“O brasílico não gosta de ver esporte, gosta de ver brasílico lucrar”, resumiu Caio Collet, 23, ao explicar à Folha a expectativa que acompanha sua chegada à Indy nesta temporada.
O piloto estreia na categoria tentando recolocar o Brasil entre os protagonistas das disputas em circuitos mistos e ovais dos Estados Unidos, depois o ciclo vitorioso marcado por Hélio Castroneves e Tony Kanaan, do início dos anos 2000 até o início desta dezena.
Com seu companheiro Gabriel Bortoleto correndo pela Audi, na F1, o país volta a ser representado simultaneamente nas duas principais categorias do automobilismo mundial — alguma coisa que não acontecia desde 2017, quando Felipe Volume, Castroneves e Kanaan ainda competiam.
“O Brasil vive uma temporada muito boa no automobilismo. Agora é edificar resultados e trazer orgulho para a região. É um privilégio e alguma coisa que me deixa muito feliz poder simbolizar o país”, disse Collet, que fará sua estreia neste domingo (1º), às 14h (de Brasília), no volta de rua de Saint Petersburg.
A prova disputada na Flórida é a primeira das 18 da temporada. Band, ESPN4 e Disney+ transmitem a lanço.
Vice-campeão da Indy NXT, categoria de chegada à Indy, o paulista vai percorrer pela equipe AJ Foyt Racing, que já teve outros cinco brasileiros em sua história, entre eles Kanaan (2018–2020).
A escuderia é uma das mais tradicionais do volta, fundada por A.J. Foyt, primeiro piloto a vencer as 500 Milhas de Indianápolis quatro vezes. Dona de sete títulos da Indy, a equipe é comandada atualmente por Larry Foyt, neto biológico e rebento adotivo de A.J. Sob sua direção, os carros combinam a tradição familiar com uma estrutura moderna, voltada ao desenvolvimento de jovens talentos — cenário no qual a chegada de Collet se encaixa.
Antes de chegar à Indy, o brasílico construiu uma sólida trajetória desde o kart. Sua estreia em monopostos ocorreu em 2017, na F4 dos Emirados Árabes Unidos. No ano seguinte, conquistou o título da F4 francesa, com sete vitórias em 21 corridas.
Naquele ano, seu desempenho chamou a atenção da Renault Sport Academy, que integrou o paulista ao programa de jovens pilotos preparados para trilhar uma curso internacional.
Durante o período em que esteve vinculado à equipe, disputou três temporadas da Fórmula 3, sempre terminando entre os dez primeiros do campeonato. O caminho que poderia levá-lo à Fórmula 1, no entanto, teve de ser desabitado diante dos altos custos necessários para seguir à Fórmula 2 e disputar uma vaga na principal categoria do automobilismo.
“A gente tinha oportunidade de subir para a F2 em equipes de ponta, mas não tinha o orçamento necessário”, explicou. Uma temporada na penúltima categoria antes da F1 pode exigir o investimento de, pelo menos, US$ 3 milhões (R$ 15 milhões), de consonância com estimativas do site Race Fans, especializado em automobilismo.
A mudança veio depois um teste nos Estados Unidos. “Surgiu a oportunidade e a gente agarrou com as duas mãos”, disse. Segundo ele, a decisão já fazia segmento de um projeto maior. “A gente não mudou para os Estados Unidos só para percorrer a Indy NXT. Mudamos para um dia poder chegar à Indy.”
Os títulos brasileiros na Indy foram confirmados ao longo de diferentes eras da categoria, com conquistas de Emerson Fittipaldi (1989), Gil de Ferran (2000 e 2001), Cristiano da Matta (2002) e Tony Kanaan (2004), consolidando o país porquê uma das maiores potências estrangeiras do automobilismo americano.
Esse protagonismo também se refletiu nas 500 Milhas de Indianápolis, a prova mais tradicional da Indy, onde o Brasil acumulou vitórias marcantes: Fittipaldi venceu em 1989 e 1993, Gil de Ferran triunfou em 2003, Tony Kanaan conquistou a corrida em 2013, e Hélio Castroneves tornou-se o maior vencedor brasílico da história, com triunfos em 2001, 2002, 2009 e 2021, entrando no seleto grupo dos tetracampeões da prova.
Consciente da expectativa que acompanha pilotos brasileiros na escol do automobilismo, Collet evita promessas imediatas. “O automobilismo é um esporte com muita variável. Você depende não só do piloto, mas de outras coisas também. Agora é edificar um trabalho para que um dia isso possa ser provável”, afirmou.
