Certos medos e angústias não têm relação com a idade

Certos medos e angústias não têm relação com a idade – 31/12/2025 – Drauzio Varella

Celebridades Cultura

Anos detrás, eu achava que os 80 anos me encontrariam num estado de serenidade plena. Simples que não tinha a pretensão de resolver as contradições do mundo, muito menos a de interpretar os mistérios da quesito humana, mas achava que estaria livre das angústias e dos desacertos existenciais que me atormentavam.

Eu estava iludido. Os medos, a sofreguidão, as frustrações e perdas atribuídas ao envelhecimento são universais, não importa se você tem 40 ou 70, ou 90 anos. Lord Byron escreveu aos 36 anos:

“Meus dias estão nas folhas amarelas/ As flores e frutos do paixão se foram/ O verme, a doença, e o luto/ São somente meus”.

A preocupação com o envelhecimento aflige a mulher e o varão moderno, muito mais do que inquietava nossos ancestrais. Eles viviam cercados por tantos perigos, que pensar nos problemas da vetustez não fazia o menor sentido. Assolados por doenças graves, guerras, inópia e epidemias, completar 30 anos era privilégio de poucos no tempo das cavernas.

Embora sempre tenha havido mulheres e homens com 70 ou 80 anos, eles costumavam atingir essa idade em condições tão deploráveis que se referiam à vetustez uma vez que natividade inexaurível de dores, limitações cognitivas, prazeres perdidos e decadência física.

Montagne escreveu há mais de 450 anos: “Que fantasia inútil esperar a morte causada pela perda dos poderes trazida pela idade avançada… Uma vez que essa é a mais rara das mortes… Nós a chamamos de oriundo, uma vez que se fosse contrário à natureza ver um varão quebrar o pescoço numa queda, afogar-se num naufrágio, ser dizimado pela peste ou pleurisia… Morrer em idade avançada é um evento vasqueiro, uno e insólito, portanto menos oriundo do que os outros.”

Desde Montagne, a expectativa de vida aumentou lentamente. Num de seus textos, Machado de Assis se refere a um “velho gaiteiro de 50 anos”. Anos detrás, quem chegava aos 60 anos era sexagenário. No início da curso, ao ouvir uma paciente expor que tinha 70 anos, mas não se considerava velha, julguei que lhe faltasse autocrítica.

Em meados do século 20, o crítico literário Irving Howe escreveu: “Já tendo chegado aos 60 anos, penso com frequência na morte… Algumas vezes em resposta às mensagens do corpo: uma flechada no peito, um ringir nos ossos da bacia. Outras vezes penso no libido de mais tempo: para terminar outro livro, o termo de outro tirano para ser festejado. As pessoas se iludem supondo que a inópia de viver tenha alguma validade objetiva”.

Com a mesma idade, William Yeats publicou o poema: “O que farei com oriente contraditório/ Oh coração, Oh coração importunado —esta caricatura,/ Idade decrépita que foi amarrada a mim/ Uma vez que a rabo num cachorro?”

Howe e Yeats morreram sem saber que, no século seguinte, os brasileiros com mais de 60 anos constituiriam a filete etária que mais cresce. Se eles tivessem chegado a essa idade no Brasil de hoje, teriam a expectativa de viver mais 22 anos, em média.

Ao contrário dos que se retiravam da vida ativa aos 50, em obediência às recomendações médicas de “fazer repouso”, o duelo agora é envelhecer com sabedoria, o que implica em concordar as limitações impostas pelo corpo, sem largar a atividade física e o libido de testar o novo. É combater a vontade de desistir, de isolar-se, de descobrir que não vale a pena viver, de se queixar de tudo e de todos, o tempo inteiro.

É não se irritar quando se referem a nós, velhos, com eufemismos: terceira idade, melhor idade e idoso, palavras que nos infantilizam. Você compraria um vinho idoso ou da terceira idade? Pior ainda quando dizem que temos cabeça de jovem. Uma vez que você se sentiria aos 30 se lhe dissessem que sua cabeça é de 15?

Bernard Shaw escreveu aos 92 anos: “É mais difícil mourejar com o envelhecimento do que com a morte… Crer na imortalidade genuína é crer no horror inimaginável”.

Em mais de 50 anos de oncologia, adquiri a sentimento de que quem passou a existência sem fé religiosa, uma vez que eu, aceita com mais naturalidade a teoria do eterno não-ser. Enquanto não recebo a visitante da indesejável senhora, procuro conduzir a minha vida seguindo a filosofia do poeta: “Que não seja imortal posto que é labareda, mas que seja infinita enquanto dure”. Ou, de conciliação com a linguagem simples de seu José Araújo, carcereiro do vetusto Carandiru: “Sabendo levar, doutor, a vida é uma sarau”.

Feliz Ano-Novo.


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Folha

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