Pensar uma mansão não porquê uma série de cômodos separados por paredes e interligados por corredores, mas porquê um grande espaço de convívio com amplas salas abertas, nos moldes de uma rossio.
Leste concepção guiou muito da obra de Ruy Ohtake, arquiteto morto em 2021 que deixou sua marca na cidade de São Paulo com construções porquê os hotéis Unique e Renaissance, voltados à classe subida, e um conjunto de moradias populares na favela de Heliópolis.
Uma de suas casas-praça mais conhecidas é a residência que desenhou para a sua mãe, a pintora e escultora Tomie Ohtake. A artista morou na grande construção de paredes de concreto aparente entre 1970, quando a obra ficou pronta, e 2015, ano de sua morte.
Agora, o lugar no bairro do Campo Belo —casa-fetiche no meio da arte pelas festas que Tomie dava e pelos grandes nomes que ali circularam, porquê o arquiteto Paulo Mendes da Rocha e a artista Yoko Ono—, passa a furar para visitação do público porquê um núcleo cultural, com exposições de arte e design, conversas com pensadores e pequenas apresentações musicais.
Ou seja, a mansão passa a ser uma extensão do Instituto Tomie Ohtake, núcleo cultural localizado no bairro de Pinheiros que completa 25 anos em 2026 —e que também foi desenhado por Ruy Ohtake. Diferentemente do instituto, onde a ingresso é gratuita, acessar a residência custa R$ 50.
A mostra principiante na mansão reúne fotos, maquetes, vegetalidade e desenhos de Ruy para cinco residências projetadas por ele entre 1960 e 2000 —a casa-ateliê Tomie Ohtake, de 1966, a residência Chiyo Hama, de 1967, a residência Nadir Zacarias, de 1970, a residência Domingos Brás, de 1989, e a residência Zuleika Halpern, de 2004.
Há também na exposição materiais sobre os prédios do condomínio residencial Heliópolis, de 2008, conhecidos porquê “redondinhos” devido ao seu formato circunvalar. É verosímil ver, por exemplo, um esboço à mão da vegetal de um dos apartamentos de 55 metros quadrados que, pelo seu formato de fatia de pizza, permite a ampla ingresso de luz e circulação de ar, além de prometer uma vista aos moradores.
Ruy tinha muito carinho por leste projeto e levava pessoas de fora para conhecerem os prédios, diz o seu irmão, o designer gráfico Ricardo Ohtake. Ele destaca também a capacidade do arquiteto de ler com agentes do poder público e fazer as suas ideias se materializarem.
Na mesma favela, a maior da cidade de São Paulo, com murado de 200 milénio habitantes, Ruy ajudou a pôr em pé a Livraria de Heliópolis e organizou a pintura das fachadas das casas das ruas Mina e Paraíba, com cores escolhidas pelos próprios moradores.
Mas, independentemente da exposição —que não é tão instigante e deve atrair só os interessados em arquitetura—, o isca da mansão de Tomie é a própria construção. Ao caminhar por seus espaços de paredes pintadas de amarelo, azul e vermelho, num trajectória que alterna ambientes iluminados com outros de caverna, o visitante entende o concepção de casa-praça.
Os quartos, minúsculos, são espartanos, com uma leito com base de concreto pequena, um armário encaixado e, no caso do de Tomie, um banheiro incorporado. “É uma mansão com poucos espaços fechados. Você acorda e a primeira coisa que faz é transpor do quarto”, diz Ricardo Ohtake.
Todo o resto acontecia nas duas salas ao volta da lareira, na livraria, no largo jardim da piscina e no ateliê da artista, onde foram mantidos segmento de suas tintas e pinceis e uma parede com estudos de pinturas, de modo que o visitante entra um pouco no universo de Tomie.
Nesta transição para núcleo cultural, também foram mantidos os livros nas estantes e as maquetes das obras públicas de Tomie, a exemplo de uma na avenida Paulista, próxima ao metrô Trianon-Masp, e das ondas instaladas junto ao Núcleo Cultural São Paulo. Fora isso, o público pode ver uma segmento da coleção de arte dela, porquê uma pintura de Volpi e gravuras de Anna Bella Geiger e de Le Corbusier.
Quando a primeira segmento da mansão foi construída, lembra Ricardo, o Campo Belo era formado basicamente por casas de famílias de classe média que apreciavam uma pacata vida de bairro. Há uma foto dos anos 1970 em que vemos a frontaria com um Fusca estacionado e, em outra imagem preto e branco, Tomie toma banho de sol à extremo da piscina.
Depois vieram mais duas expansões até a residência tomar a forma de hoje, agora num bairro referto de prédios com movimento intenso de trânsito e aviões passando sem parar, devido à sua proximidade com o aeroporto de Congonhas.
A mansão foi tombada pelo Conpresp, o órgão municipal de preservação do patrimônio, em 2013, o que quer expor que descaracterizações em seu esboço são proibidas e sua frontaria precisa ser preservada. Que bom ser assim, para quem visitante poder testar esta joia da arquitetura paulistana porquê ela foi pensada.
