Em meio ao aumento da demanda por atendimento psicológico e psiquiátrico no país, um programa vem sendo implementado de forma experimental em pelo menos duas cidades brasileiras para ampliar o desvelo no Sistema Único de Saúde (SUS).
Desenvolvido pela organização sem fins lucrativos ImpulsoGov, sediada em São Paulo, o Programa de Saúde Mental para Atenção Primária à Saúde (Proaps) está em temporada de testes em Aracaju e Santos. A proposta é capacitar enfermeiros e agentes comunitários de saúde para oferecer guarida estruturado a pacientes com sintomas leves ou moderados de transtornos mentais. O trabalho é feito sob supervisão de psicólogos e psiquiatras vinculados à Rede de Atenção Psicossocial ou contratados pela entidade.
O Proaps também começou a ser implementado em São Caetano do Sul (SP), mas foi encerrado por motivos que a prefeitura não explicou à reportagem.
A saúde mental é um problema que preocupa 52% dos brasileiros. Aliás, 43% relatam dificuldades de aproximação por razão do dispêndio ou da morosidade na rede pública.
A metodologia segue diretrizes da Organização Mundial da Saúde (OMS) e do Sistema Único de Saúde (SUS). O curso prevê 20 horas de formação teórica. Casos considerados graves são encaminhados à rede especializada.
Os acordos para capacitação foram firmados pelos próprios municípios que têm autonomia para implementar iniciativas de qualificação profissional.
Segundo a ImpulsoGov, os primeiros resultados indicam redução média de 50% nos sintomas depressivos entre os pacientes acompanhados, além de impacto na subtracção das filas por atendimento especializado.
Delegação de competências
A proposta, mas, suscita ressalvas de algumas entidades. Sem julgar diretamente o programa, o Recomendação Federalista de Psicologia (CFP) sinalizou preocupação quanto aos limites da delegação de competências.
O órgão destaca que o SUS já adota o chamado “matriciamento”, estratégia de integração multiprofissional que articula saúde mental e atenção primária sem substituir a atuação técnica de psicólogos e psiquiatras. Para o juízo, o enfrentamento da crescente demanda passa por investimentos estruturantes, porquê o fortalecimento dos Centros de Atenção Psicossocial (Caps), a ampliação das equipes e a contratação de especialistas por concurso público.
Dados do Boletim Radar SUS 2025 citados pela entidade indicam que, embora o número de psicólogos no país tenha desenvolvido 160% entre 2010 e 2023, a proporção desses profissionais atuando no SUS diminuiu, ampliando desigualdades regionais, mormente nas regiões Setentrião e Nordeste.
Em nota, o Recomendação Federalista de Enfermagem (Cofen) informou que não tinha conhecimento do projeto. Segundo a entidade, porquê integrantes das equipes da Atenção Primária à Saúde, os enfermeiros já recebem capacitação para prestar cuidados em saúde mental nos casos considerados leves e moderados, devendo encaminhar os casos graves para os serviços especializados, porquê os Centros de Atenção Psicossocial (Caps).
“Já em relação à situação apresentada, é necessário compreender o que está sendo entendido por supervisão. As atividades de cultura privativa dos enfermeiros são exclusivas da categoria, logo, sua supervisão por um profissional de outra categoria parece inadequada”, ponderou o Cofen, destacando a semelhança entre o Proaps e princípios e diretrizes que já norteiam a Política Vernáculo de Atenção Básica, porquê o esteio matricial e o compartilhamento de saberes entre as equipes de referência e especialistas.
“Talvez o que esteja sendo proposto seja a discussão dos casos com as equipes de referência. Essa situação na extensão da saúde mental é chamada de ‘matriciamento’ e é recomendada que as equipes dos Caps o realizem juntos às equipes da Atenção Primária, envolvendo não somente a enfermagem, mas os médicos, psicólogos e demais profissionais atuantes nas Estratégias de Saúde da Família (ESF)”, comentou o Cofen ao reportar a previsão de pronunciação das equipes (matriciamento) porquê forma de prometer um atendimento integral e resolutivo.
Resguardo da complementaridade
Coordenadora de produtos da ImpulsoGov, Evelyn da Silva Bitencourt afirma que o objetivo do Proaps não é substituir psicólogos ou psiquiatras, mas capacitar profissionais que já atuam na porta de ingresso do sistema.
Segundo ela, a saúde mental está entre os cinco principais motivos de atendimento na atenção básica, ao lado de hipertensão, diabetes e cuidados infantis.
“É uma demanda que já chega na atenção primária, mas para a qual os profissionais não especializados não recebem nenhum tipo de formação. Não estamos falando em resolver todas as demandas, mas sim sobre conseguir hospedar o que a pessoa está sentindo, conseguir conversar sem invalidar as emoções da pessoa”, afirma a coordenadora
Posteriormente a identificação do sofrimento emocional – que pode incluir a emprego de instrumentos porquê o PHQ-9, utilizado para rastrear sintomas depressivos -, o profissional decide se o paciente pode ser escoltado na própria unidade ou se deve ser guiado a um técnico.
“Se for um munícipe em sofrimento ligeiro ou moderado, eles [enfermeiros e agentes comunitários] têm instrumentos para atender à pessoa na própria unidade, por até quatro encontros, seguindo um protocolo de guarida interpessoal fundamentado em evidências.”
Para a coordenadora, a iniciativa reforça o matriciamento ao oferecer instrumentos complementares às equipes da atenção primária e fortalecer a pronunciação com a rede especializada.
Autonomia lugar
Procurado pela Filial Brasil, o Ministério da Saúde informou que estados e municípios têm autonomia para implementar iniciativas de qualificação profissional, conforme o padrão de gestão tripartite do SUS.
A pasta destacou que o país conta com uma das maiores redes públicas de saúde mental do mundo, com mais de 6,27 milénio pontos de atenção em saúde mental, incluindo murado de 3 milénio Centros de Atenção Psicossocial (Caps). Ainda segundo o ministério, o investimento federalista na extensão cresceu 70% entre 2023 e 2025, alcançando R$ 2,9 bilhões no último ano.
Projetos piloto
Em Aracaju, o programa foi implementado por meio de conformidade de cooperação técnica firmado em 2024 e renovado até 2027. Segundo a prefeitura, 20 servidores de 14 unidades participaram da capacitação no ano pretérito, realizando 472 atendimentos iniciais. Mais da metade dos pacientes atendidos acessava o serviço pela primeira vez.
Na capital sergipana, os primeiros resultados indicam redução média de 44% nos sintomas depressivos e melhora de quase 41% na percepção subjetiva do humor. A rede municipal conta atualmente com 28 psicólogos e cinco médicos de saúde mental, que atendem, em média, 1.950 pacientes por mês.
Em Santos, no litoral paulista, o programa começou a ser aplicado em outubro de 2025. Entre dezembro e janeiro, 314 usuários foram atendidos com base na metodologia. O município avalia ampliar a capacitação para mais profissionais da atenção primária, com o objetivo de ampliar o aproximação da população ao atendimento em saúde mental.
“Os resultados ainda são parciais, mas vem demonstrando a valimento da qualificação dos colaboradores da Atenção Primária”, reforçou a prefeitura.
Atualmente Santos conta com 127 especialistas (98 técnicos de nível superior e 29 médicos) distribuídos por 13 unidades de saúde (Centros de Atenção Psicossocial; Serviços de Reparação Psicossocial e de Residência Terapia).
