Houve um momento em que o cinema não era mais uma novidade espetacular, mas também ainda não era visto uma vez que uma arte. Nessa estação existiu uma exceção. Charlie Chaplin e seu personagem, Carlitos. Um gênio, sem incerteza. Ainda assim, dizia-se, ele era antes de tudo um grande palhaço. Se tivesse um picadeiro ou um palco, em vez do set de filmagem, ainda seria um gênio.
Basta ver “Em Procura do Ouro” —que chega agora aos século anos absolutamente moderno e com sessões de sua traslado restaurada pelo Brasil—, para ver que não era muito assim. Carlitos precisava do cinema para ser Carlitos. Não é fácil encontrar um filme mais cinematográfico do que esse. “Chaplin colocou todos os meios do cinema a serviço de seu personagem e de sua comicidade”, escreveu Francis Bordat, estudioso do cineasta.
Sim, porque é preciso não olvidar que Chaplin era o produtor, o diretor, o roteirista de seus filmes. Logo que o filme começa, ele expõe o estranhamento —o mendigo que tanto conhecemos está lá, no gelo, com seus trajes de sempre, a frase curiosa e observadora. E, uma vez que sempre, um tanto deslocado. Aquele lugar não é, em definitivo, o seu.
A primeira grande sequência cômica do filme logo chega. Envolve, a princípio, Carlitos e o vilão Larson. Ambos tentam ocupar uma colmado durante uma tempestade de neve. Existe um combate entre a força bruta de Larson e a esperteza de Carlitos. Estamos no Alasca, na corrida do ouro de 1898. Ali, o principal inimigo dos dois homens não é um urso nem a natureza, mas a míngua. Ela será talvez o tema meão do filme, tanto quanto o insensível.
Quando Larson é levado por uma tempestade de neve —quando uma porta se abre, alguém voa, arrastado pelo vento—, chega Big Jim, o aventureiro que acredita ter invento uma serra de ouro e com quem Carlitos fez amizade. Companheiro ou não, Big Jim arranca com tanta força o pedaço de osso de que Carlitos tenta tirar as últimas lascas de mesocarpo que quase come junto o dedo do outro.
Pouco depois, uma cena clássica. Sem nenhum manjar à vista, vencido pela míngua, Carlitos cozinha uma botina e oferece a sola a Big Jim, que recusa. O grandão fica com o pele. Mas Carlitos não se aperta: come a sola com classe, tirando cuidadosamente os pregos, uma vez que se aquilo fosse um peixe, enquanto Big Jim desavença com o pele. Por término, Carlitos experimenta os cordões da botina uma vez que se fosse um sofisticado prato da culinária italiana e lambe os pregos da botina uma vez que se fosse a suprema iguaria.
Em torno da míngua se organiza o festim humorístico. É preciso assinalar a limpidez do estilo. Chaplin reparte os planos visando expor a situação com a maior perspicuidade provável e mantendo sua filosofia habitual —fazer com que os objetos mais inesperados trabalhem a seu obséquio.
Ao mesmo tempo, faz uma vez que se a feitura do cinema passe despercebida —devemos sentir aquilo uma vez que a coisa mais simples do mundo. É o que faz rir. Porquê se a invenção e a elaboração em torno dela devesse permanecer oculta.
Não vemos o trabalho do diretor. Lembramos é da míngua, que motiva, no caso, a disputa do fraco contra o poderoso, num estado de pobreza e premência universal. Carlitos é quem consegue tirar o sumo do mínimo que tem a seu dispor.
Sempre foi assim. O que são seus trajes senão uma asseveração de nobreza e presunção mesmo na mais completa miséria? Não será isso um varão?
Passemos, pois a segmento amorosa logo virá. Carlitos chega a uma povoação de garimpeiros. No saloon sítio, a bela Georgia pontifica, no lado feminino, e outro grandão, Hank, no masculino. Simples, Carlitos se apaixona pela pequena. Georgia se dispõe a dançar com ele, que baila uma vez que se estivesse numa galanteio do século 18. Mas a calça larga em seu corpo teima em desabar. Ele recorre à corda que encontra por perto. Não se dá conta de que, depois da corda, havia um cachorro. E saem dançando os três: Carlitos, Georgia e o cachorro.
Outra sequência memorável: a do sonho, na noite em que espera a visitante da pequena. No sonho, a cena da dança dos pãezinhos: em nenhum momento vemos a reação de Georgia e das outras moças que estão em volta. Só os pãezinhos dançantes, levados pela mão hábil do feliz sonhador.
Genial, absolutamente econômico, mais um magistral uso dos objetos a seu obséquio —uma vez que se fosse a coisa mais fácil do mundo. A cena é simples, uma vez que sempre, só tem um meio, Carlitos. Daí a sentimento de ser pouco cinematográfico.
