Como ditadura militar vigiou luis fernando verissimo 13/09/2025

Como ditadura militar vigiou Luis Fernando Verissimo – 13/09/2025 – Ilustrada

Celebridades Cultura

“Integrante da esquerda festiva”, de “risco esquerdista e contestatória”, “colabora (…) em vários jornais e tabloides da ‘prelo nanica’, toda ela de caráter subversivo e grandemente difundida no meio universitário”.

Assim o jornalista Luis Fernando Verissimo foi definido por agentes e órgãos da ditadura militar brasileira em documentos oficiais produzidos entre 1970 e 1985.

O instituidor da Família Brasil morreu no dia 30 de agosto, no Hospital Moinhos de Vento, em Porto Satisfeito.

Relatórios e dossiês conservados pelo Registro Pátrio, muitos deles com o timbre de “secreto”, mostram que o regime militar mantinha vigilância cerrada sobre Verissimo.

No mais macróbio documento da série, um encaminhamento (espécie de informe sobre um sujeito ou um tema) da sucursal de Porto Satisfeito do Serviço Pátrio de Informações (SNI) à Filial Médio do órgão, em Brasília, o logo colunista do jornal Folha da Manhã, da capital gaúcha, é descrito em termos depreciativos.

“Luis Fernando Verissimo é fruto do jornalista gaúcho Érico Veríssimo, à sombra do qual se projetou. Possui pilar garantida no jornal Folha da Manhã, da Companhia Jornalística Caldas Júnior, que o promove e lhe garante o público. Suas crônicas, embora inteligentes, refletem as irreflexões, o menosprezo à sociedade e os inconformismos sociais próprios de sua pouca idade”, afirma o texto.

Quando o texto foi redigido, em 7 de agosto de 1970, Verissimo estava prestes a completar 34 anos.

O documento prossegue: “Filia-se ideologicamente às ‘esquerdas festivas’ às quais festeja, com seu humor e suas ironias.”

E conclui: “É um ‘marxista’ em potencial. Porta-se de modo magnífico à campanha de descrédito que grupos ligados à oposição movem ao governo e a seus atos, procurando-os desacreditar e perverter.”

Em seguida, o agente expõe o que qualifica de “estudo” das crônicas do vigiado: “Variegado entre crônicas que vão do time de futebol do E. C. Internacional, seu diretor Aldo Dias Rosa até o seu gordo técnico Daltro Menezes”.

“O nome do clube se prestou às ligações que estabelece do concepção em que o Brasil é visto no exterior. Ao insatisfação lavrado no seio da torcida deste clube, estradula com a sugestão de agentes infiltrados que devem ser confinados a supostas e insinuadas maneiras de proceder do governo.”

A “mensagem”, ressalta o agente, é clara: “Ridicularizar o regime.”

O informe do SNI lista também “pontos fortes” e “pontos fracos” de Verissimo.

“Pontos fortes: serve-se da roboração ampla do futebol para usá-lo uma vez que veículo da sua mensagem. Utiliza-se da técnica de lançar a notícia em pílulas. Pontos fracos: sem consistência. Não alicercia suas ironias.”

Num relatório da Ramificação de Segurança e Informações do Ministério da Justiça, de 27 de março de 1972, Verissimo é citado somente uma vez que “o fruto do jornalista Érico Veríssimo”.

Ao abordar a influência da prelo na atitude dos gaúchos em relação ao regime militar, o anônimo responsável do documento escreve: “No jornal vespertino ‘A Folha da Tarde’, o fruto do jornalista Érico Veríssimo costuma repreender em suas charges, de forma áspera o governo e o Ato Institucional nº 5.”

Em 29 palavras, o texto acumula dois erros: o endereço profissional do vigiado e o nome do jornal (Folha da Tarde), quando ele na verdade assinava pilar na Folha da Manhã, outro quotidiano da Companhia Jornalística Caldas Júnior.

O jornalista e jornalista Márcio Pinho, responsável de “Rato de Redação: Sig e a História do Pasquim”, diz que, sob o regime militar, exprobação, vigilância e coerção atingiram todos os humoristas, embora em graus distintos.

“O humor era muito perseguido porque era a melhor forma de se expressar o que se pensava”, sustenta ele.

Ainda assim, observa Pinho, Verissimo imprimiu a sua produção uma marca própria, que o distinguiu de outros humoristas.

“Uma das grandes virtudes, que também era um grande talento dele, foi não fazer um humor ofensivo”, opina o jornalista.

“Quando se observa certas charges de Millôr Fernandes e Henfil, nota-se claramente que eles queriam cutucar o regime com vara curta”, diz Pinho.

Verissimo, por sua vez, tinha um estilo refinado e, por vezes, polido e frágil, na opinião do jornalista.

“Isso permitia-lhe, por exemplo, relacionar futebol e política”, raciocina ele.

Em 3 de setembro de 1975, um documento labareda atenção para a repercussão, na prelo de Porto Satisfeito, de uma série de escândalos recentes de prevaricação.

O texto informa: “Luis Fernando Verissimo, na sua pilar da FM [Folha da Manhã] do dia 30 de agosto de 1975 publicou o seguinte diálogo: ‘P: Sr. Corrup Telles, uma vez que é que você ainda está solto? R: Por um sofisma lícito! Sou corrupto há muitos anos. Corrupto dos bons. E a Lei sabia disto. Mas por distração nunca me pegou! Simples que não pode me pegar agora. Seria uma confissão que, no pretérito, ela tinha se postergado. Mas eu prometi às autoridades que me regeneraria e me regenerei. Por um bom verba, evidente.'”

