Em maio de 2020, no início da pandemia de Covid-19, numa cidade fictícia do Novo México, Eddington, um drama resume muito o surto que os Estados Unidos, em privado, e o mundo em universal, passava. O filme com o mesmo nome encena o trágico e o ridículo de uma espécie psicótica porquê a nossa.
Uma vez que disse certa feita Kafka ao seu camarada Max Brod, que o acusava de pessimista por parecer não ter nenhuma esperança: “esperança há muitas, mas não para nós”.
O filme “Eddington”, dirigido por Ari Aster, e estrelado por Joaquin Phoenix, Pedro Pascal e Emma Stone, é uma estudo psicossocial da América profunda atravessada não só pela pandemia de Covid-19 em 2020, mas também pela tragédia que matou George Floyd e o surgimento do movimento Black Lives Matter. E toda a cacofonia que se seguiu a esses eventos.
Com um ligeiro toque de sátira, o filme é um quadro de porquê pequenos atos das pessoas crescem ao ponto de mergulharmos num nonsense integral. Um dos grandes efeitos do filme é destruir a crença no sentido de muitos dos diálogos em inúmeras cenas.
Ninguém ouve ninguém e a razão soa patética nas tentativas de ser ouvida. O mito idiota iluminista surge em toda sua estupidez. O filme torna-se uma cacofonia histérica em que os protagonistas somos nós, ainda que representados pelos personagens, porquê na tragédia grega.
Primeiro de tudo, as discussões ridículas que ouvíamos sobre máscara, sim, máscara, não —alguém ainda lembra disso? Uma espécie de liberalismo tosco não queria reconhecer que uma pandemia é um quadro coletivo e social e não, exclusivamente, individual.
O xerife, interpretado por Joaquin Phoenix, faz o oração do liberal tosco contra a norma do prefeito, Pedro Pascal, seguindo a norma do governo, que estabelecera o lockdown. Tudo tão longe, né? Uma vez que alguém ainda pode crer numa memória social?
Lembro da horda de idiotas que afirmavam que a humanidade seria outra por conta da pandemia, mais solidária e humana. Outros viam um sentido místico na pandemia. Dela esquecemos cinco minutos depois. E se outra vier, o circo se repetirá. Mas o caos em Eddington não se restringe a pandemia enquanto tal.
O movimento Black Lives Matter põe em marcha um significativo grupo numericamente minúsculo de jovens da cidade que se lançam a um protesto e quebram lojas. Cacofonia absoluta. Jovens brancos quase se autoflagelando porque pisavam em solo “roubado” dos povos originários e que deveria ser devolvido a essa população.
Um pai lúcido labareda a atenção de um desses jovens, seu rebento, o quão ridículo era ele, um branco, falar essas coisas. Num oração mais avante no roteiro, oriente mesmo menino anuncia que brancos porquê ele deveriam perder o recta à vocábulo. E depois, se torna um influencer conservador nas redes. Uma vez que somos ridículos, e ainda tem gente que nos leva a sério.
As cenas revelam o tom grotesco de muitos desses protestos, em que os jovens assumem faces, gestos e palavras de psicopatas alienados numa “pretexto” qualquer. O ativismo fez e faz muito mal aos jovens, além, é simples, de prestar um enorme serviço à preguiça que os assola quando têm que arrumar o quarto, atividade muito mais difícil do que salvar o mundo e seguir a Greta Thunberg. Causas sociais e políticas corrompem o caráter dos mais jovens.
Uma jovem esposa —a premiada Emma Stone—, completamente perdida, abandona o marido por um guru picareta que mistura Jesus e combate a pedofilia. O “grande líder” vive narrando supostas histórias que teriam realizado com ele na puerícia que soam completamente absurdas e mentirosas para quem tem supra de dois neurônios. Ela, por sua vez, vive a clássica esposa entediada em procura de um amante poderoso e audacioso.
Pandemia, movimentos sociais de protestos cada vez mais agressivos ao longo do roteiro, seitas de cristãos que deixariam os mais radicais dos evangélicos em crise. Uma verdadeira entropia social mascarada de causas políticas.
Mas a loucura graduação. Grupos denominados “terroristas”, que voam —em jatinhos— atacam a cidade e o xerife, que tudo que quer é ser prefeito, coroando o caos e o “horizonte” político bufão da pequena e irrelevante cidade.
O que todo mundo quer é permanecer famoso. A cidade lembra o Brasil, no seu ridículo libido de ser relevante quando é, na verdade, um zero do ponto de vista geopolítico.
O filme é um manobra de desfaçatez filosófico fazendo um sobrevoo sobre o cenário das causas sociais do século 21. A América, maior potência mundial, se afoga na própria loucura criada no seu quintal, transformando a população num ninho de cobras. O tema é a entropia social e política.
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