Circo de Tradição Familiar se torna Patrimônio Cultural do Brasil

Circo de Tradição Familiar se torna Patrimônio Cultural do Brasil

Brasil

O Circo de Tradição Familiar foi reconhecido nesta semana porquê Patrimônio Cultural do Brasil pelo Juízo Consultivo do Patrimônio Cultural, do Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Pátrio (Iphan), e vai constar no Livro de Registro das Formas de Sentença.

Espalhada por todo o país, essa revelação cultural é descrita pelo Iphan porquê itinerante, organizada em torno de núcleos familiares e de transmissão verbal de saberes, técnicas, modos de fazer e formas de convívio entre gerações.

No entendimento do juízo consultivo, favorável ao registro, essa revelação cultural tem relevância vernáculo, tanto pela força na promoção de espetáculos porquê pelaspráticas lúdicas e pela memória social.

 


13.03.2026 - Circo dd Tradição Familiar - Reunião que aprovou o registro do Circo de Tradição Familiar como Patrimônio Cultural do Brasil: Foto: Oscar Liberal/Iphan.
13.03.2026 - Circo dd Tradição Familiar - Reunião que aprovou o registro do Circo de Tradição Familiar como Patrimônio Cultural do Brasil: Foto: Oscar Liberal/Iphan.

Reunião que aprovou o registro do Circo de Tradição Familiar porquê Patrimônio Cultural do Brasil: Foto: Oscar Liberal/Iphan.

Pioneirismo

A decisão tomada em reunião no Palácio Gustavo Capanema, no núcleo do Rio de Janeiro, na última quarta-feira (11), está ligada à luta das familias que mantêm essa tradição. Fundado no Paraná, em 1991, o Circo de Tradição Familiar Zanchettini liderou esse processo.

A companhia começou pelo trabalho de Wanda Cabral Zanchettin e Primo Júlio Zanchettin, e tem sido mantido ao longo do tempo pelos dez filhos e filhas do par e seus descendentes. Desde 1993, Wanda encabeçou a luta para que a categoria recebesse o reconhecimento que chegou mais de 30 anos depois. 

O pedido solene de registro foi protocolado por ela no Iphan em 2005, e mobilizou famílias circenses, associações, pesquisadores e instituições públicas. A decisão desta semana, no entanto, veio em seguida a sua morte, em 2017.

Em entrevista à Filial Brasil, Edlamar Maria Cabral Zanchettin, de 68 anos, filha de Wanda e uma das herdeiras da tradição, reivindica o protagonismo da família nessa luta.

“Foi a nossa família quem protocolou, quem trabalhou, foi a Brasília, fez reunião. Tudo fomos nós, mas fizemos na abrangência de todos os circos brasileiros, principalmente, a nossa maior luta é para o reconhecimento dos nossos ascendentes”, disse ela, que celebrou: “É porquê um Oscar para o circo brasiliano, porque é para todos”.

Ela lamentou que a mãe não tenha testemunhado a vitória. “Lutou muito por isso, mas, infelizmente, não chegou a depreender levante momento de glória. Foi a pessoa que foi na frente, nos empurrou, nos deu força e chegamos, graças a Deus, a esse reconhecimento”.

Origem

Em 1949, Wanda Cabral tinha 18 anos e atuava no circo de ciganos Irmãos Marques junto com a mãe e os irmãos. Naquele ano, o italiano Primo Júlio conheceu Wanda e se apaixonou por ela, os dois casaram e, com os parentes da mulher, montaram o Circo Teatro Gávea.

“O circo era pequeno, mas, ali, a gente aprendeu tudo. A mãe passava as técnicas pra gente. Ela sabia tudo sobre circo e sobre as artes”, contou Erimeide Maria, de 65 anos, que destacou que a mãe cresceu imersa nessa cultura.

 


13.03.2026 - Circo dd Tradição Familiar - Casal Primo Julio Zanchettin e Wanda Cabral Zanchettin fundadores do Circo da família . Foto: Zanchettin/Arquivo Pessoal
13.03.2026 - Circo dd Tradição Familiar - Casal Primo Julio Zanchettin e Wanda Cabral Zanchettin fundadores do Circo da família . Foto: Zanchettin/Arquivo Pessoal

Wanda Cabral Zanchetin e Primo Julio Zanchettin em foto do ror familiar, por Zanchettin/Registo Pessoal

Em 1991, quando o marido morreu, Wanda batizou a companhia de Zanchettini para homenageá-lo.