Pequenos jornais de oposição na mira dos agentes

Além dos grandes jornais, a ditadura prestava também atenção à extensa colaboração de Verissimo com pequenos jornais de oposição, apelidados de “prelo escolha” ou “nanica”.

Um informe secreto de 14 de novembro de 1975 da Secretaria de Segurança Pública do Rio Grande do Sul analisou o jornal mensal Risco, da L&PM Editores, fundada no ano anterior e que publicaria algumas das mais célebres obras de Verissimo.

“Já no 1º número está inserida uma reportagem de Luis Fernando Verissimo, fruto de Érico Veríssimo”, diz o texto.

“O jornal em título [Risco] provavelmente será transformado em quinzenal, quer porque oriente tipo de pasquim seja muito aceito entre os estudantes, quer porque tenha uma vez que colaboradores profissionais conhecidos, quer porque atenda os interesses políticos da oposição”, complementa o documento.

Ao concluir, adverte: “Ao que tudo indica reuniu-se ali a maior concentração de comunistas, esquerdistas e anarquistas que se encontram em ação no jornalismo gaúcho.”

Além de Verissimo, outro colaborador do Risco citado no informe é o artista gráfico Edgar Vasques.

“Edgar Vasques, instituidor de ‘Rango’, também excluído da Folha da Manhã, colaborador do Risco, já teve três livros editados por L&PM Editores, tais publicações são marcadamente esquerdistas, tecendo, mesmo, ataques e críticas diretas ao Governo Revolucionário”, afirma o responsável do relatório.

Em 1976, a revista IstoÉ contratou Verissimo uma vez que colunista, em uma jogada que ajudou a impulsionar as vendas da publicação no Rio Grande do Sul.

Um documento de 3 de junho daquele ano registra: “A novidade revista IstoÉ tem uma vez que gerente de redação o sr. Mino Missiva, ex-diretor de redação da revista Veja, e tem uma vez que colaboradores os seguintes escritores de tendências esquerdistas: Millôr Fernandes, Luis Fernando Verissimo e Plínio Marcos.”

Responsável pela passagem de Verissimo pela IstoÉ, o jornalista Mino Missiva morreu no dia 2 de setembro, em São Paulo, aos 91 anos.

Em alguns casos, a vigilância produziu registros que, pela futilidade e irrelevância, parecem saídos de uma das crônicas de Verissimo.

Um exemplo é o informe da Ramificação de Segurança e Informações do Ministério da Justiça, de 28 de novembro de 1977, sobre uma charge publicada por Verissimo no jornal Zero Hora.

Sob o título “Semelhança”, a charge mostra um interlocutor anônimo dizendo a outro:

“O time do Internacional parece o atual ministério”.

“Porquê?”, pergunta o segundo.

“Valoroso, meio desentrosado, com pouca torcida”, desabafa o primeiro.

“E quem aparece mais é o Falcão.”

Num observação sobre a charge, o Ministério da Justiça afirma: “A pretexto de criticar a má período vivida pelo ‘Esporte Clube Internacional’, de Porto Satisfeito/RS, procura ridicularizar a atuação dos Ministérios do atual Governo e, de modo pessoal, a pessoa do Ministro da Justiça.”

O titular da pasta da Justiça, Armando Falcão, tinha em 1977 o mesmo sobrenome da estrela em subida no Internacional, o meia Paulo Roberto Falcão.

Os dois —ministro e jogador— não tinham qualquer parentesco.

Eram escrutinadas até mesmo produções para o mercado publicitário, no qual Verissimo trabalhou por muitos anos.

É o caso da Informação nº 749, da Filial Médio do Serviço Pátrio de Informações (SNI), de 20 de junho de 1977.

O documento trata de uma nota divulgada pela assessoria de informação da Rhodia do Brasil, que atua na indústria química e têxtil, a reverência da preterição do nome de Verissimo uma vez que instituidor de uma peça promocional para a empresa.

“É interessante notar que o marginado [Verissimo], em suas crônicas, na base do humorismo, faz constantes críticas ao Governo e ao regime brasiliano mas não se acanha de trabalhar para uma multinacional [Rhodia]”, diz o informe, que não tem o responsável identificado.

O jornalista e jornalista Rafael Guimaraens, que começou a trabalhar em redações em 1976, afirma que repressão, exprobação e oficialismo dos grandes veículos tolhiam o trabalho de repórteres e redações depois da edição do Ato Institucional nº 5, em 13 de dezembro de 1968.

“Os grandes jornais reproduziam o oração da ditadura. Havia, obviamente, jornalistas que faziam trabalho digno, mas os jornais, em si, eram oficialistas”, opina ele.

A missão de informar com correção e qualidade ficou, assim, nas mãos da prelo nanica.

Companheiro de Verissimo na Folha da Manhã e também objectivo da vigilância solene, Edgar Vasques não se recorda de testemunhar o companheiro preocupado com o cerco do regime.

Diferentemente de Verissimo, Vasques teve de responder a questionário e processo instaurado pela Polícia Federalista depois que autoridades do regime determinaram a consumição de uma edição inteira do jornal Pasquim em razão de uma charge de “Rango”, no ano de 1976.

“Éramos suspeitos de denegrir a imagem do Brasil no exterior a serviço de potência estrangeira”, lembra ele.

“Os caras achavam que [a influência] era a China ou a União Soviética, mas Onça [editor do Pasquim na época] dizia que era Uganda”, diverte-se Vasques.

Onça também morreu recentemente, no dia 24 de agosto, aos 93 anos.

Folha

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