Clássico teatral ganha nova montagem por Eric Lenate 18/11/2025

Clássico teatral ganha nova montagem por Eric Lenate – 18/11/2025 – Mise-en-scène

Celebridades Cultura

Originalmente apresentada em 2002, com destaque para as atuações de Tony Ramos e Dan Stulbach, a peça “Novas Diretrizes em Tempos de Tranquilidade”, de Bosco Brasil, retorna em uma novidade encenação que é muito mais que uma simples remontagem. Sob a direção de Eric Lenate e Vitor Julian, a produção se reinventa sem perder a origem, um processo impulsionado pelo incitação do elenco original e por cinco meses de intensa pesquisa e desenvolvimento.

Esse mergulho aprofundado no texto permitiu a Lenate, que também interpreta o refugiado polonês Clausewitz, e a Fernando Billi, no papel do funcionário da alfândega Segismundo, erigir performances de notável riqueza. Lenate ressalta o poder metalinguístico da arte porquê resistência, enquanto Billi confronta o arquétipo do vilão, retratando seu personagem porquê um burocrata que sempre se limitou a executar ordens, trazendo à tona a perturbadora questão da trivialidade do mal.

Essa profundidade de preparação posiciona a montagem porquê inspiração para artistas que buscam atualizar obras clássicas. A trama, ambientada em 1945 no porto do Rio de Janeiro, onde Clausewitz e Segismundo travam um conflito pela obtenção de um salvo-conduto, torna-se metáfora sobre memória e humanidade em contextos de vexação. A encenação ganha força suplementar por suas escolhas estéticas: um cenário rotatório que deixa o público simbolicamente recluso a ciclos repetitivos de tirania, e uma trilha sonora incessante que cria uma atmosfera angustiante, estimulando a reflexão sobre traumas persistentes.

A temporada, que se inicia em São Paulo posteriormente a estreia na Sarau Internacional de Teatro de Enseada e segue no Teatro Estúdio até fevereiro de 2026, mostra-se assim ainda mais relevante no atual clima político. A peça aborda de frente temas porquê autoritarismo e a erosão da democracia, levando-nos a questionar até que ponto somos responsáveis por nossas ações ou unicamente marionetes de processos históricos. Esta verificação entre a apresentação de 2002 e a de 2025 expõe porquê a mudança no zeitgeist político não unicamente exige, mas também facilita novas leituras radicais, estabelecendo uma ponte sátira entre o pretérito e o presente e consolidando a obra porquê um importante estudo de caso para o teatro brasiliano.

Três perguntas para…

… Eric Lenate

Porquê diretor, de que maneira o atual clima político e social brasiliano moldou a sua abordagem e a leitura do texto de Bosco Brasil? Houve alguma cena ou fala que ganhou um peso radicalmente dissemelhante hoje?

Sempre vai me despertar, no mínimo, inquietação, qualquer pessoa que repita a frase “eu estava cumprindo ordens” para justificar qualquer equívoco, ou qualquer ato ou atividade violenta, nefasta, executada por ela. Porquê Adolf Eichmann, “gerente logístico” do Sacrifício de Adolf Hitler. E porquê Segismundo, personagem de nossa peça, um ex-torturador da Polícia Política do período do Estado Novo de Getúlio Vargas. Temos nos deparado, ao longo da história e em momentos do presente, com eventos de intolerância, devastação e cerceamento, geralmente dinamizados por cidadãos comuns, porquê você e eu, que vestem fardas ou as cores de seu país, em gesto simbólico de lealdade patriótica.

Mas sempre conseguimos perceber um visível padrão: estão a mando ou respondendo a estímulos diretos ou enviesados de uma figura de liderança. Ou um “salvador”, porque essa figura de liderança por vezes assume contornos de um líder carismático quase messiânico. E quando você está imbuído da paixão por seu “Messias Salvador” e não analisando criticamente as atitudes e ordens de sua governança, a tendência de você agir e ocasionar estragos por estar assaltado de uma espécie de dissonância cognitiva é bastante grande.

O risco da desconexão com a verdade e os fatos é enorme. Em ocasiões assim, “isso eu não devo, não quero fazer” talvez não seja uma reflexão muito nítida habitando nossa consciência, porque nossa bússola moral e moral pode estar com defeito. E não acredito que essas questões e preocupações sejam exclusivas da sociedade brasileira.

Uma termo, especificamente, repetida algumas vezes no texto, nos labareda bastante atenção: “sujeito”. Bosco nos provoca à reflexão sobre essa termo. Quando somos sujeitos de nossa própria história – porquê o sujeito que age sobre o verbo de uma frase –, que têm condições de agir de conciliação com nossa própria vontade, orientados de conciliação com uma espécie de bússola ético-moral? E quando somos figuras sujeitas a um determinado ordenamento histórico, sem capacidade de livre-arbítrio, seja por cerceamentos e impedimentos, por incapacidade própria de recato, ou mesmo até por esmagamento vindo de uma força muito maior?

