Carnaval: Como Jetski, de Pedro Sampaio, virou hit do ano

Carnaval: Como Jetski, de Pedro Sampaio, virou hit do ano – 13/02/2026 – Ilustrada

Celebridades Cultura

O músico Pedro Sampaio pôs a cantora Melody e o funkeiro Meno K na garupa para açodar rumo ao Carnaval deste ano. Não foram de “motinha”, nem de táxi, tampouco de trio elétrico. Escolheram um jet ski, veículo que dá nome à sua parceria músico, obra que deu um banho nos competidores e chegou ao topo da lista de mais ouvidas do Spotify.

Sampaio costuma velejar muito pela folia, mas nunca chegou à crista da vaga tão rápido uma vez que foi com “Jetski”, que precisou só de quatro dias para virar uma das 15 mais tocadas na plataforma. A música fala sobre montar num jet ski para transar no mar. “Tu gosta, né, de percorrer transe”, canta o DJ. Erotismo é um dos segredos para se fabricar um potencial hit de Carnaval, diz Felipe Vassão, compositor e produtor vencedor do Grammy Latino.

Embora não haja receita de sucesso, os ingredientes mais procurados pelo público, ele afirma, são letras de duplo sentido, uma melodia imediata e, simples, o ritmo contagiante. “Precisa possuir uma convocação para que todo mundo cante e dance. Carnaval é um fenômeno físico, as pessoas querem viver uma catarse”, diz.

E “Jetski” surfa por todos esses pontos. Sampaio, que além de DJ é produtor, afirma ter desagregado pedaços da formação original para penetrar espaço para versos que ele queria que aparecessem mais de uma vez. “Repetição é imprescindível”, diz o artista. Para a melodia, o músico quis sons que remetessem ao mar e ao verão, uma vez que o fragor de ondas quebrando.

Mas o ouro está mesmo no refrão, que imediatamente viralizou nas redes. Nele, Melody canta “vou rebolar pra tu”, que só rima com o verso “vou te deixar maluco” porque ela distorce a última termo para terminar com um som que, de faceta, faz o público lembrar um palavrão que tem essa mesma sonoridade.

Melody, aliás, é fundamental para o sucesso de “Jetski”. Aos 19 anos, ela deixou de ser feita de piada pelo público para viver uma subida artística, paparicada agora por cantores de vários gêneros musicais, não só do funk.

Ela fez outras parcerias para o Carnaval, uma vez que “Desliza (‘Ólhinho’ no Corpinho)”, com o pagodeiro Léo Santana, e estaria também numa música de Anitta com Pabllo Vittar e Marina Sena, mas acabou sendo excluída porque vazou informações antes de seu lançamento.

O período de maré subida vem, porém, no rastro de uma série de polêmicas, uma vez que supostos desentendimentos com a própria Anitta e com Ana Castela, a sexualização do seu corpo em videoclipes gravados na puerícia e pela forma com que o pai conduz sua curso, o que frequentemente é objectivo de críticas. A geração de Melody em ambientes cheios de adultos sempre suscitou debates sobre a exposição de artistas crianças.

Convocar a cantora para “Jetski” foi uma estratégia para fazer dela uma diva pop, diz Sampaio. Por isso, ele reservou um trecho para Melody fazer uma dança com potencial de viralizar, que acabou se provando o momento mais empolgante nos shows, com a plateia tentando seguir os passos. Às vezes, Melody recorre ao playback na hora da coreografia, mas isso não parece incomodar o público.

Contou em prol de “Jetski” também um outro debate que se espalhou pelas redes, de texto mais biológico que músico, digamos —enfim, que som faz um golfinho? Tudo começou com um vídeo em que Pedro Sampaio conta uma vez que foi o processo de produzir a fita. “Ninguém percebeu, mas já começa com o som de um golfinho verdadeiro”, diz o DJ, antes de tocar um tinido limitado e agudo.

Bastou isso para surgir uma polêmica. O produtor Felipe Vassão publicou um vídeo em que mostra que os barulhos de “Jetski” não se parecem em zero com os que os golfinhos fazem na vida real. Segundo Vassão, Sampaio teria pescado o efeito sonoro num catálogo do dedo chamado Splice.

Os tinidos de “Jetski” são mesmo muito diferentes dos que os bichos marítimos emitem, afirma a bióloga Kamilla Souza. “Se forçar muito dá para manifestar que lembra um golfinho. As diferentes espécies emitem sons únicos, mas nenhum parece com os da música.”

Questionado, Sampaio se limita a manifestar que gosta de folgar quando produz. “Existem na internet vários bancos de ‘samples’ autorizados. ‘Jetski’ tem características orgânicas, uma vez que o som de vaga, porque elas combinam com a estética da música e trazem mergulho.”

“Jetski” quase afundou também em outra polêmica —um suposto plágio de “Somebody’s Watching Me”, clássico dos anos 1980 de Rockwell. O burburinho surgiu também a partir de Vassão, que apontou semelhanças na melodia do refrão das duas músicas em outra publicação no Instagram.

À idade, Sampaio não comentou o caso, e a gravadora Sony Music disse que não tinha zero a declarar. Em meio à discussão, o nome de Rockwell surgiu na lista de autores creditados pela fita.

Tanta movimentação na internet fez o nome de Sampaio disparar nas buscas. Segundo o Google Trends, o interesse pelo artista bateu recorde em janeiro deste ano, e segue crescendo. O DJ fica principalmente popular no Carnaval, mostra a plataforma, graças às músicas que ele lança para a sarau. Seu nome ganhou tração com “Dançarina” em 2022, e dois anos depois com “PocPoc”.

Sampaio tem ainda a vantagem de ser querido por várias tribos, o que amplia o alcance orgânico dos seus lançamentos. Bissexual, ele virou ídolo da comunidade LGBTQIA+ ao expor sua sexualidade no palco do Lollapalooza, em 2023. Depois, ele lançou uma parceria com Vita Pereira e Isma Almeida, as Irmãs de Pau, artistas travestis da cena independente.

Mas Sampaio também já fez várias faixas com artistas do funk e do sertanejo, gêneros dominados por pessoas heterossexuais. “Penso em todo mundo, não em gênero, classe social ou idade”, ele diz.

“Jetski” tomou a frente e cruzou águas internacionais ao escalar a argentina Emilia para um “remix”, mas outras faixas devem tocar bastante no Carnaval também. Uma delas é “Gostosin”, de Anitta com Felipe Amorim, mistura de funk e piseiro que está entre as 20 mais ouvidas do Spotify.

A folia terá ainda Ivete Sangalo, que instiga o público a chupar pescoços e o que mais der na telha em “Vampirinha”, fita que bebe de influências do pagodão baiano. A música foi massacrada por alguns, que consideraram a letra boba e vulgar —”se tu tem pavor de virar morcego/ libera o pescoço”—, mas abraçada por quem gosta de ver Ivete mais assanhada.

A cantora vem defendendo a fita ao manifestar que seu objetivo era tirar sarro. A letra, porém, rendeu a ela uma denúncia por secção do Ministério Público da Bahia depois de ela dançar “Vampirinha” com uma rapaz durante um show.

Mas Ivete ainda é rainha no Carnaval, e seu primeiro conjunto gratuito em São Paulo arrastou, na semana passada, 1,2 milhão de pessoas, estimativa da Polícia Militar. Eram foliões sedentos pelo fervo, uma maré que sobe ainda mais neste sábado e que só deve encolher quando a virilidade enfim se esgotar.

Folha

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