esquerda? Que mal fez a Bolsonaro ser taxado de racista por liberais? Já o dissidente interno —o progressista que erra, hesita, diverge ou formula nuance mal-recebida— tem tudo a perder: sustento, laços afetivos, pertencimento.

A confrontação com a direita ajuda a entender o tamanho da estupidez política do progressismo identitário. A direita também destrói reputações, difama, ameaço e lincha simbolicamente —mas, em regra, o faz contra inimigos externos. Já o progressismo dirige sua máquina de punição preferencialmente contra os próprios membros. Onde a direita procura expelir os “de fora”, o progressista procura sujeitar o semelhante.

O cancelamento é, estruturalmente, violência intragrupal. É pedagogia do pânico para botar todo mundo na risca. Sua função é sujeitar, disciplinar, impor uma ortodoxia. Ensina, com o chicote, quais dogmas não se questionam e quais desvios serão punidos com crueldade réplica. Trata-se de brutalidade politicamente autodestrutiva, que consome seus quadros, empobrece seu campo intelectual e enfraquece sua capacidade de disputar a sociedade.

Essa dinâmica alimenta uma cultura: narrativas de pureza moral, exigência permanente de alinhamento discursivo e punição réplica de desvios passam a moldar o debate público. O efeito é um clima difuso de autocensura. Muitos deixam de falar não por pânico do Estado, mas por temer sanções morais informais.

O resultado é um estreitamento progressivo do espaço público. Certos temas tornam-se impronunciáveis; certas perguntas, suspeitas; certas posições, moralmente interditadas. Muitas pessoas deixam de falar não porque concordam com o consenso dominante, mas porque avaliam o dispêndio da discordância porquê cocuruto demais. Outras passam a falar justamente porque sabem que o grupo vai recompensar quem estiver desempenado à opinião dominante.

Esse processo empobrece o debate público. Ideias não são testadas, argumentos não são mais confrontados, diagnósticos equivocados não são corrigidos. A política perde capacidade reflexiva e se transforma em espaço de reafirmação identitária. A intolerância, ao reduzir o espectro do dizível, reduz também a capacidade coletiva de compreender problemas complexos e formular soluções democráticas.

As consequências democráticas são diretas. O cancelamento normaliza punições sem processo, incentiva a autocensura, treina disposições autoritárias e prepara o terreno para criminalizar o dissenso. Minimizar isso porquê excesso juvenil, rumor de rede ou dano paralelo bem-intencionado não é ingenuidade. É cumplicidade. O cancelamento é uma prática cruel, covarde e autodestrutiva —para as pessoas que ela esmaga, para o campo progressista que ela devora e para a democracia que ela corrói.


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Folha

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