Produzir alguma coisa tão louco, terrível e inacreditável quanto a nossa verdade. É o que o israelense Nadav Lapid mirava com seu novo filme “Yes”, em edital nos cinemas, que usa a pequenez do colapso na vida de um artista para satirizar alguma coisa maior, os horrores da guerra que acomete Israel.
Y., o protagonista, é um músico de jazz em decadência, que, junto de sua mulher, a dançarina Jasmine, vende arte e também os seus corpos. O par sobrevive à base dos “sins”, nunca do “não” —eles bebem, festejam, e transam com gente de todo o tipo. Um dia, porém, recebem a proposta de imaginar o novo hino vernáculo de Israel em troca de muito numerário, o que mexe no profundo dos seus credos políticos. Vale perder toda a distinção para prosperar?, Y. se pergunta.
“É a minha experiência uma vez que artista, mas sobretudo uma vez que ser humano, que nutre esse filme”, afirmou Lapid à reportagem quando veio ao país para publicar o longa no Festival do Rio, em outubro do ano pretérito. Ele é crítico ferrenho do governo israelense, do progresso da ultradireita no mundo, e faz disso a tônica da sua obra.
“Hoje entendo muito o que é viver numa sociedade que escorrega para o autoritarismo, enxurrada de nacionalismo, vulgaridade, estupidez, uma sociedade brutal em que você deve escolher entre expressar não e permanecer insano, ou expressar sim e se tornar um submisso.”
Lapid fez “Yes”, uma vez que o próprio título indica, para criticar os “sins” que Israel vem dizendo à violência, ao nacionalismo, à permissão. Não lentidão para que o cineasta mescle, portanto, vida real à ficção —logo no início, o filme mostra os ataques do Hamas contra Israel, e, mais adiante, os bombardeios na Tira de Gaza.
O israelense ganhou projeção em 2019, quando venceu o Urso de Ouro, láurea máxima do Festival de Berlim, por “Synonymes”, comédia enxurrada de críticas ao governo da quadra. Ironicamente, a atual edição do festival, que ocorre até oriente domingo (22), declarou que “artistas não são obrigados a se manifestar sobre questões políticas”. Isso fez com que cineastas e atores escrevessem um petição para criticar o silêncio da mostra quanto à guerra do Oriente Médio.
Lapid diz que fazer petição contra essas instituições não adianta de zero. À quadra da entrevista, o Festival de Veneza, encerrado um mês antes, vinha sendo questionado por premiar um filme americano em vez do tunisiano “A Voz de Hind Rajab”, sobre as tragédias em Gaza, gesto que foi lido uma vez que anti-Palestina.
“Esses abaixo-assinados não causam efeitos reais. Eu mesmo assinei vários, e se tentasse lembrar quantos, ficaríamos cá umas dez horas”, disse Lapid.
“Evidente que é uma ação positiva, mas vejo também um patente narcisismo nesses atos —as pessoas assinam o documento e já se sentem um Che Guevara. Mas gostaria que celebridades usassem sua reputação para colocar uma pressão real, senão, os momentos de cessar-fogo serão unicamente pequenas pausas antes de uma próxima catástrofe.”
Esse tom desesperançoso faz o protagonista de “Yes” parecer um alter-ego de Lapid. Em meio ao caos do mundo real, por fim, Y. tenta descobrir na sua arte uma maneira de evadir.
Sua jornada é permeada por elementos que ameaçam romper a verdade, com os personagens agindo de forma delirante que se intensifica com a filmagem bagunçada de Lapid. A câmera do diretor faz movimentos bruscos, treme, e recusa a segurança, numa prova da tensão política que atravessa sua história.
“Não quero só relatar o horror, quero demonstrá-lo na tela. Para tornar concreto alguma coisa que pareça abstrato não dá para se ater unicamente aos fatos. Você precisa recorrer a sentimentos, ideias, explorar a psique dos lugares. O cinema não deveria se limitar a descrever acontecimentos.”
“Yes” chega ao giro mercantil do país quase um ano depois de estrear no Festival de Cannes. Embora tenha recebido mais críticas negativas que seus trabalhos anteriores, Lapid afirmou estar otimista quanto à recepção da obra cá.
“Sinto que brasileiros e pessoas de outras partes da América entendem melhor os meus filmes do que aqueles que vivem na Escandinávia, por exemplo. Só nós, criados em sociedades fracassadas que seguem fracassando, conseguimos entender uma vez que o sem razão se torna segmento da rotina.”
O jornalista viajou a invitação do Festival do Rio
