Como arquitetura de Gregori Warchavchik resiste em SP 12/11/2025

Como arquitetura de Gregori Warchavchik resiste em SP – 12/11/2025 – Ilustrada

Celebridades Cultura

A escol de São Paulo ainda se recuperava do pasmo com que recebera, três anos antes, a Semana de Arte Moderna de 1922. Na ocasião, os arautos da vanguarda foram vaiados sobre o palco do Theatro Municipal. Mas em nenhum momento sublinharam a incongruência entre suas premissas e o rebuscado estilo eclético do recinto.

O papel de questionar o lugar dessa arquitetura nos novos tempos caberia a um estrangeiro desembarcado no Brasil só depois do festim, Gregori Warchavchik. No domingo, 1º de novembro de 1925, ele publicaria, no quotidiano carioca Correio da Manhã um manifesto contra a arquitetura “de estilo”.

No centenário do cláusula, intitulado “Acerca da arquitetura moderna”, algumas obras de Warchavchik em São Paulo ainda dão testemunho do que ele pregava. A maioria, mas, foi modificada ou até desfigurada ao longo dos anos.

Para José Lira, a obra de Warchavchik é pouco conhecida do grande público. “Certos edifícios modernistas, porquê o Copan, as obras de Niemeyer em universal, mereceram mais essa identificação”, diz o professor de história da Faculdade de Arquitetura e Urbanismo e de Design da Universidade de São Paulo, responsável de um estudo importante sobre o arquiteto.

Lira destaca, no entanto, que o manifesto de 1925 tem interesse em si. Primeiro, por ter sido publicado num momento em que a procura por uma identidade pátrio, na esteira das comemorações do centenário da Independência, apontava para o neocolonial porquê sucessor do eclético. Com o texto, Warchavchik adentra o cenário trazendo “uma boa-nova, o noção de que o pretérito acabou”.

“A nossa compreensão de venustidade, as nossas exigências quanto à mesma, fazem secção da ideologia humana e evoluem incessantemente com ela, o que faz com que cada era histórica tenha sua lógica de venustidade”, iniciava, com cautela, antes de partir para desmantelar os enfeites artísticos que matavam a arte, comparando o tempo todo lar e máquina, porquê defendia o franco-suíço Le Corbusier, papa do movimento.

Com o texto, Warchavchik, nascido em 1896 em Odessa —na Ucrânia, embora se reivindicasse russo—, formado em Roma e desembarcado em Santos em 1923 para permanecer um ano, se tornou o responsável por introduzir o moderno no debate da arquitetura brasileira.

E o faria, também, na prática, ao erigir, em 1927, na Vila Mariana, bairro da zona sul paulistana, a primeira residência a seguir aqueles conceitos no país.

Ele fez o projeto na rua Santa Cruz para viver com sua esposa. Mina era porquê ele judia, mas já nascida no Brasil, em uma família lituana enriquecida no ramo do papel, os Klabin.

Sua mana, Jenny, era casada com outro lituano, o pintor Lasar Segall. O lar deles, ali perto, hoje museu do artista, também foi obra de Warchavchik, muito porquê uma fieira de casas de aluguel na mesma rua Berta.

Estas se encontram menos mudadas que o museu —e levante, muito mais preservado do que a Morada Modernista, porquê ficou conhecida, pelo papel principiante, a residência da rua Santa Cruz.

O imóvel foi adquirido pelo estado depois um movimento de bairro que em 1983 impediu sua derrubada e demandou a manutenção da extensão virente —fruto do trabalho também inédito, com espécies nativas, da mulher do arquiteto.

O uso da lar, porém, foi ofertado ao município. Ela está, assim, sob gestão do Museu da Cidade e do Parque Modernista, da secretaria estadual do Virente e Meio Envolvente. A guarda compartilhada acabou trazendo dificuldades, explica o arquiteto Marcos Cartum.

Ele é diretor do Museu da Cidade e reconhece o estado penoso da construção. Dois anos de indefinição fizeram com que a prefeitura freasse planos de restauro, diz.

Isso porque a secretaria estadual de Cultura acalentou a teoria de retomar o imóvel para lá instalar o Museu da Morada Brasileira, esvaziado de sua sede original. Só depois oficializada a desistência, no ano pretérito, a prefeitura voltou a fazer planos.

Cartum afirma estar “muito otimista” e esperar que o tópico se resolva no ano que vem. Diz ainda que tem equipe ordenado de manutenção e segurança e que “o processo de deterioração está contido”.

