[RESUMO] Em entrevista, Zezé Motta relembra uma vez que foi interpretar Chica da Silva no filme de Cacá Diegues, grande sucesso em 1976, fala da valimento de uma protagonista negra no cinema da estação e analisa o que a obra ainda nos diz em meio às noções de asseveração racial e identidade negra uma vez que as entendemos hoje.
Chica da Silva já era muito conhecida nos anos 1970. Além de ter sido mote de livros publicados nas décadas anteriores, a ex-escravizada do Arraial do Tejuco, atual Diamantina (MG), havia sido homenageada pela escola de samba Salgueiro em 1963, ano em que foi campeã do Carnaval carioca.
A mulher poderosa do Brasil do século 18 se tornou ainda mais popular país afora e ganhou projeção internacional com o filme de Cacá Diegues, de 1976. Surgia “Xica da Silva”, com o “x” substituindo o “ch” por uma escolha do cineasta, que morreu em fevereiro deste ano.
A produção associava a personagem a uma série de alegorias. Nos últimos anos, porém, novos projetos têm se preocupado em lembrar Chica com base nas pesquisas históricas.
A vida de Zezé Motta virou do avesso ao interpretar a personagem no filme. “Passei a ser vista uma vez que uma atriz capaz de sustentar protagonistas complexas, intensas e politizadas”, diz à Folha em entrevista por meio de troca de mensagens.
Para Zezé, é preciso reconhecer a “potência histórica” de Chica. “Não a vejo uma vez que um emblema de asseveração racial nos termos atuais, mas uma vez que uma figura de ruptura. Uma mulher negra que, mesmo dentro de um sistema brutal, conseguiu tensionar hierarquias, ocupar lugares interditados e desafiar a ordem estabelecida”, diz a atriz de 81 anos.
A reportagem usa o nome Chica, uma vez que fazem os historiadores. Mas preserva a ortografia Xica nas respostas da atriz, uma vez que Zezé prefere.
Qual foi a relevância da Chica para sua história uma vez que atriz?
Posso dividir minha curso em antes e depois da Xica. Ela me colocou no núcleo da cena e, sobretudo, no núcleo de uma discussão profunda sobre o Brasil, sobre raça, gênero e poder. Xica não era somente uma personagem, era uma asseveração. Uma mulher negra que desejava, que ocupava espaços, que não aceitava o lugar da submissão, um tanto extremamente provocador para a estação.
Virei símbolo sexual. Quando as pessoas começaram a me invocar de Xica na rua, fiquei incomodada. Já tinha uns oito anos de curso no teatro, tinha feito um filme, novelas… Queria que meu nome artístico, oferecido pela Marília Pêra, emplacasse, mas só me chamavam pelo nome da personagem. Mais tarde, percebi que Xica era minha madrinha, que não tinha que reclamar da vida, não.
Sabia que Cacá estava fazendo teste, mas não tive coragem de me oferecer. E ele não estava encontrando a atriz para fazer a Xica. Se não encontrasse, uma vez que disse em sua biografia, ele não faria o filme.
Um dia, [o jornalista e produtor] Nelson Motta lembrou o Cacá: “E aquela atriz do músico ‘Godspell’?”. Fiz o teste com uma cena delicada, em que a Xica é proibida de entrar na igreja. Naquela estação, até a quarta geração, quem tivesse preto no sangue não podia entrar na igreja dos brancos.
Tinha dificuldade para controlar minha agressividade. Tenho meu lado Oxum, que é guloseima, mas Iansã é a que vira a mesa. Oxum prevalece, sou muito conciliadora. Mas Iansã, de seis em seis meses, vira a mesa. Cacá percebeu isso.
Ganhei diversos prêmios de atriz em festivais de cinema. Viajamos por mais de 16 países, levamos mais de 3 milhões de brasileiros às salas de cinema. Interpretar Xica me deu visibilidade, mas também responsabilidade.
Passei a ser vista uma vez que atriz capaz de sustentar protagonistas complexas, intensas e politizadas. Marcou minha trajetória porque me revelou para o público e, de certa forma, também me revelou para mim mesma enquanto artista e mulher negra consciente do seu papel na cultura brasileira.
Foi importante para o cinema brasílico dos anos 1970 ter uma protagonista negra?
