Uma vez que combinar arte e arquitetura? A partir desta pergunta, a mostra Destapado vem há quatro anos ocupando com pinturas, instalações, esculturas e desenhos casas de valia histórica, com exposições que são uma chance de o público visitar residências privadas de apelo cultural.
Depois de tomar casas de modernistas emblemáticos, porquê Oscar Niemeyer e Le Corbusier, a mostra chega agora a um endereço inusitado. Em sua quinta edição, que abre para visitação a partir do próximo domingo, a exposição desembarca em um ponto já incorporado ao imaginário paulistano —a Moradia Esfera, obra mais conhecida do arquiteto Eduardo Longo.
A vivenda em si é, porquê o nome indica, uma esfera de centena metros quadrados situada sobre um galpão numa mote dos bairros Itaim Bibi, Jardim Paulistano e Jardim Europa. Seu escorregador que sai a partir de um dos quartos, anteriormente ocupado por um dos filhos do arquiteto —sua família morou no imóvel por mais de 30 anos— parece um sonho de petiz materializado por um adulto.
Some-se a isso o invólucro prateado e a construção, da segunda metade dos anos 1970, erguida num período de cinco anos pelo próprio arquiteto, entrega a quadra era do espaço em que foi feita. “Depois que fiz a globo fiquei com notabilidade de maluco”, diz Longo, em tom muito humorado. “O mundo estava indo para o movimento hippie, de ter menos coisas, ser mais simples. Mas não deu isso. O que vingou foi o movimento yuppie, de ter mais coisas.”
Com seu gravura único, escassez de paredes retas e espaço restringido, seria difícil expor obras de arte dentro da vivenda, segundo os organizadores da Destapado, Filipe Assis, Kiki Mazzucchelli e Cláudia Moreira Salles, que temiam que esta Destapado fosse a menor de todas. No término, aconteceu o contrário e esta edição da mostra, com 50 artistas, acabou por ser a maior.
As obras de arte —muitas das quais inéditas, feitas sob encomenda para a exposição— podem ser vistas no dentro da vivenda, uma espécie de grande gaiola com 1.000 metros quadrados e ingressão pela avenida Brigadeiro Faria Lima. É um galpão de três andares com piso de tela furada, cheiro dos tapetes de borracha que delimitam o trajectória da exposição e trilha sonora dos motores de carros e ônibus de uma das ruas mais movimentadas da cidade —mais urbano, impossível.
Segundo Mazzuchelli, a teoria foi selecionar obras que dialoguem com a arquitetura de Longo e o seu universo afiliado à contracultura. Por isso, há poucos trabalhos históricos na exposição, que deixou de lado o modernismo e o concretismo presentes nas edições anteriores para se estancar numa seleção de arte contemporânea com alguma coisa de arte pop.
Por exemplo, uma tela em tinta acrílica de Luiz Zerbini mostra círculos em diversos tamanhos e cores sobre um fundo prateado, formação que avalancha à Moradia Esfera. O quadro está ao lado de uma maquete de um prédio formado por casas globo, um sonho de Eduardo Longo que nunca se realizou —em sua cabeça, as esferas seriam módulos a serem encaixados numa estrutura e trocados quando o morador quisesse fazer uma reforma em vivenda sem sujeitar os vizinhos ao caos de uma obra.
Há também alguns trabalhos que olham com evidente humor para a quadra da exploração espacial, seja na temática, porquê a famosa pintura de um astronauta de Claudio Tozzi, ou no nome e nos materiais, a exemplo dos chamados discos voadores de Laura Lima, engenhocas feitas com pratos, copos e utensílios de cozinha diversos, expostos porquê pendentes.
No andejar térreo, o público vê uma seleção de telas abstratas em grande formato assinadas por mulheres de destaque na cena artística dos anos 2020, porquê Luísa Matsushita, Marina Simão e Vivian Caccuri. Há ali também duas esculturas, uma de Erika Verzutti e outra de Sarah Lucas, único nome estrangeiro da mostra. No piso superior, vale ressaltar as esculturas em forma de osso de Paulo Monteiro posicionadas ao lado de grandes telas brancas de resina de Juliana Frontin.
Uma vez que homenagem ao arquiteto da Esfera, uma parede exibe, de ponta a ponta, materiais históricos de Eduardo Longo. São fotos e projetos das casas inusuais que ele construiu antes da Esfera —um período marcado pelo uso rico do concreto—, e a imagem da frontispício da loja de discos Hi-Fi, no shopping Iguatemi, em São Paulo, em que a vitrine é parcialmente encoberta por estrutururas monolíticas, alguma coisa muito mais criativo do que o padrão insosso dos pontos comerciais dos shoppings de hoje.
Filipe Assis, da Destapado, diz que a Moradia Esfera sempre esteve nos planos “porque não existe zero igual, tanto cá porquê fora do Brasil”. O formato da vivenda determina seu interno, com mobília feita sob medida para ambientes curvos, uma geladeira escondida na parede e vasos sanitários pequeno, oferecido que os de tamanho normal não cabem. A sentimento é a de se estar num cenário.
A vivenda lembra vagamente uma das cápsulas da torre Nakagin —construída em Tóquio e depois demolida—, formada por estruturas modulares de morar que poderiam ser encaixadas e retiradas com certa facilidade do prédio. Mas o fundador da Moradia Esfera conta que seu projeto de um prédio de esferas difere da construção japonesa porque o seu seria de apartamentos não-geminados nos quais o ar e a luz circulariam livremente, não uma obra convencional com as casas coladas umas nas outras.
Se a teoria de morar numa globo parece um delírio que tem lá a sua perdão, talvez a experiência trouxesse aos habitantes o mesmo repto que Longo teve ao habitar o seu círculo privado de espaço finito. “O difícil é você não ter coisas, se livrar de colecionar”, ele diz, com bom humor. Pobre dos acumuladores.
