Chay Suede não fazia teoria de que profissão teria quando, ainda muito jovem, estrelou um vídeo publicitário hospitalar coordenado pelo pai. Anos depois, também para dar uma mãozinha ao progenitor, se vestiu de monstro e deu sustos no público de uma atração de terror de shopping.
Mal sabia ele que, em breve, iria parar na TV, despontando porquê ídolo de uma fictícia margem de música pop teen, depois se fixando porquê planeta de novelas de horário superior. Fora eventuais aparições no cinema.
Sem se dar conta, havia se tornado um ator. Mas ainda faltava ao currículo o que para a maioria dos colegas costuma ser o primeiro passo na curso —uma peça de teatro. Pouquidade que o ator de 33 anos supre a partir desta quinta (15), com a estreia no Rio de Janeiro do solilóquio “Peça Infantil: A Vida e as Opiniões do Cavalheiro Roobertchay”, com direção de Felipe Hirsch, que coassina a dramaturgia com Caetano W. Galindo.
Apesar do título, não é um espetáculo para crianças –o infantil é antes uma referência a certa ludicidade da audaciosa proposta da peça, que brinca o tempo todo com o testemunha, embora possa mencionar também ao que seriam trechos da puerícia de Chay presentes no texto.
Entre os episódios relatados, que podem ou não ser reais, estão uma circuncisão fortuito em uma janela, a amizade com o rebento de um pastor pedófilo e a sova que o ator levou do mesmo colega quando o reencontrou, depois de famoso.
O protagonista é uma espécie de duplo do Chay Suede real, mas em uma constituição híbrida, que inclui uma série de outras alusões —sobretudo ao personagem picaresco Tristram Shandy, do responsável setecentista britânico Laurence Sterne, que narrava suas histórias em meio a digressões e passagens de verdade duvidosa.
Mas a peça traz um olhar satírico sobre temas contemporâneos, e nesse mosaico com ares confessionais, os espectadores hão de se reconhecer em alguns instantes –o tal cavalheiro Roobertchay, que é o nome real do ator, também é um espelho mirado para a plateia. E o texto inclui até ironias ao próprio Chay, em sua figura de notoriedade.
“A peça é a dramaturgia criada pelo Felipe e pelo Caetano em cima de conversas que tivemos, de muitas fantasias que eles criaram baseadas em alguma veras”, diz o ator, depois um tentativa. “Foram umas 30 horas de conversa. Coisas que falei por 40 segundos às vezes viraram um capítulo inteiro na peça [que tem 12 no total]. E outras, que eu detalhei por uma hora, não renderam zero. Às vezes até eu me perco com o quanto de veras existe ali.”
O projeto surgiu quando Chay procurou Hirsch para trabalharem juntos, e o encenador achou que a parceria poderia ser promissora. “Naquele momento eu já tinha muita consciência do Chay porquê ator. A gente se encontrou, pensei em algumas ideias que seriam possíveis de trabalharmos. E o achei interessante, realmente muito surpreendente porquê persona”, diz o diretor.
Hirsch explica que, enquanto ouvia as histórias, lhe ocorria usá-las em um espetáculo em que extrapolasse o mero caráter anedótico das narrativas, prolongando discussões de alguns trabalhos anteriores que versavam sobre a questão da autenticidade.
“Eu queria fazer alguma coisa sobre verdade. Esta peça desenvolve um caminho que eu tive com esses dois espetáculos recentes [“Fantasmagoria 4” e “Autorretrato”] que, de alguma maneira, tratam da teoria de Narciso, da noção do que é verdadeiro. E de onde está a premência de nós reconhecermos porquê verdade o que a gente vê. E porquê a gente se olha cada vez mais nesse espelho”, diz Hirsch.
O diretor procurou pensar na peça porquê uma espécie de “mockumentary”, pseudodocumentários que propositalmente têm pouco ou nenhum compromisso com a veras.
O maior repto, para o ator, foi trabalhar as nuances de cada fala. O texto é repleto de frases pomposas, que aludem a outra era, mas com um subtexto moderno. “O nome desse personagem eu partilho comigo. Mas ele é um outro. Com o tempo, a gente foi encontrando maneiras de deixar isso simples cenicamente, porque não adianta zero a gente entender isso, mas o público, não.”
Chay teve uma das carreiras mais meteóricas na TV brasileira recente. Se foi para ajudar o pai que teve suas primeiras experiências porquê ator não profissional, foi também por insistência dele que topou fazer um teste para o reality show músico da Record Ídolos, de 2010. Na era, ele tinha 18 anos, e o programa o fez ser chamado para viver o músico de uma margem na edição brasileira de “Rebelde”, fenômeno teen que explodiu por sua versão do México.
Mas foi depois transmigrar para a Orbe, em 2014, que começou de traje a levar a profissão a sério. Foi na romance “Predomínio”, quando viveu o protagonista na primeira tempo, que ele se entendeu porquê um ator de verdade. Passou inclusive a ler e estudar sobre atuação.
“No primórdio, minha preocupação era se qualquer dia eu conseguiria deixar de ser considerado um ex-‘Rebelde’. Não por vergonha, mas eu queria ir além. Até pensava que eu poderia fazer ocasionalmente coisas porquê ator, mas eu não achava mesmo que isso seria a minha vida.”
A vontade de estrear no teatro não surgiu porquê uma cobrança ou um “olhar torto” de quem acha que o palco é obrigatório para alguém ter estofo profissional.
“Lá no início, eu senti um pouco por ser um menino que vinha de um reality de música. Depois, não mais. Agora, o traje é que eu já recebi muitos depoimentos de amigos me dizendo o quanto eu deveria fazer teatro. Não por eu precisar disso para entrar em qualquer giro, mas porque isso ia mudar minha vida. Pela experiência em si”, diz.
Ele sabe que muitos podem ver no espetáculo uma enorme exaltação de si mesmo, já que sua estreia teatral é em um solilóquio com tantos elementos de autobiografia. Mas mesmo essa visão deturpada se encaixa nas discussões pretendidas.
“Acho que é muito difícil viver o nosso tempo sem qualquer nível de narcisismo. O diferencial entre quem é narcisista de verdade e quem exclusivamente flerta com isso é perceber logo quando você está sendo empurrado para esse rumo.”
Se muitos homens brancos e heterossexuais têm dificuldades em mourejar com sua exigência no politizado mundo atual, Chay não parece tolerar do mesmo problema, vide a forma porquê se entrega a autoironias em trechos da peça. “Qualquer pessoa precisa estar atenta a essas mudanças no mundo, estar viva para o que está acontecendo e o que está por vir –sem forçar barras, mas sem também fechar os olhos e descobrir que zero disso aconteceu. Eu me vejo porquê uma pessoa atenta”, diz.
Ainda sobre questões políticas, mas em um vista mais vasto, o ator elogia as gestões Lula. “Eu sou um artista. As circunstâncias para nós mudaram para muito melhor desde o início [dos governos do PT]. A quantidade de projetos, o esteio simples à arte e à cultura. A revolução que está acontecendo de novo no cinema brasiliano. É impossível não relacionar isso às políticas de incentivo e a um governo simpático à arte e aos artistas”, diz, sem terror de desapontar fãs de outros espectros políticos.
E ele também não teme decepcioná-los, sobretudo os do primórdio da curso, com um projeto esteticamente tão reptante porquê “Peça Infantil”. “É um espetáculo em que você tem que entrar com a cabeça muito oportunidade, porque ele frustra certas expectativas, mas alimenta outras inimagináveis. Antes de ter terror, eu estou curioso para saber porquê esses fãs da era do ‘Rebelde’ vão reagir.”
