Castiel vitorino celebra carreira no solar dos abacaxis 16/08/2025

Castiel Vitorino celebra carreira no Solar dos Abacaxis – 16/08/2025 – Ilustrada

Celebridades Cultura

No texto “Flutuações na Liberdade”, Paul Valéry revela porquê “liberdade” é uma vocábulo em disputa, não só pelo seu significado, mas pelo seu valor e uso —está, finalmente, nos discursos do KKK e também nos da Pantera Negra, na boca de Donald Trump e na de Mahatma Gandhi.

“Liberdade: é uma dessas palavras detestáveis que têm mais valor que significado; que cantam mais do que falam; que perguntam mais do que respondem (…) vocábulo muito boa para a controvérsia, a dialética, a eloquência; tão adequadas para análises ilusórias e sutilezas infinitas porquê para os finais de frases que desencadeiam trovões”.

“Eterno Vulnerável”, individual de Castiel Vitorino no Solar dos Abacaxis, expõe e transcende ideias de liberdade e trato, sempre cruzando experiências psicológicas, espirituais e artísticas.

“Para as populações negras em diáspora é sempre uma questão falar de liberdade. E, por ser uma mulher transexual, também me atinge esse imaginário da trato em volta da transexualidade e homosexualidade. Por isso, tento estudar e fazer as pazes com estas palavras. E manifestar o que eu penso que é liberdade e trato”, explica a artista.

Mas, apesar da exposição trazer questões muito pessoais e íntimas, Castiel não chega no Solar com uma postura egocêntrica. Pelo contrário, todo o seu trabalho é sobre escuta e nobreza.

Logo na ingresso da mostra, é verosímil ver uma instalação imersiva formada por quatro grandes estandartes —uma referência às tradições afrobrasileiras porquê congo, ticumbi, carnaval— tingidos e preenchidos por escritos, rezas, costuras e desenhos que mapeiam a própria história de Castiel. Sua trajetória é marcada por presenças e ausências intensas, prelúdio do que surgirá na exposição.

Os números são uma espécie de narração criada por Castiel para simbolizar o processo do desaparecimento de sua mãe e as mãos impressas fazem referência a uma parede criada por seu pai que reproduziu, talvez inconscientemente, um gesto avito e atávico de asserção da existência.

No núcleo, um campo de terreno adubada protege o tablado onde são apresentadas esculturas de barro que evocam ninhos, casas, casulos e cupinzeiros com cores e formas que fazem referência ao Cosmograma Bakongo —símbolo bantu que remonta ideias de vida, morte, ancestralidade e transformação.

A terreno funciona porquê uma espécie de campo magnético que representa a fertilidade, a luta por território e também os ciclos da vida. “Castiel sempre nos convida a viver imersões multi-sensoriais para que, no encontro com elementos do mundo, o público consiga estar presente de maneira integral, sentindo-se segmento de um todo, desta grande perenidade que não tem bordas ou limites”, explica Bernardo Mosqueira, curador da mostra ao lado de Matheus Morani.

Castiel sempre questionou estes limites e as categorias que usamos para ver e mourejar com o mundo. Ela reconhece o impacto real destas classificações, na distribuição desigual de violência, recursos e afetos, mas também as compreende porquê ficções que aprisionam as pessoas. Logo, negá-las é um processo de trato, libertação e potência. A instalação é, portanto, um território de protecção e transformação ou, porquê define a artista, um “espaço perecível de liberdade”.

Tanto a psicologia quanto a arte entra em sua vida por uma vontade grande de entender sofrimentos individuais e sociais. “Enquanto a psicologia é uma ciência que vai atuar no seu sujeito, arte transporta tudo para o coletivo”, pontua a artista. Não à toa, ela convida o público a vivenciar seus trabalhos coletivamente e a testar o que nos é generalidade e importante – porquê os elementos da natureza e a respiração —para dissolver conceitos que estruturam a colonialidade, incluindo questões sociais, raciais e identitárias, que podem ser comuns a muitos.

