Na toga de seu primeiro álbum, uma Firmamento que ainda não havia completado 25 anos de idade encara a câmera com um sorriso esperançado de esquina de boca. Com os cabelos cacheados emoldurando seu rosto, ela transmite uma vontade de elegância despojada num dia ensolarado que vivenda com as 15 músicas da obra.
A cantora foi clicada na vivenda que dividia com duas amigas, na Pompeia, em São Paulo, um envolvente de “farra regular, muitas festas e artistas convivendo”, uma vez que ela define. Nessa estação, ela equilibrava a atuação uma vez que cantora —de jingles, bares, bandas de jam sessions e backing vocal de música eletrônica— com o trabalho de garçonete no restaurante Spot.
Foi nesse cenário que ela criou e gravou o disco que leva seu nome, nas brechas de agenda em que o produtor Beto Villares podia recebê-la em seu estúdio. O álbum “Firmamento”, lançado em 2005, inaugurou a curso da artista entrando no ranking da Billboard de mais vendidos dos Estados Unidos, no 57º lugar, um feito para um trabalho em língua não-inglesa.
Mais que isso, o disco rendeu uma rara indicação de um brasiliano ao Grammy americano, na categoria de melhor álbum de música global, além de uma curso internacional até hoje bem-sucedida. Revisitado no palco em show em São Paulo nesta sexta-feira (23), e relançado em vinil pela Noize Record Club, o trabalho que completou 20 anos se mantém uma vez que um dos mais muito acabados retratos sonoros da primeira metade da dezena de 2000.
Mas apesar de inescapavelmente brasiliano, o disco começou a nascer quando Firmamento, filha de músicos, passou um ano em Novidade York, quando tinha 18, tentando estudar música. “Fiquei muito pouco, mas gerou material para eu estrear a ser compositora”, ela afirma. “As vivências que tive na rua, as porto-riquenhas andando onde eu morava, a galera do rap, essa coisa latente urbana que eu acabei pegando naquele momento me deu vontade de grafar minhas coisas.”
Era 1998, estação do caldo de hip-hop, R&B, neosoul e reggae que desembocou em Lauryn Hill e Erykah Badu, do trip-hop do Portishead e do rap do Wu-Tang Clan, entre outros sons. “A música urbana virou um elemento muito poderoso para mim”, diz Firmamento. “Eu já sabia que era da música brasileira, sempre foi isso, mas às vezes quando a gente se distancia da nossa cultura, parece que refresca a cabeça —até para falar dela mesma.”
“Firmamento”, que marca o encontro de sons tradicionais brasileiros com essa música urbana, foi gravado ao longo de 2004, numa colaboração entre a cantora e o produtor. Para ela, a estética da obra resulta da química com Villares. “Ele entendia onde eu queria chegar e tinha uma paixão pelo Brasil que eu também tenho —e no mesmo lugar, uma pesquisa grande do folclore, um alinhamento.”
Os dois recentemente reabriram os arquivos em que trabalharam na estação. Primeiro, ficaram surpresos com o tempo que passaram refinando o álbum —praticamente um ano inteiro. Depois, Firmamento, hoje aos 45 anos, se reconectou com sua versão de duas décadas detrás através do esquina.
“Eu era muito virente”, ela diz. “Apesar de já ter a minha textura, uma unidade que perdura, era uma rapariga. Fui descobrindo que eu tinha uma amplitude maior com o tempo. É muito bonitinho, porque ouço as sessões e sei exatamente o que eu estava pensando quando estou emitindo aqueles sons. Sei até onde eu achava que era capaz de chegar, minhas limitações, e onde eu achava que podia me deleitar, trebelhar e me soltar.”
A voz contida e menos ousada, ainda que já sedutoramente letárgica, dá vida a uma maioria de composições próprias de Firmamento —12 das 15 do disco. Em “Rainha”, sob uma traço de ordinário circunvalar e sopros que aludem ao afrobeat de Fela Kuti, ela reconhece a influência da música negra ao retratar uma realeza africana que é “mãe da matéria-prima” e a quem “vai levar vida inteira para lhe agradecer”.
