Festejado nacionalmente pela heterogeneidade de seu Carnaval, a cidade de Olinda, em Pernambuco, é hoje palco de um desencontro entre diferentes formas de movimentar a folia. De um lado, troças e clubes que tomam as ladeiras com frevo a plenos pulmões das orquestras itinerantes. De outro, blocos de samba que também sobem e descem o sítio histórico com ritmistas, instrumentos percussivos e carros de som.
O meio da questão é o uso da cidade por essas agremiações em dias de Carnaval ou meses que antecedem a sarau, as chamadas prévias. Além de movimentar os grupos que fazem a folia, a contenda chegou à prefeitura e também extrapolou as ruas para se tornar um debate incendido nas redes sociais.
Fãs de frevo afirmam que o transcorrer das orquestras pelas ruas é dificultado pelos grupos de samba, seja pelo grande número de instrumentistas, seja pela intensidade do som percussivo e mecânico —com uso de carros de som. Fãs de samba, por sua vez, afirmam que os grupos mantêm as ladeiras cheias de foliões e reforçam a pluralidade dos festejos carnavalescos.
Segundo pesquisa da consultoria Quaest realizada em 2025, há 46 orquestras de frevo em atividade em Olinda e Recife —conjuntos contratados por centenas de agremiações do gênero. Os grupos de samba, por sua vez, existiram em menor número no século pretérito, mas tem aumentado sua presença nas últimas décadas com blocos hoje famosos porquê D’Breck e Sambadeiras.
O imbróglio exigiu uma reunião de última hora nesta semana na sede da prefeitura de Olinda. As tratativas levaram a prefeita Mirella Almeida (PSD) a encolher um decreto com limitações para uso de som mecânico no carnaval e previsão de multa de R$ 10 milénio a grupos que impeçam a circulação das ladeiras a grupos de frevo, maracatu e afoxé.
O decreto também menciona a prioridade “a demais expressões reconhecidas porquê estruturantes da identidade cultural do município” e manifestações culturais “tradicionais” —termos pouco claros no documento.
“Olinda é o carnaval multicultural, cá cabem vários ritmos, mas é preciso entender que existem aqueles pelos quais a cidade ganhou o título de patrimônio cultural da humanidade —e não foi por justificação do samba, foi por justificação do frevo, que é a revelação cultural de maior relevância”, afirma Hilton Santana, diretor de informação da Troça Cariri, criada em 1921, e vice-presidente da Afrevo, a Associação das Agremiações de Frevo de Olinda).
A associação foi fundada no termo de 2025 reunindo 19 agremiações de frevo da cidade com a convívio entre diferentes tipos de carnaval na taxa. “Acaba sendo uma competição desigual com os grupos de samba porque estamos falando de instrumentos de sopro contra o som mecânico, que consegue atingir altos volumes, e isso acaba abafando as orquestras”, explica Santana.
“Se a escola de samba está ali na rua, mas tem uma assembleia de frevo detrás, vamos dar passagem ou vamos correr para o frevo poder passar, que não feche as vias para que a gente consiga finalizar o cortejo”, afirma o vice-presidente da Afrevo.
Diretor e rabi da Bateria Cabulosa, assembleia fundada em 2013, Múcio Mariano acredita que o samba é secção fundamental do carnaval olindense. O gênero e suas variações não são alienígenas nas práticas musicais pernambucanas. Enquanto nos anos 80 e 90 várias casas e eventos de pagode se espalharam pela capital Recife, é nos anos 30 em que se encontram os primeiros registros de escolas de samba na região, porquê nota o historiador Augusto Neves da Silva (UFPE).
De entendimento com o pesquisador, escolas de samba, “durante o período de 1955 a 1972, foram consideradas práticas condenadas por secção dos intelectuais por estarem, segundo salientavam, associadas a um fenômeno pertencente ao Rio de Janeiro.”
É também na dezena de 1970 que surgem dois importantes nomes do samba de Olinda: a GRES Preto Velho e a Patusco. Dissemelhante do protótipo de desfiles e samba-enredo do Rio e São Paulo, porém, essas agremiações hoje também tocam um repertório vasto de músicas durante seus festejos oficiais —alguma coisa mais próximo aos blocos de rua famosos nas capitais do sudeste.