“O pai a acompanhou nessa trajetória, porquê artista e palhaço. Somos dez filhos, cinco mulheres e cinco homens, e a gente foi nascendo e crescendo em barracas em volta do circo”, revelou Erimeide, que foi trapezista, cantora, acrobata, atriz, entre outras coisas.

Apesar dos apertos, ela contou que a convívio em família sempre foi boa entre os irmãos Edlamar, Erimeide, Márcia Aparecida, Solange Maria, Áurea, Silvio Marcos, Sérgio, Jaime, Márcio e Amauri.

“É uma luta difícil e continua sendo para todos os circenses, muito trabalhosa, mas com a união dos irmãos, mãe, pai e agregados, a gente teve sempre uma vida feliz em circo, que é nossa grande paixão, nosso paixão”, pontuou Erimeide.

Gerações

A renovação no circo familiar é manente e, atualmente, a geração mais novidade já faz segmento do elenco do Zanchettini.

“Os mais novos vêm chegando, e a gente vai repassando toda a história do circo, com suas nuances. Tem uma sabedoria muito poderoso dentro do circo, um linguajar nosso. Tudo tem um propósito”, observou a apresentadora.

Os mais jovens da família estão mantendo a tradição e fazem suas carreiras profissionais no circo. Entre os sobrinhos, o único que saiu do Zanchettini foi para Dubai, nos Emirados Árabes Unidos, para trabalhar também porquê artista circense.

“É de geração em geração. Vem da minha avó, minha mãe, meu pai, nossa família toda. Dez irmãos caminhando pelo mundo afora, montando e desmontando circo, enfrentando estradas, fazendo espetáculos, ensaiando, pegando terrenos cheios de barro e outros bonitos. É uma história muito longa de uma vida toda”, acrescentou Erimeide.

Dificuldades

Nas viagens a vários estados do Brasil e até fora do país, porquê o Paraguai, Argentina e Bolívia, Edlamar disse que uma das dificuldades do circo tradicional é a concorrência com apresentações de celebridades e shows gratuitos.

“Esses não têm o circo tradicional brasiliano, do palhaço da rosto pintada, do trapézio, do orbe da morte, do malabarismo, do contorcionismo. A gente leva o tradicional. Não temos personagens, não temos celebridades de TV, não temos dinossauros. Nós somos raiz”, afirmou.

Outra questão são os custos, porquê impostos e taxas cobradas pelo Poder Público. “Eles nos cobram porquê se fôssemos edificados, uma farmácia, um supermercado ou nos cobram porquê evento grande, não porquê cultura”, reclamou a administradora. “A prefeitura ofídio o uso de solo, e a gente paga tudo avançado. Se chover, a prefeitura já ganhou, e a gente, não”.

Os obstáculos são os mesmos enfrentados por muitos circos familiares do Brasil, e Edlamar lamentou que muitos circos pequenos e tradicionais lidam com dificuldades ainda maiores por não serem famílias tão numerosas.

“A gente já passou por vários tipos de falência, recuperamos tudo e recomeçamos de novo. É um paixão tão poderoso e um sentimento poderoso pelo circo que a gente não sabe de onde vem. A gente não conseguiria viver longe do circo”, pontuou Erimeide.

A expectativa de Edlamar é que esse cenário de dificuldade financeira mude em seguida o reconhecimento.

“Fica mais fácil falar com o prefeito para ver o que ele pode fazer dentro do regulamento do Iphan. Seja um preço menor, um terreno da prefeitura gratuito. Esse reconhecimento não é qualquer um que tem e será de grande valia para nós”, avaliou.


13.03.2026 - Circo dd Tradição Familiar - Casal Primo Julio Zanchettin e Wanda Cabral Zanchettin fundadores do Circo da família . Foto: Zanchettin/Arquivo Pessoal
13.03.2026 - Circo dd Tradição Familiar - Casal Primo Julio Zanchettin e Wanda Cabral Zanchettin fundadores do Circo da família . Foto: Zanchettin/Arquivo Pessoal

13.03.2026 – Circo dd Tradição Familiar – Par Primo Julio Zanchettin e Wanda Cabral Zanchettin fundadores do Circo da família . Foto: Zanchettin/Registo Pessoal – Zanchettin/Registo Pessoal

Fonte EBC

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