A série “Método Rudimentar” nasce de rituais de escuta e trato nos quais a artista propõe uma reflexão coletiva e desenhos coreografados de linhas que devem se encontrar num ponto médio generalidade. Algumas dessas obras foram levadas para o ateliê e Castiel fez intervenções que fazem referências a seu universo pessoal —flores, libélulas, laços, luas, estrelas, peixes— e celebram sua própria ancestralidade.

Enquanto se formava porquê artista e psicóloga, Castiel se aprofundou no uso de somagramas —técnicas terapêuticas de estampa nas quais o paciente é convidado a simbolizar o próprio corpo e emoções. Com o tempo, ela criou uma série de aquarelas onde revê seu corpo ao negar formas coloniais de se pensar o corpo humano.

Surgiram, assim, desenhos livres de seres marinhos que foram se complexificando com o tempo. “Na cultura afro-diaspórica o peixe é um bicho sagrado. E vários mudam de sexo, sabia? Eu mesma sou meio sereia, não acha?”, brinca.

No segundo caminhar, os peixes aparecem em pinturas de cenas bucólicas de fazendas e rios tirados de seu imaginário de puerícia preenchido por desenhos da avó paterna, Julite, que também aparecem na exposição.

“Cá ela coloca o peixe em diálogo com elementos que a avó pintava. Mais do que um encontro, existe cá, um alinhamento. É porquê se Castiel se colocasse porquê herdeira de uma linhagem”, explica Mosqueira sobre o espaço onde o universo da artista se mistura ao de Julite.

“Olhei para os meus trabalhos antigos e percebi que a flor é um elemento que sempre esteve presente. Entendi que elas vieram das pinturas de minha avó, logo resolvi assumir esse poder feminino da minha família e obra”, defende a artista. “Trago e reverencio a natureza, também, para substanciar a humanidade dentro da transexualidade. É mais importante, para mim, falar sobre cores, flores, terreno, chuva e ar, do que só manifestar ‘sou uma travesti’. É sobre a núcleo da vida”.

No núcleo do espaço, vemos outra série de esculturas cercadas por terreno fértil. “Não Dá pra Não Pensar em Você” é uma estrutura piramidal que exibe 15 dormentes de madeira cobertos por mosaicos de espelhos e ladrilhos. O número escolhido é um marco simbólico dos 15 anos do desaparecimento da mãe de Castiel, Ingrid, pontuados também na primeira instalação da mostra que recebe o mesmo nome da matriarca.

“Estes pedaços de madeira maciça são usados para fazer trilho de trem e escadas. Trago esse elemento porquê simbologia de um caminho que preciso traçar”, explica a artista. “Não tem porquê falar sobre liberdade sem falar sobre a minha relação com a minha mãe. Ela desapareceu em 2009, e desde logo isso se tornou uma escassez que marca tudo. É um trabalho sobre memória, saudade e trato, mas também sobre a forma porquê a escassez pode ser presença. Esses totens são porquê marcadores de tempo, de afeto e de resistência”, diz.

“Eterno Vulnerável” é uma descrição poética sobre a liberdade que é, em qualquer proporção, permanente, mas está sempre em risco. É também uma narrativa sobre a própria Castiel, uma pessoa “eternamente vulnerável” ou alguém que é eterna e, ao mesmo tempo, vulnerável.

“Há, cá, uma pontuação sobre temporalidade e transmutação. Não uma noção de tempo homogêneo, mensurável, irretornável. Mas o tempo espiralar onde tudo pode se sobrepor, reformar, transformar. É o presente enquanto perpetuidade. E a vulnerabilidade não só porquê fraqueza, mas porquê a possibilidade de entrar em contato com as próprias emoções”, pontua ela.

E Castiel se coloca, cá, o mais vulnerável verosímil. Abre o peito e mostra a própria natureza de suas emoções, expõe os próprios medos e dores. Mas não somente para costurar uma trato individual, mas para elaborar um tanto que pode ser importante para outras pessoas.

Levante intuito fica evidente quando ela usa espelhos para fabricar os mosaicos. O revérbero coloca o público dentro da obra, entrega nossa própria imagem para nós mesmos e pergunta: Quais são os seus processos de luto? E de transformação? Quais são os pesos que você carrega e quais os fragmentos do mundo que você pode transforma em venustidade e se libertar?

Folha

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