Responsável de tramas de ficção científica, o quadrinista J. M. DeMatteis compara viver nos dias de hoje a estar recluso no mais estranho dos episódios de “Além da Imaginação”, a série americana dos anos 1960.
“Estamos vivendo uma das épocas mais estranhas que já presenciei”, ele afirma. “E é exatamente por isso que é tão importante nos agarrarmos à nossa humanidade e mantermos a condolência, conservarmos o mínimo de rectidão —porque é fácil perder tudo isso.”
O quadrinista sugere que esses são valores que andam em falta nos Estados Unidos. “Há certas pessoas, principalmente neste país, que parecem valorizar mais a arrogância, a intimidação e a crueldade do que qualquer outra coisa.”
DeMatteis é um dos roteiristas mais consolidados do quadrinho americano, responsável de obras uma vez que “Varão-Aranha: A Última Caçada de Kraven”, “Liga da Justiça Internacional” e “Moonshadow”, além de grafar para a televisão e para o cinema.
Ele vem pela primeira vez ao Brasil em dezembro, para a CCXP, a invitação da editora Pipoca e Nanquim. Estará presente nos quatro dias de evento no Artists’ Valley, espaço reservado para escritores, quadrinistas e desenhistas divulgarem suas obras
Publicado em 1987, “A Última Caçada de Kraven” é tido até hoje por muitos leitores uma vez que o melhor quadrinho de “Varão-Aranha”. Na história, a ação é veículo para o desenvolvimento interno dos personagens, que lidam com questões uma vez que a honra, o susto, o responsabilidade e a identidade.
“Eu tendo a grafar de dentro para fora —o que mais me fascina é o que está acontecendo dentro da cabeça das pessoas”, diz DeMatteis.
Peter Parker acorda com um mau pressentimento. Ele sente susto, e isso o distrai, permitindo que o caçador Kraven, um opositor divulgado do herói, apanhe sua presa. A Aranha é sepultada viva, e Kraven veste por duas semanas seu véu.
Trajado uma vez que ele, o impostor vence e conquista Vermin, um outro vilão que até logo o verdadeiro cabeça de teia não havia conseguido estancar sem ajuda. Quando Peter enfim se liberta, o caçador o atrai para uma guerra com Vermin, que sai vitorioso. Convicto de assim ter se provado superior a Peter, Kraven liberta os dois.
Russo aristocrata que fugiu para os Estados Unidos com seus pais, lá empobrecidos e enlouquecidos, em seguida a queda do czarismo, Kraven encontra no experimento uma forma de restaurar a honra perdida com a imigração forçada e com as seguidas derrotas para o Varão-Aranha, símbolo da novidade era. Satisfeito em seguida sua última caçada, Kraven se suicida com um rifle.
O quadrinista conta à reportagem que “A Última Caçada de Kraven” não existiria se não fosse por outra de suas criações mais queridas, “Moonshadow”.
O quadrinho, esse com personagens autorais, ficou célebre pelas ilustrações bastante artesanais de Jon J. Muth e pelo estilo literário da narrativa, comparada por vezes às tramas dickensianas. A história é uma fantasia cósmica sobre uma muchacho que foge de um zoológico intergaláctico rumo a um mundo despedaçado pela guerra.
“Eu pude grafar ‘Moonshadow’ uma vez que escreveria um romance. Tive liberdade para descrever a história do jeito que eu queria, e isso me permitiu encontrar minha voz uma vez que jornalista”, ele afirma.
“Por isso pude voltar ao universo Marvel e grafar alguma coisa uma vez que ‘A Última Caçada de Kraven’, porque eu quebrei todas essas barreiras, muitas delas auto-impostas, sobre o que um quadrinho poderia ser.”
“Moonshadow”, diz DeMatteis, foi provável graças à cena ousada e rica dos mercado americano de HQs dos anos 1980. Na era, selos vinculados a grupos editoriais consolidados investiam em histórias que desafiavam as convenções no quadrinho tradicional, buscando revitalizar a mídia.
Em verificação com aquela era, o quadrinista acredita que hoje há muito mais formas de um responsável mostrar ao mundo suas histórias originais, e já não é preciso depender do base das editoras. Ele mesmo, em paralelo ao seu trabalho convencional, publica a série “The DeMultiverse” através de uma plataforma de financiamento coletivo. Por outro lado, hoje é mais difícil para um quadrinista remunerar suas contas com seus próprios personagens.
“A menos que você tenha escrito ‘The Walking Dead’ , alguma coisa que estoure de forma gigantesca, você provavelmente não vai lucrar muito verba com um trabalho autoral logo de rosto. Isso costuma intercorrer só mais para frente, com o tempo.”
Outra das novidades que chegam agora no debate sobre quadrinhos é menos acolhida pelo responsável do que as novas formas de publicação. Ele descreve o uso de perceptibilidade sintético na geração artística uma vez que repugnante, e diz que a instrumento aprende roubando de escritores, artistas e empresas.
“Acho que a IA é realmente valiosa na medicina e em áreas assim. Mas é da experiência humana que nasce a arte. Uma máquina pode imitar isso, mas ela não tem vivência humana. Não sente nossas lutas, nossa dor, nossa alegria —todas essas coisas. Ela só conhece os conceitos dessas experiências, que obteve garimpando o trabalho dos outros.”
DeMatteis adorou o novo “Superman” de James Gunn —e uma vez que o herói é movido por condolência na releitura— e tem grandes expectativas para o próximo “Quarteto Fantástico”, de Matt Shakman. Acredita que eles podem ajudar a revigorar os filmes de heróis que, reconhece, já não têm o mesmo protagonismo de alguns anos detrás.
Ele afirma que a popularidade que os heróis ganharam naquele período não aumentou significativamente o número de leitores de quadrinhos, e que eventos uma vez que a CCXP são hoje cheios de gente que nunca pegou uma HQ na mão.
“Muitas convenções de quadrinho viraram alguma coisa meio a meio. De um lado, você tem o pessoal dos quadrinhos. Do outro, umas 50 celebridades que todo mundo vai ver porque estiveram em qualquer filme”, afirma.
“A gente torce para que alguns desses que vieram pelos filmes acabem escorregando para o lado dos quadrinhos também, porque, no término das contas, sem os criadores de quadrinhos, não haveria nem filmes nem séries.”
Ainda assim, DeMatteis se diz entusiasmado para vir ao evento. “A resposta que a gente recebe mundo afora é incrivelmente calorosa e apaixonada. Já estive em convenções em que nem a minha família poderia ter me tratado melhor.”