O arquiteto tem seu escritório no térreo do prédio Mina Klabin, projeto de Warchavchik na parque Barão de Limeira, região médio de São Paulo.

O prédio, de 1939, traz, nas varandas curvas e em detalhes porquê o respiro do elevador e os números das portas, ares do art-déco, movimento paralelo ao modernismo. Muitos veem nesse tipo de licença um retrocesso do russo, que teria deserto o papel de ponta-de-lança.

“Na minha leitura, Warchavchik é fundamentalmente o introdutor da arquitetura modernista no Brasil. Faço eminência entre arquitetura modernista e moderna”, frisa Cartum. A primeira, diz, “expressa o ideário da era da máquina”; a segunda é a que tornou o Brasil uma potência arquitetônica, a partir de Lucio Costa e Niemeyer.

O Mina, afirma, foi feito com um objetivo muito mercantil, de aluguel, e por isso não ostenta um “modernismo radical”. Hoje impecável, foi uma ruinoso por anos, porquê conta Carlos Warchavchik, neto de Gregori e também arquiteto. Foi preciso refazer até as fundações. Carlos se encarregou de restaurar o prédio e mantém lá um apartamento alugado.

Nele moram Marina Canhadas e Joaquín Gak, arquitetos e professores. Canhadas mostra os tacos na extensão social, o granilite na cozinha, os detalhes das escadas.

O elevador lacuna, mas o Mina tem pé-direito tá, espaços amplos e um jardim escondido. São vantagens de um espaço muito pensado, que eles acharam andando na rua em 2019. Primeiro moraram em um dos estúdios dos fundos; um ano e meio depois, se mudaram para o apartamento de dois quartos, da frente.

Canhadas acha que o relativo silêncio em torno do pioneiro pode ter a ver com ele não ter feito obras públicas. O mais próximo disso são construções para clubes, entre o termo dos anos 1940 e início dos 1950 —a sede social do Club Athletico Paulistano, o salão de festas do Esporte Clube Pinheiros e um ginásio para A Hebraica.

Dos três, só o primeiro pôde ser visitado. Ana Paula Fernandes, historiadora responsável pelo Meio Pró-Memória do Paulistano, conduz o passeio pelo espaço e explica as modificações ocorridas.

Estava previsto um ginásio —não executado e feito depois, em outra secção, por um jovem Paulo Mendes da Rocha—, além da piscina social, que segue lá. Entre o projeto e a inauguração, em 1957, foi quase uma dez de trabalho.

A sede perdeu as varandas para a piscina. Outras ampliações comeram um jardim e um mezanino, e foi eliminada a escada que dava no bar térreo —que agora está em reforma, já sob as exigências do tombamento municipal, de 2018. Apesar disso, o espírito permanece no volume universal, porquê as rampas e a marquise ondulada da ingressão.

Tramontana dissemelhante teve o salão do Pinheiros. Mutilado pela preâmbulo da avenida Faria Lima, nos anos 1960, perdeu sua marquise de entrada. A descaracterização foi utilizada pela associação porquê argumento contra o tombamento do espaço, que pretendia substituir por novo prédio. Uma ação social pública pedindo a proteção foi ocasião e ainda corre na Justiça paulista.

O clube não recebeu a repórter, mas enviou uma nota sobre o salão, dizendo que ele continua em uso para eventos porquê a tradicional Feira Escandinava e que não há obras previstas para o sítio.

Roupa é que Warchavchik se tornou notório pelas casas. O Pacaembu guarda dois exemplos preservados, a da rua Bahia e a da Itápolis, ambas de 1930.

A segunda foi restaurada também por Carlos. Ela foi erguida para Gregori, Mina e os dois filhos morarem durante a ampliação da lar da rua Santa Cruz, reocupada por eles em 1935.

Foi também a sede da “Exposição de uma Morada Modernista”, na qual o arquiteto instalou obras de Segall, Brecheret, Anita Malfatti e Tarsila do Amaral, além de seus próprios móveis. Fez de seu lar o mostruário do que era uma “máquina de morar”.

Para José Lira, atos assim reafirmam o papel de ativista e amotinador cultural de Warchavchik, que pavimentou o caminho para os nomes reconhecidos porquê a grande arquitetura brasileira.

O patrimônio moderno guarda uma história a proteger de ameaças que “vêm de uma discussão muito mesquinha, pautada pelo mercado imobiliário”, diz. Mas o apagamento vai além. É preciso “prestar mais atenção a uma produção mais ordinária, contemporânea de Warchavchik, uma arquitetura anônima, que não tem zero de modernista e também está sendo devastada”.

Folha

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