Depois, porém, vem o grande momento. O da colmado onde agora estão Carlitos e Big Jim, prestes a reencontrar a tal serra de ouro, dormem. Mas, sem que notem, o vento arrasta a colmado para a extremo de um precipício. Não vale tentar descrever o que acontece. É preciso ver: a luta contra a sisudez, a procura do estabilidade, de novo a sobrevivência uma vez que objetivo. Um contra o outro, se necessário.
A crueldade, que antes ordenava a guerra pelo paixão, agora é por deixar a colmado a salvo antes do outro. A colmado dança, pra lá e pra cá, à extremo do precipício. E o corpo de um precisa do corpo do outro: é o que faz a lar se lastrar. Não dá para fazer isso no picadeiro, nem no palco, e menos ainda na escrita. Chaplin é, sim, gênio do cinema.
E, se ainda fosse preciso lembrar que é também o gênio caricato, na sequência final, com Carlitos já bilionário, um fotógrafo exige que ele chegue um pouquinho mais para trás. Ele obedece e, evidente, leva um trambolhão escada aquém.
Ali, na terceira classe, onde caiu, está Georgia. Os oficiais descobrem o mendigo —ah, sim, o fotógrafo pediu para ele usar os trajes que usou na corrida do ouro. Julgam se tratar de um furtivo. Georgia se dispõe a remunerar sua passagem; finalmente, é o único varão íntegro que não conheceu. Mas logo a confusão se desfaz e partimos para o final.
Será esta a obra-prima de Carlitos? Com efeito, ao contrário de “O Garoto” ou “Luzes da Cidade”, por exemplo, não se vê cá sombra de sentimentalismo. Mas nos seus grandes curtas, em universal, também não. O sadismo na hora da vingança, sim: é um recta do fraco. O uso dos objetos a seu obséquio, quase obrigatório. Seja uma botina, o cordão do cachorro, uma moeda, tudo faz segmento da luta para sobreviver, motivo meão da obra chapliniana.
Ela difere daquela do varão social, “eu, você”, uma vez que muito escreveu André Bazin. Para nós a vida é controlada e referenciada a um real que pretendemos transformar. Carlitos, não. Ele vive no momento. Sua corrida do ouro não é um contínuo, mas uma série de “sequências-gag”. Cada momento traz sua própria ferida. Cada um deles é marcado pela premência de passar adiante, de superar a dificuldade, de sobreviver.
Neste filme magistral, mesmo quando as vicissitudes são superadas, a vida parece ameaçada —o grande trambolhão no tombadilho parece ameaçar de novo a sobrevivência do varão. No entanto, ele ressurge sempre.
É difícil (impossível?) proferir se esta é mesmo a obra-prima de Carlitos. Elas são muitas. Todas são marcadas por isso que Francis Bordat designa uma vez que a recusa do cineasta em invocar a atenção para o seu estilo. O ator domina a mise-en-scène e mantém o espetacular sob controle, parecendo folguedo para crianças.
E, finalmente, fazendo filmes para crianças, sim. Apesar de todos os apelos modernos, elas ainda são capazes de se fixar e se encantar com as aventuras do homenzinho. E, no entanto, não se trata de um filme infantil. Porquê diz Bordat, “‘Em Procura do Ouro’ é um filme formidavelmente engraçado, mas também muito duro, cínico, em vários aspectos, muito cru. Não é ‘um filme para crianças’.” Por isso mesmo, o melhor que se pode mostrar para as crianças em idade de compreendê-lo.
Carlitos acredita na vida uma vez que uma muchacho, em plena inocência, ao mesmo tempo que a vive uma vez que um adulto. Chaplin faz filmes para serem vistos por adultos, por isso conversam com as crianças de igual para igual —não uma vez que Disney, que as infantiliza.
Chaplin, ao contrário, mobiliza sua imaginação para nos lembrar que cada momento se faz de dor, de luta, de possibilidade e também, por que não, de uma solução —que Carlitos eventualmente consagra com um pé no traseiro do inimigo.
“Em Procura do Ouro” não é um filme de aventuras, exceto pelo indumentária de que nos lembra da façanha que cada varão enfrenta, dia a dia, no Klondike ou cá, em 1925 ou em 2025.
Exibições de ‘Em Procura do Ouro’
São Paulo
26 de junho no Espaço Petrobras de Cinema, às 19h30
29 de junho, na Cinesala, às 16h30
Rio de Janeiro
26 de junho, no Estação Net Botafogo, às 20h
28 de sábado, no Estação Net Gávea, às 16h30
Salvador
3 de julho, no Cine Glauber Rocha, às 19h30
Belo Horizonte
3 de julho, no UNA Cine Belas Artes, às 20h30
Brasília
5 de julho, no Cine Brasília, às 20h
Porto Contente
5 de julho, no Cinemateca Capitólio, às 19h
Recife
6 de julho, no Cine São Luiz, às 16h