Foi fundamental. Naquele momento, o cinema brasílico praticamente não oferecia protagonismo às pessoas negras, muito menos em filmes para o grande público. Ter uma mulher negra no núcleo da narrativa, mobilizando libido, conflito e poder, foi um gesto profundamente político, ainda que o filme também dialogasse com o entretenimento.
Segundo algumas historiadoras, Chica teve diversos méritos, mas não poderia ser considerada um símbolo de asseveração racial. Para elas, Chica buscava deixar a escravidão e iniciar uma subida social. Por isso, teve que se apropriar aos costumes brancos. Qual é sua opinião?
Compreendo esse ponto de vista e acho importante fazer essa eminência histórica. Não podemos projetar sobre o século 18 as noções de asseveração racial e identidade negra uma vez que as entendemos hoje. Xica não viveu em um tempo em que existisse um movimento organizado de consciência racial nos moldes contemporâneos, e sua trajetória se deu dentro das limitações impostas por uma sociedade escravocrata.
Ao buscar subida social, Xica precisou, sim, negociar com os códigos de poder vigentes, que eram essencialmente brancos. Isso não diminui sua dificuldade nem a lucidez com que ela soube se movimentar naquele contexto. Ao contrário, revela uma mulher que leu o seu tempo e utilizou as ferramentas disponíveis para sobreviver, subsistir e ocupar espaço.
Quando penso em Xica uma vez que símbolo, não a vejo uma vez que um emblema de asseveração racial nos termos atuais, mas uma vez que uma figura de ruptura. Uma mulher negra que, mesmo dentro de um sistema brutal, conseguiu tensionar hierarquias, ocupar lugares interditados e desafiar a ordem estabelecida. É nessa fricção que reside sua potência histórica.
A asseveração que Xica representa hoje talvez não seja a que ela pôde nomear em vida, mas é a que sua história provoca em nós: a reflexão sobre poder, corpo, raça, libido e sobrevivência. Isso é profundamente político e muito atual.
Especialistas apontam uma hipersexualização da sua personagem no filme.
Fui altamente criticada por algumas pessoas no movimento preto na estação, mas elas esqueciam que estavam criticando uma atriz negra que tinha lucro um papel de destaque. Tem um vídeo da [antropóloga e ativista] Lélia Gonzalez sobre isso, ela foi uma das pessoas que saíram em minha resguardo.
O filme foi realizado em um contexto histórico específico, tanto do Brasil colonial retratado quanto do cinema brasílico dos anos 1970. A sexualidade de Xica aparece de forma muito explícita, e isso dialoga, sim, com uma tradição de hipersexualização dos corpos negros, principalmente das mulheres negras, um tanto que atravessa nossa história e nossa produção cultural.
Ao mesmo tempo, é importante lembrar que aquela sexualidade também foi apresentada uma vez que forma de poder dentro da narrativa. Xica não era uma personagem passiva: ela desejava, escolhia, conduzia relações. Isso não anula a sátira, mas ajuda a entender a anfibologia do filme, entre a reprodução de estereótipos e a tentativa de subvertê-los.
Hoje, com o olhar que temos, é provável revisitar a obra de maneira sátira, reconhecendo limites e contradições. O que antes foi visto somente uma vez que ousadia ou libertação, hoje também pode ser lido uma vez que excesso, uma vez que exposição, uma vez que resultado de um imaginário que nem sempre soube mourejar com a mulher negra fora do campo do erotismo.
O mais importante é que essas leituras coexistam. Não apagam a relevância histórica do filme e ampliam o debate. E isso mostra que “Xica da Silva” continua viva uma vez que obra porque ainda provoca, incomoda e nos obriga a pensar sobre representação, corpo e poder.
Zezé Motta
Nascida em Campos dos Goytacazes em 1944, fez sua estreia profissional no teatro na peça “Roda Viva”, de Chico Buarque, no final dos anos 1960. No cinema, foi premiada por filmes uma vez que “Xica da Silva” (1976), “Tudo Muito” (1978), “Gonzaga – de Pai para Rebento” (2012) e “Doutor Gama” (2021). Destacou-se também na TV em novelas uma vez que “Beto Rockfeller” (1968) e “Corpo a Corpo” (1984). Nos últimos meses, tem apresentado a peça “Vou Fazer de Mim um Mundo”.