“No nosso desfile você vai escutar de tudo, você vai escutar brega, você vai escutar rock em forma de samba, você vai escutar música tradicional, vamos tocar o próprio frevo”, diz o diretor. “Nos comentários das redes sociais, tem gente que diz que samba é coisa do Rio de Janeiro, mas o samba é Brasil.”
Em expedido publicado na quarta antes do carnaval, a Bateria Cabulosa informou que não faria seu desfile nas ladeiras de Olinda porquê era previsto anteriormente. “Do meu ponto de vista, acontece uma segregação de alguns moradores da cidade que nos tratam porquê se estivéssemos invadindo alguma coisa que não nos pertence, porquê se a nossa não cultura não fizesse secção do carnaval”, diz Mariano.
A legislação municipal de Olinda, de 2001, é desfavorável ao uso de som mecânico —ainda que deixe brechas à versão dada sua oficialização justamente antes do boom das baterias. A chamada “Lei do Carnaval” proíbe a instalação de qualquer tipo de sonorização no sítio histórico da cidade, mas prevê uso de sistemas sonoros itinerantes nos focos oficiais da prefeitura no carnaval exigindo que o repertório das festas priorize o frevo.
Para a Afrevo, outro problema é o uso de carros que puxam o som mecânico por ruas íngremes de paralelepípedo. “Se tem uma lapso mecânica no meio de uma povaléu, não tem porquê isso não ser uma tragédia anunciada”, afirma Santana, para quem uma opção é delimitar o desfile dos grupos de samba para a região limite da cidade antiga —mais plana e asfaltada. “O sítio histórico não suporta essa quantidade de agremiações.”
Os fundos públicos para o carnaval são um objeto também presente na taxa da associação. Em Olinda, as agremiações que fazem a sarau são financiadas por um misto de contratação e editais municipais e estaduais, além de pedestal privado —grupos mais famosos geralmente têm mais facilidade para conseguir patrocínio.
Segundo contratos da prefeitura de Olinda, a troça de frevo John Travolta, fundada em 1970, obteve R$ 15 milénio dos cofres públicos para realizar sua apresentação carnavalesca. A troça Cariri, com um século de existência, obteve R$ 40 milénio para desfilar em duas ocasiões.
O conjunto Sambadeiras, fundado em 2008, obteve em média R$ 10 milénio dos cofres da prefeitura para realizar três desfiles em 2025. O grupo D’Breck, de 2003, conseguiu R$ 100 milénio para três eventos também no ano pretérito.
Por se tratarem de termos de inexigibilidade de licitação, esses contratos prescindem da concorrência entre diferentes grupos. Na prática, o financiamento se taxa segundo fatores indistintos: não fica evidente quais pesos têm na conta elementos porquê tempo de vida de uma assembleia, número de membros, ornamentação do desfile.
A situação se torna mais turva quando os bastidores do legislativo e do executivo entram na conta. Segundo reportagem publicada pela Marco Zero Teor, grupos ligados ao vereador Felipe Promanação (PSD) e ao ex-prefeito Lupércio Promanação obtiveram cachês de até R$ 50 milénio para apresentações no último carnaval.
Lupércio é tio de Promanação, marido da atual prefeita de Olinda. Seu oponente nas eleições de 2024, Vinicius Fortaleza (PT), recebeu pedestal de dezenas de grupos de frevo de Olinda que saíram em cortejo dias antes do pleito —uma disputa apertada.
“A nossa estimativa de custos desse carnaval está na média de R$ 150 milénio para o Cariri”, diz Santana. “É uma dor muito geral às agremiações que estão aí há anos recebendo o mesmo valor”.
Para o vice-presidente da Afrevo, o samba também pode ter seu espaço no carnaval de Olinda. Mariano também vê uma saída conjunta para a disritmia do carnaval olindense. “O frevo é o coche patrão do carnaval de Pernambuco, é a mãe da nossa história”, diz ele. “Mas hoje, a gente também é cultura. Ninguém quer atrapalhar ninguém, ninguém quer ter o luz sozinho, o carnaval é para todos.”
