Morreu nesta segunda-feira, aos 94 anos, Cecilia Gimenez, a autora involuntária de um dos maiores memes da internet mundial. Em 2012, munida de boas intenções, mas sem dominar as técnicas necessárias, Dona Cecilia tentou restaurar o afresco “Ecce Homo”, de Elias García Martínez.
A pintura estava nas paredes de um santuário religioso da cidade de Borja, setentrião da Espanha, de unicamente 5 milénio habitantes.
Tudo começou com um post de um blog devotado à cultura de Borja que lamentava “um ocorrência inqualificável” e se perguntava quem tinha se perigoso a resolver os problemas de conservação da pintura.
“Desconhecemos as circunstâncias em que isso se produziu.”
Mas a idosa paroquiana acabou identificada uma vez que responsável pela mediação. E logo conheceria a força do viral na internet.
Com as imagens do “Ecce Homo” repaginado circulando em subida rotação, dona Cecilia enfrentou um tsunami de chacotas nas redes sociais e nos programas de humor e virou piada em rodas de conversa muito além da Espanha.
Pessoas correram para o Santuário da Misericórdia em Borja para ver o “meme ao vivo”. O padre sítio chegou a solicitar ao prefeito para estancar o quadro e assim evitar piadas. O pedido foi refutado.
Já a idosa, sob prenúncio de processo judicial em razão do que foi classificado de “ato de vandalismo”, caiu em depressão. Chorou por vários dias.
Dona Cecilia foi marcada por batalhas difíceis durante a vida: um dos filhos tem uma lesão cerebral e vivia em uma cadeira de rodas junto à mãe. Outro rebento morreu aos 20 anos por culpa de uma doença muscular rara.
Mais tarde ela recuperaria seu ânimo. Percebeu que sua obra estava “dando a volta”: pouco a pouco, a ridicularização cedia lugar à crítica, muita vezes irônica, em um fenômeno típico da cultura da web.
Em pouco tempo a imagem se transformou em uma série de produtos de merchandising, uma vez que chaveiros, camisetas e imãs de geladeira, e até em uma ópera composta pelo norte-americano Andrew Flack em 2015.
Anos depois, Borja começou a comemorar sem nenhum constrangimento o seu “Ecce Homo”. O original, segundo críticos, tinha insignificante valor artístico, mas a restauração que deu inverídico transformou a vida da obra.
Em 2022 o prefeito da cidade, Eduardo Arilla Pablo, disse à BBC News Brasil que ela era ainda “consciente do fenômeno” que sua mediação provocou.
Dona Cecilia viveu seus últimos anos com saúde debilitada, em uma morada de repouso mantida pelo governo da região de Aragão. A culpa da morte não foi citada, mas o prefeito escreveu em um post que ela “teve cumprido o seu libido de falecer tranquila, com toda a sociedade borjana ao seu lado”.
Ela disse em uma entrevista à TV pública de Aragão que, se pudesse, “voltaria a tentar reparar o Ecce Homo”. A um jornal do País Biscainho, outra região espanhola, afirmou que sempre gostou de pintar e tem boas recordações da restauração porque a “fez com carinho”.
A cidade chegou a fazer uma cerimônia de reconhecimento a Cecilia Giménez e a Elias García Martínez pelo grande impacto causado nessa pequena cidade localizada a 60 km de Saragoça e segmento da região autônoma espanhola de Aragão.
“Turisticamente somos um resultado mundial. Recebemos visitantes de 110 países do mundo”, afirma Arilla.
No primeiro ano em seguida o surgimento do caso houve uma explosão no número de turistas, com 40 milénio visitantes em Borja.
“Agora se estabilizou. Mas trabalhamos para que essa prisão nunca se rompa na hotelaria da cidade”, diz Arilla. Agora, o fluxo fica entre 10 milénio e 11 milénio visitantes anualmente que testemunham ao vivo o que se celebrizou online.
Mas o que o prefeito pensa do que fez Dona Cecilia?
“Uma vez que instituição não podemos permitir que essas coisas aconteçam. Temos um grande patrimônio monumental e artístico e estamos empenhados em restaurá-lo. O que aconteceu foi um erro. Mas também é verdade que, uma vez que isso aconteceu, esse é o fenômeno pop, o ícone pop”, afirma.