O cenário rotatório é uma escolha estética marcante. Poderia detalhar porquê essa teoria surgiu e o que ela procura simbolizar, simbolicamente?

Entre tantas características que tornam “Novas Diretrizes em Tempo de Tranquilidade” uma obra de grande magnitude e relevância, tanto pelo teor quanto pela forma, é importante analisarmos o espaço e o tempo, duas categorias centrais para a construção dos sentidos da obra. Ambos estão marcados por uma ordenamento ambígua, bastante condizente com o misto de consolação e perplexidade com que o mundo assistia ao termo da Segunda Guerra Mundial e ao termo do período varguista do Estado Novo, ambos findos em 1945.

A sensação de não saber muito muito onde estamos – mesmo com a indicação precisa do lugar em que a ação se passa –, nem o que ocorrerá a seguir – embora saibamos a data exata em que os acontecimentos se desenvolvem – acentua o contexto de encruzilhada histórica que a obra representa. Toda a ação se passa no escritório de uma secretaria pública, no setor de imigração, na zona portuária do Rio de Janeiro de 1945.

Trabalhamos com elementos no cenário que emulam uma atmosfera “kafkiana”: pilhas e mais pilhas de papéis e pastas que remetem a arquivos de depoimentos, formando uma espécie de labirinto dentro do qual os personagens se movimentam. São elementos cenográficos que elegemos porquê sintoma estética de uma burocracia infindável e assustadora.

A intenção é ocasionar no público uma certa inquietação por ele não saber quantas daquelas “pendências” foram resolvidas ou aguardam por solução. Pretendemos que oriente envolvente seja percebido pelo público porquê uma extensão física do personagem Segismundo, em toda sua aura e status de burocrata por vantagem.

Não obstante, nossa intenção com essa escolha é gerar para o público – apesar da formalidade física do espaço geográfico – uma possante sensação de um “não-lugar”. Não só pela sensação de indistinção que emerge da uniformidade austera e sem vida das cores e formas que utilizamos, mas também pela exigência indeterminada que esse espaço revela para os planos de Clausewitz, o imigrante que chega ao Brasil em procura de refúgio e recomeço.

Ou seja, o espaço onde se desenrola o horizonte do imigrante não é a porta de ingresso para o país que ele idealizou, porquê também não é a Europa em guerra, que representa seu pretérito tinto pela violência do conflito. Estamos no limbo, em uma espécie de purgatório, onde será selado o sorte de Clausewitz, seja para uma improvável salvamento no Brasil ou para a perpetuação do pesadelo da guerra.

Estamos, portanto, em um lugar geograficamente determinado, mas subjetivamente indeterminável; circunscrito pelo “real”, mas, ao mesmo tempo, tiranizado pelo vontade de Segismundo, que rompe os protocolos e regulamentos, lhe conferindo certa autonomia enquanto alega esperar de seu governo as “novas diretrizes para tempos de sossego”.

Esta arquitetura cenográfica está disposta sobre uma plataforma circundar de 6 metros de diâmetro, que gira em torno de si mesma sobre o palco, remota e lentamente, durante toda a duração do espetáculo. A intenção, com o uso desta plataforma giratória, é ressaltar para o público os aspectos ritualísticos e elípticos desta situação de indeterminação e espera, porquê também fornecer para o público perspectivas incontáveis de reparo e adentramento nessa história.

O tempo dúbio, gravitando em torno de si próprio em uma ensejo histórica nebulosa, de imprevisível transição – nem guerra, nem sossego, só espera – e o não-lugar da sala de interrogatório reforçam o clima de impasse, urgência e sufocamento, porquê uma corrida ávida para a liberdade, pautada pela intermitente e incômoda buzina do navio que leva de volta os recusados.

Que juízo você daria para outros diretores que desejam revisitar textos clássicos ou consagrados do teatro brasiliano sem tombar na simples reprodução?

Acredito que o primeiro passo possa ser estudar profundamente o texto e identificar os pontos de contato entre sua experiência porquê ser vivente e esse texto. Não necessariamente procurando alguma identificação de cunho biográfico, mas antes procurando entender que forças esse texto movimenta em você. O que o move a reencenar essa obra? Acredito que o próximo passo possa ser conseguir mapear quais questões o texto levanta que ainda são pertinentes para o hoje.

Textos acabam por se sagrar e se tornar clássicos justamente por agregarem, entre outras, duas características que considero principais: qualidade estética réplica e relevância temática atemporal. Quando me deparo com a possibilidade de reencenar uma obra dramatúrgica que alçou o status de clássica, procuro sempre permanecer prudente aos elementos que podem atestar essas duas características. Enquanto essa estudo ocorre, procuro estudar e entender de que maneira posso contribuir com uma materialização cênica uno desse texto.

Teatro Estúdio – rua Mentor Nébias, 891, Campos Elíseos, região mediano. Sex. e sáb., 20h. Dom., 16h. Até 8/2. Duração: 80 minutos. A partir de R$ 40 (meia-entrada) em sympla.com.br

Folha

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