A companhia Bípede de Teatro Rupestre opera porquê um grupo de arqueólogos do presente. Desde 2020, eles escavam os estratos da tradição teatral – Tchékhov, Górki – buscando pistas vitais sobre os “próximos bípedes” que herdarão o mundo. Sua marca é um hibridismo visceral, onde o drama sério colide com a palhaçaria, e a bufonaria se funde à música ao vivo. Posteriormente cinco anos escavando o pretérito, sua invenção mais urgente é o agora.
“Increpação e Queimada: Cinzas que Sobraram”, seu primeiro trabalho original, é um artefato tirado do concreto rachado de São Paulo. O dramaturgo Leo Milani ancora a peça em um indumento real: o fechamento facultativo de um boteco, refúgio de estudantes de teatro e dissidentes. Menos documentário e mais “estudo de caso” transformado em manifesto-festa.
A encenação de Felipe Sales abraça essa precariedade com um ethos punk, uma estética “faça você mesmo” que transforma limitação em força. Cenário e figurinos são customizados, remendados, reaproveitados. A iluminação de Gil Teixeira revela texturas de desgaste, uma venustidade nascida da resistência. É uma arqueologia do momento, a procura por marcas singulares em um mundo descartável.
A dramaturgia fragmentada de Milani conquista a destreza do vaudeville. Cenas curtas pintam o boteco porquê microcosmo do Brasil: o trabalhador modorrento, o político oportunista, o policial dominador e os jovens artistas que insistem em viver. Os cinco atores-criadores – Benedito Teixeira, Felipe Sales, Júlia Terron, Milani e Luigi Dolder – deslizam entre arquétipos e depoimentos pessoais com vontade contagiante. A autoficção é o motor: a resistência porquê biografia.
E há música. Uma arma política no arsenal brechtiano do grupo, sob a direção de Tim Schurmann. Os atores tocam e cantam, elevando conflitos a canções que são épicas e populares. A plateia do Pequeno Ato – reduto do independente no meio da capital – é recrutada porquê cúmplice desta celebração ácida.
A resguardo de Milani do artista porquê “guerrilheiro poético” ressoa com força. A peça aponta dois inimigos: a Increpação, que silencia com o facultativo, e o Queimada, que consome a memória, deixando cinzas. A resposta é a recusa. “Artista tem nomeada de vagabundo”, lança o texto, “porque não é louco de permanecer recluso trabalhando”. Uma asseveração de honra: o fazer artístico porquê ato de sanidade.
A direção de Sales extrai do elenco uma fisicalidade vibrante, onde o treinamento em bufonaria vira sátira política manipresto. O humor é um riso melancólico que amplifica a humanidade frágil de todos. A Cia. Bípede passou anos olhando para trás para entender o caminho. Agora, finca os pés no soalho incendiado do presente e declara: estamos cá, nas cinzas, e vamos reconstruir a partir delas.
Três perguntas para…
… Leo Milani
Você descreve o espetáculo porquê um “manifesto-festa”. Porquê lastrar a urgência do manifesto (que pode ser didático) com a vontade vital de uma sarau (que pode ser somente celebratória)? Onde exatamente está a fagulha política nesse estabilidade?
Existe um ponto na dramaturgia em que escrevi: “lazer, pode sim ser lutar, mas lutar, não deve sempre ser lazer”. Acredito que o estabilidade seja menos espetacular que a premissa oferece (mesmo tratando-se de um espetáculo).
Podemos ver, inclusive, diversos recortes históricos que ecoam esse sentimento de “manifesto-festa”. Desde as leis anti vadiagem ou anti carnaval que tivemos em nosso país, até os surgimentos das festas que iniciaram o movimento hip hop nos Estados Unidos; ou até mesmo os casos da CPI do pancadão.
O ato do povo festejar é lido porquê uma cansaço política independente se foi um pouco propositado. Obviamente, porquê somos seres políticos, logo, todas as nossas ações são políticas, porém é um indumento de que o repouso do povo é lido porquê insultuoso. O estabilidade vem conforme a intenção se torna política.
A própria paragem LGBTQIA+ vem dessa perspectiva. A dramaturgia, a encenação, procura trasladar essa atitude porquê experiência teatral, utilizando estratégias da palhaçaria e da arte instrução. A fagulha surge com a noção, a intenção da ação, e com o desvelo de não se perder na sarau.
Um dos personagens-tipo é “o trabalhador estagnado”. Em uma peça que defende o artista da denunciação de “vagabundagem”, porquê evitar fabricar uma dicotomia simplista entre o artista (livre) e o trabalhador (enclausurado)?
Acredito, ou melhor, gostaria que ficasse evidente que a peça procura colocar artista porquê trabalhador, e porquê todo trabalhador deveria ter o recta de vagabundear. Eu sempre me incomodei com a teoria de que artistas são seres que estão removidos dos problemas comuns, sendo que Shakespeare era fruto de luveiro e trabalhava porquê carniceiro enquanto era dramaturgo.
Artista e artesão, a origem da vocábulo é a mesma. Essa dicotomia de qual é mais livre, no final, só serve para fabricar divisões entre nós. Ao invés de culpar os que impedem o desenvolvimento de pautas porquê a da subtracção da graduação de trabalho, nos distraem culpando aqueles que usam leis de incentivo cultural.
Mesmo assumindo que o trabalho artístico, o trabalho no entretenimento é dissemelhante de trabalhos mais tradicionais, nos colocarmos porquê “livres” e eles “aprisionados” é um simplismo falso. E a forma porquê nós evitamos tombar nesse raciocínio errôneo é com honestidade. Assumindo as diferenças dos trabalhos e aceitando o que temos de generalidade: que é trabalho.
A peça identifica a “Increpação” e o “Queimada” porquê inimigos. Em um cenário político contemporâneo multíplice, onde a repreensão pode ser burocrática, econômica ou algorítmica, porquê a “guerrilha poética” se adapta para combater inimigos que nem sempre têm um rosto evidente?
Com a trova. Não precisamos necessariamente da rostro da saudade para entender o sentimento. O mesmo se dá com o autoritarismo, a ameaço. Isso é tão macróbio quanto a arte. Na atualidade, de indumento, parece ser necessário se ajustar, porém o princípio é o mesmo. Os rostos mudam, mas a vontade de um pouco melhor para todos é inerente ao ser humano.
A secção que cabe à arte e à trova é trasladar o peso das nossas indignações, consciente dos riscos e agindo apesar deles. Deve ser um ato de perceptibilidade, que não se entrega de bandeja à repreensão, mas que nunca se omite. É evidente que a arte é somente uma lanço do processo político, e não sua totalidade, mas quando atinge o objectivo, sentimos seu impacto real.
Teatro Pequeno Ato – rua Teodoro Baima, 78 – Vila Buarque, região médio. Qui. e sex., 20h. Até 20/2. Duração: 100 minutos. Classificação indicativa: 14 anos. A partir de R$ 30 (meia-entrada) em sympla.com.br e na bilheteria do teatro 1h antes de cada sessão