“Com todo o meu saudação à pintura original de Elias García, a obra mais importante agora se define ao modo de Cecilia Giménez.”
O original: ‘escasso valor artístico’
O afresco feito por García Martínez é uma reprodução de outros Ecce Homo (“Eis o Varão”, em latim) do pretérito. É um tema geral na arte europeia entre os séculos 15 e 17, tal qual título avalancha à frase de Pôncio Pilatos quando apresenta Jesus Cristo torturado à povaréu.
García Martínez foi professor da Escola de Belas Artes de Saragoça e também o patriarca de uma família de artistas do qual se destacou seu rebento Honorio García Condoy, um estatuário vanguardista.
A família costumava passar os verões na região de Borja, e foi isso que levou Garcia Martínez a produzir o afresco dentro do santuário no ano de 1930.
O quotidiano espanhol El País classificou a pintura original uma vez que de “escasso valor artístico”. A obra não chegou a ser catalogada pelos órgãos culturais de Aragão.
Finalmente, dona Cecilia fez arte?
“Cecilia Giménez criou alguma coisa totalmente dissemelhante, com muito mais impacto do que a pintura original, que não seria esquecida porque nem sequer foi lembrada antes”, diz Nathalia Lavigne, curadora e pesquisadora em cultura do dedo.
“Mas tudo aí é contexto, meme é contexto. A imagem penetrou na cultura visual contemporânea porque tinha todas as características de um meme: uma coisa de casualidade, de amadorismo e meio anárquica. Nunca foi a intenção dela o que aconteceu.”
O caso do “Ecce Homo” refeito, segundo Lavigne, se relaciona a uma questão contemporânea: agora pergunta-se menos o que é a arte e mais onde é arte.
“Naquele contexto em que ela fez a restauração certamente não era arte. Mas pode ser visto dessa forma pensando numa teoria de longevidade da circulação da imagem, que vai prescrever a valor sobre a vida do objeto.”
Durante a “reparação” de dona Cecilia, surgiram visões inesperadas. O cineasta espanhol Álex de la Iglesia, diretor de filmes uma vez que “O Bar e O Dia da Besta”, declarou no Twitter que a imagem é um “ícone de nossa maneira de ver o mundo. Significa muito”.
O crítico de arte americano Ben Davis chegou a colocar a restauração entre as 100 peças que definiram a dezena de 2010 (“uma namorada obra-prima de surrealismo não-intencional”).
Para Rob Horning, editor na revista eletrônica sobre tecnologia e cultura de internet Real Life, o meme na verdade “deu chance para satirizar simultaneamente a piedade da religião e a pseudo-religião da arte”.
O resultado desastroso também “liberou nos espectadores uma sensação de superioridade”, alguma coisa uma vez que olha o que essa senhora teve coragem de fazer.
Horning observa que o sucesso das visitas turísticas a Borja também mostra uma curiosa relação mundo offline versus mundo online: é uma vez que se a parede em que está o “Ecce Homo” de dona Cecilia dissesse para o testemunha: “Eis a internet”.
“A sensação deve ser bastante poderosa”, diz Horning.
Há no meme de dona Cecilia em 2012 alguns caminhos que tornariam característicos na internet com o passar dos anos. O caso sugeriu, por exemplo, que as consequências para alguém que viraliza, mesmo em um contexto de ridicularização, podem não ser tão graves – e uma grande repercussão consegue ser até “monetizada”.
Foi guardado a dona Cecilia 49% dos direitos de imagem de seu “Ecce Homo”, que ela aplicava em um fundo para amparar pacientes que enfrentam a mesma doença que seu rebento.
Mas a principal prelecção do meme, diz o jornalista, é que a internet “se aproveita dos fenômenos e os inverte”. O meme, ao final, “deu a volta”.
No final, até dona Cecilia parecia mais convencida sobre sua obra. Em 2016, durante a cerimônia de inauguração de um “núcleo de tradução” de seu trabalho em Borja, declarou: “Às vezes, de tanto vê-lo, penso ‘meu rebento, você já não é tão mal-parecido uma vez que me parecia no início”.