“Eu já estava pensando em racialidade e toda essa discussão que acontece hoje”, ela afirma. “Não sei se era consciência, mas muito cedo percebi que a semente de tudo era a música preta, sabe? Já tive muitas conversas com pessoas da música que a gente chega a essa peroração, de que talvez não exista exatamente uma música branca. A semente, a mãe, está toda na África.”
Outra canetada de Firmamento nesse disco é “Malemolência”, tira que atesta a espaço da obra. Levada no cavaquinho e violão e com ordinário e batidas que ecoam o hip-hop, a música foi remixada pelo DJ mexicano Mandragora, que tem vivência e atuação na cena brasileira e hoje reside na França.
Nessa encarnação, a tira de Firmamento virou febre em bailes funk e sets de DJs no Brasil e no exterior, isso antes de virar sample em “Trip do Boyzinho”, do cantor baiano Rosemildo Duarte, sabido uma vez que Boyzinho. Dessa vez, a voz da cantora pontuou uma fusão de bregadeira com eletrônica de rave que fez a música estourar novamente.
Firmamento diz que teve problemas com Mandragora, que ela diz ter remixado seu fonograma, mudando o nome da música —para “Sem Ar”— e a excluindo da autoria, tudo sem autorização. A cantora conta que hoje essa situação está resolvida, e seu nome já consta uma vez que autora da tira.
“Evidente que houve um estranhamento, porque ele pegou essa música e fez um hit. Pegou a voz original, a letra original, deu outro nome e me tirou da autoria. Podia só ter me botado, né? Mas já está tudo evidente, já sou compositora de ‘Sem Soalho’ também. Mesmo não creditada, comemorei muito, ainda mais depois com a bregadeira e todas as versões. Para mim são janelas, pontes. Meu grande libido é que a minha música atravesse.”
O disco “Firmamento” é repleto também de uma atmosfera etérea que a cantora labareda de lerdeza —um pouco que a acompanha por toda a curso. É uma vontade que combina com os efeitos de mudança de consciência da maconha e remete à obra de Bob Marley, presente no álbum com a música “Concrete Jungle”, para a qual Firmamento fez uma versão acústica.
“Acho que eu tenho toda a atmosfera da cannabis dentro de mim, assim, naturalmente”, diz a artista. “Já fui usuária. Hoje, fora o [composto da planta que não possui o efeito psicoativo] canabidiol, não sou. Sou muito sensitiva e a grama abre muito, abre tudo. Prefiro trabalhar já com meu mecanismo procedente das coisas.”
Ela conta que já fez uso da grama para fabricar, mormente no álbum que agora celebra no palco. “Foi um momento em que eu estava experimentando mais, usando mais. Quando estou numa submersão, no mato, ouvindo o som, isso sempre me fez muito muito. Acho que a cannabis é uma grama muito sagrada mesmo. Porquê vou usar uma coisa dessas assim —acordei e vai. Acho que ela pede um entorno.”
Firmamento defende a regulamentação antes de se pensar na legalização. “Acho importante olhar para as pessoas que já estão trabalhando nisso há anos, porque se não abre a lei para legalizar e aí vêm corporações gigantescas com moeda, para fazer mais moeda, e acabam com esses microempreendedores, cultivadores, pessoas que conhecem”, ela diz. “É um caminho a ser feito com cautela, não assim deliberadamente. Mas sou totalmente em prol.”
Vinte anos depois, Firmamento crê que a música brasileira ainda interessa aos americanos. Ela louva os esforços de Anitta ao tentar entrar no mercado dos Estados Unidos e lembra que o sucesso de seu disco por lá se deve também à aposta do selo Starbucks Hear Music, da famosa cafeteria, que comercializou o álbum no país.
Mas se “Firmamento” saiu numa estação em que a internet ainda engatinhava no Brasil, hoje o mundo do dedo é a norma. “Sempre fui de ouvir uma coisa e gostar quando era estranho. Não preciso gostar de rostro, mas se é lícito, vou permanecer. Você se debruça sobre o material. Logo, esse delícia sobre uma coisa está se perdendo, né? Está tudo virando muito sobre o momento. Mas não sou pessimista, acho que a humanidade anda em lesma —é a lesma do tempo, uma vez que disse o Gilberto Gil.”
