Candomblé: iyá mi não são orixás convencionais 17/07/2025

Candomblé: Iyá Mi não são orixás convencionais – 17/07/2025 – Djamila Ribeiro

Celebridades Cultura

Ao lado de onde moro há uma construção interrompida. Uma estrutura de aço de dois andares, erguida e depois abandonada. Honestamente, não sei o que houve ali nem o que se decidirá. Por ora, serve de abrigo para os pássaros que vêm fazer seus ninhos. Um par deles —talvez águias, talvez gaviões; não saberia expressar, não sou profissional em nomes, mas reconheci o ponta curvo e as garras afiadas— pousou certa vez sobre a laje de cima.

Talvez sondassem se poderiam invocar aquele lugar de lar. Não sei. Talvez estivessem se apresentando. Da sala, eu os observei, emocionada com aquela visitante.

As aves voaram até o muro e, a partir dali, assistiam à vida em lar. Me viam —e eu as via de volta. Foi logo que minha filha apareceu, subindo as escadas com a mochila ainda nas costas, quando voltava da escola.

As aves a acompanharam com os olhos atentos, movendo a cabeça na ritmo dos passos de Thulane, que entrou pela porta sem perceber que havia sido observada. Desde logo, já se passaram alguns anos em que elas moram na despensa da última e mais subida árvore da ladeira.

Tenho pensado muito nessas aves. Com minha filha, assisto a programas sobre animais e me maravilha com o modo porquê constroem seus ninhos, protegem seus ovos e alimentam suas crias pelo tempo necessário até que voem sozinhas.

Admiro o instinto paciente, a precisão dos movimentos e porquê eles se tornam uma dança. Neste momento, enquanto escrevo, vejo-as sobrevoar. Observo porquê leem o cenário e se anunciam supra de nós. Encanta-me o modo porquê pairam sobre o tempo, porquê se soubessem de alguma coisa que nós esquecemos.

É por isso que decidi retomar nesta Folha a série de textos que venho escrevendo sobre os orixás e o candomblé, com uma edição peculiar dedicada às Iyá Mi —as grandes mães.

Reverenciadas nos terreiros porquê princípio feminino avoengo, um entendimento mais geral é que as Iyá Mi não são orixás no sentido convencional.

No candomblé, aprendemos que tudo tem seu tempo, seu caminho e seu sigilo. As Iyá Mi são guardiãs desses segredos. São o ventre que gesta o mundo e o silêncio que impede o mundo todo de se desfazer.

Na grande maioria da prática religiosa, não há iniciação direta para elas —não se inicia para Iyá Mi porquê se inicia para Xangô ou Iemanjá. Há, sim, um sábio reservado, transmitido entre mulheres que mantêm viva uma confederação com esse poder. E existe, sobretudo, saudação.

São forças que não recebem oferendas de qualquer um nem respondem a chamados levianas. São forças profundas e originárias, associadas à fertilidade, à justiça e à interdição. Ligadas a todos os pássaros —sobretudo às aves de rapina—, são senhoras do poder oculto e da sabedoria antiga.

Uma de suas representações mais conhecidas é a coruja, que tudo enxerga na trevas e é capaz de virar a cabeça quase por completo. Zero escapa à sua vigilância.

Outra ave de rapina que as representa é o urubu, voraz de vísceras, de quem estômago é capaz de dissolver ossos e cuja existência é fundamental para o ciclo da natureza, ainda que seja muitas vezes incompreendido por nossa lógica da fisionomia.

De um ponto de vista, podemos compreender as Iyá Mi porquê frase simbólica de um poder feminino avoengo que sobreviveu ao se esconder. Na história colonial e patriarcal, tudo que envolvia mulheres negras com poder e saber foi tratado porquê prenúncio. Chamadas de bruxas, demonizadas, perseguidas. As Iyá Mi são a resposta místico a esse processo: forças que resistem insubmissas, com memória.

São um registo vivo da experiência de resistência das mulheres negras no Brasil e no mundo africano-diaspórico.

Volto, logo, àquela tarde em que minha filha subia as escadas e foi observada por aquelas aves silenciosas. Entendi, ali, que estava sendo lembrada. Lembrada de que existem presenças que nos acompanham mesmo quando não as nomeamos.

De que há olhos que nos vigiam com paixão severo, que nos protegem sem fazer qualquer vaidade. E que existe uma moral do zelo que não se explica com palavras, mas se aprende com o tempo —e com o silêncio.

Falar das Iyá Mi não é fácil. E talvez não deva ser. Mas neste gesto de grafar, deixo nesta pilastra uma fresta delas.

Uma tentativa de lembrar que há forças femininas ancestrais que seguem entre nós, mesmo quando a racionalidade tenta negá-las. Que seguem nos observando do cimeira da árvore, nos acolhendo, nos instigando, nos guiando. Iyá ô!


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Folha

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