Candeia é celebrado com eventos e biografia 15/08/2025

Candeia é celebrado com eventos e biografia – 15/08/2025 – Ilustrada

Celebridades Cultura

Breno Batista, o Bené, tinha perto de 14 anos quando pensou em fabricar uma escola de samba dentro de morada. Nascido em Inhoaíba, na zona oeste do Rio de Janeiro, o garoto estava impactado com a história de Luminária, que conhecera no filme “Partido Elevado”, de Leon Hirszman. Seguindo os preceitos do fundador da Granes Quilombo, uma escola de samba e de arte negra, Breno criou o Meio de Cultura Fruta do Pé, em 2017.

Nesse espaço, reconhecido porquê patrimônio cultural do estado do Rio de Janeiro em julho, são promovidas rodas de samba e aulas de música, dança, capoeira e encontros para a comunidade lugar. Assim porquê na escola de Luminária, Bené transformou sua morada em um quilombo.

“Quis fazer um lugar de protagonismo preto, resgatando o que está sendo perdido no samba. E que não fosse um lugar devotado só ao Carnaval, mas também a outras expressões culturais negras”, ele afirma.

“Tem várias coisas que me fazem entender o Fruta do Pé porquê um quilombo. E uma delas é a questão geográfica. Tem muita gente que tem pânico de vir para esse lado da cidade. Esse distanciamento faz esse espaço ser um refúgio preto”, acrescenta.

Neste sábado, no Fruta do Pé, Bené vai prestar homenagem ao rabino Luminária. Até o final do mês, outras rodas vão trovar a obra dessa figura tão importante para o samba carioca e vernáculo, que completaria 90 anos no dia 17 de agosto.

Luminária foi um personagem profético, que se posicionou contra os rumos excessivamente comerciais do Carnaval. Nos anos 1970, insatisfeito com a diretoria da Portela, criou a Granes Quilombo para retomar o protagonismo perdido pelos sambistas dentro das escolas e proteger tradições afro-brasileiras das influências externas —já que, na era, a música americana também embalava os bailes funk da juventude negra e suburbana do Rio.

“Uma vez que o João Nogueira, Luminária buscou fazer uma frente de resistência à invasão da música estrangeira. João Nogueira criou o Clube do Samba e Luminária criou a Quilombo”, conta o jornalista Vagner Fernandes, que prepara uma novidade biografia do sambista, prevista para dezembro. “Não só por isso, mas também por sua insatisfação na Portela e diante do gigantismo dos desfiles das escolas de samba. Ele achava que descaracterizava as agremiações.”

No livro, Fernandes também buscará desconstruir a imagem truculenta de Luminária porquê policial social, missão que ocupou de 1959 a 1965, quando uma pendência de trânsito terminou com tiros que o deixaram paraplégico.

“Os relatos de muitas pessoas não convergem para essa teoria que se formou do Luminária. Não creio que ele se assemelhasse ao que seria hoje um policial miliciano. Luminária era pautado pela moralidade e muitíssimo rigoroso. Absolutamente esquentado. Mas não tenho, por exemplo, qualquer informação de que Luminária tenha matado ou torturado alguém quando foi policial”, diz ele.

Para o responsável, há uma tentativa de fabricar um perfil mítico do Luminária a partir da tragédia, já que, em seguida o incidente, ele abraçou causas coletivas importantes. “Mas já havia nele uma sensibilidade extrema mesmo antes de permanecer recluso a uma cadeira de rodas. Nasce-se poeta”, afirma.

Além da figura complexa e enxurrada de nuances, a obra de Luminária também possui camadas que merecem atenção. Uma vez que observa Diogo Cunha, documentarista e pesquisador cuja dissertação de mestrado foi dedicada ao veterano, “eu considero que se você for interpretar o Luminária por uma biografia harmónico, você vai ter essa representação do padroeiro soldado do samba brasílio”.

“Mas as dinâmicas da música popular, principalmente da música afrodiaspórica, nunca são tão puras quanto pode parecer.”

Uma vez que se sabe, Luminária era um apreciador de jazz e música erudita —influências que, embora criticadas por ele em seus discursos, aparecem de forma marcante em sua obra. É o caso, por exemplo, do disco “Seguinte… Raiz”, de 1971, em que se ouve um tipo de conserto e a instrumentação que promovem um diálogo do samba das escolas com a música internacional, com destaque para o uso do grave e do órgão Hammond do jazz, do R&B, do rock e até do pop da era, segundo Cunha.

Para Selma Luminária, filha do sambista, é uma emoção muito grande ver as homenagens. “Ele está recebendo o devido reconhecimento pelo que representa. Meu pai é atemporal. O que ele fez em sua morada, onde promovia rodas de jongo, partido cumeeira, samba dolente, tudo isso está sendo valorizado hoje.”

Folha

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