Como escolas fizeram do Carnaval uma passarela de moda

Como escolas fizeram do Carnaval uma passarela de moda – 21/02/2026 – Ilustrada

Celebridades Cultura

O sambódromo projetado por Oscar Niemeyer no Rio de Janeiro foi mais uma vez ocupado por milhares de pessoas em êxtase, dançando e cantando a noite inteira, uma vez que se não houvesse o amanhã. Lá, a carnavalização da vida vibra sob códigos visuais específicos, a partir de figurinos e alegorias que contam histórias, tendo uma vez que condutor o ritmo dos tambores e os corpos de seus componentes.

Nesse cortejo, as 12 escolas de samba cariocas do Grupo Próprio propõem a cada ano novas formas de levar ao público e aos jurados essas narrativas, e daí emergem as mais arrebatadoras experiências estéticas —sensoriais também.

A Marquês de Sapucaí é a maior passarela do mundo. Com tudo a que tem recta em glamour, drama e fortes emoções, de natureza tão efêmera quanto inolvidável para quem a vive.

Talvez por isso, para o desfile de 2026, alguns dos principais carnavalescos do país trouxeram à avenida um quê de nostalgia ao revisitar momentos, personagens e figurinos que contam a própria história do Carnaval, muitas vezes em caráter de metalinguagem.

Ao olhar para si, o Carnaval se reinventa enquanto produz memória e cria novidade iconografia a ser propagada pelas redes sociais e pela digitalização do cotidiano, projetando-se no imaginário desta e das próximas gerações.

A Viradouro, por exemplo, homenageou o condutor de sua bateria, Rabino Ciça. Com cinco décadas de atuação, considerado um inovador em seu segmento, prestes a completar 70 anos, era até portanto sabido no meio do samba, não fora dele. Saiu consagrado do desfile que levou a escola à vitória.

O vértice da apresentação foi quando os ritmistas subiram num carruagem simbólico vazio para, lá de cima, atravessarem a pista, repetindo a teoria que Ciça teve para o desfile de 2007 no enredo “A Viradouro Vira o Jogo”, desenvolvido por Paulo Barros —não à toa ele chorava do início ao termo deste desfile.

Corta para 2026, quando o carruagem é o coração da escola, de onde pulsa sua espírito —o samba. Seus instrumentistas, vestidos com o vermelho que é a cor da escola, “na maior beca”, uma vez que se diz no Rio, reverenciavam o rabi em bossas das mais sinistras. A Sapucaí foi à loucura.

“A rígida hierarquização social no Brasil muitas vezes torna certas personalidades artísticas invisibilizadas. A teoria do enredo era fazer de Rabino Ciça, operário do Carnaval nascido no bairro do Estácio, um herói civilizador, elevando seu nome ao patamar de artista”, diz o enredista João Gustavo de Melo, que desenvolveu o roteiro juntamente com o carnavalesco Tarcísio Zanon.

“Rebento da revolução músico no bairro do Estácio, com o chamado ‘samba de sambar’, a figura carismática de Moacyr da Silva Pinto traduz a alegria e a emoção do Carnaval.”

Para o duelo de transformar vida e obra de um personagem do cotidiano da escola em fantasias e alegorias, de modo homérico, a estratégia foi reprocessar os instantes que fazem secção da história do Carnaval, também por meio do figurino.

“Optamos por uma pesquisa de tecidos que entregassem um ar retrô, sem transfixar mão da contemporaneidade. Um exemplo foi a lado de baianas, intitulada Arte Negra no Legendário São Carlos. A saia, feita de tule com metaloides nas pontas, era um recurso clássico da lado. Neste ano, fizemos a peça nesse estilo, mas colocando pequenas franjas de EVA cortadas, dando a teoria de que as saias foram ‘manchadas’ de serpentina”, afirma Zanon.

Na Salgueiro, na homenagem a Rosa Magalhães, maior campeã do Carnaval carioca, nome absolutamente incontornável em sua arte, a equipe comandada pelo carnavalesco Jorge Silveira optou por submergir na pesquisa feita a partir do “download” dos 5.000 croquis que a professora deixou em vida à UERJ.

E se valer de um método visual e narrativo usado pela própria, a sobreposição e a mistura. Mas de modo anacrônico, provocando verdadeiros crashes, sem reportar um desfile específico, justapondo referências, signos, épocas e conceitos.

“Mergulhamos na nostalgia e no sentimento de saudade do trabalho da Rosa”, diz Jorge Silveira, que se refere a ela uma vez que “a maior artista que a Marquês Sapucaí já viu e já produziu”.

“Para materializar esses desenhos, chegamos a comprar alguns materiais nas mesmas lojas e encontrando até os mesmos vendedores que forneciam para Rosa, para poder chegar o mais próximo provável dessa textura nostálgica.”

O resultado é uma viagem lírica por diferentes épocas e muitas lembranças, ao som de um violinista em meio aos instrumentistas do “carruagem de som”, aludindo à fascinação de Rosa Magalhães pelo barroco.

Foi um ano de muitas homenagens na Sapucaí. Cá cabem a nostalgia gulodice do olhar de Renato Lage para Rita Lee, na Mocidade Independente de Padre Miguel, num estilo ligeiro e irreverente, sem penas ou plumas de origem bicho, uma vez que pediu Roberto de Roble, honrando a homenageada, e a leitura de Leandro Vieira sobre a trajetória de Ney Matogrosso na Imperatriz Leopoldinense.

Irreverente e “caliente”, e o mais ousado do ano, interpretando o enredo sob o repertório estilístico do Carnaval —formas extravasadas para serem vistas das arquibancadas, tropicalizadas, latinizadas, sensualizadas, brincantes, leves, ainda que exacerbadas. O corpo político do cantor multiplicado nos 3.000 componentes da escola.

A iniciar pela percentagem de frente, que trazia em formato de palco e camarim diferentes personas do camaleônico Ney Matogrosso, exibidas com truques de prestidigitação, passando pela debochada lado toda em cor-de-rosa e dourado, a dos “homens com agá” —de sunga, flores e franjas, chapéu à voga nordestina—, e terminando num grande conjunto, 300 integrantes com fantasias clássicas de Carnaval misturadas aos looks criados e eternizados pelo cantor que encerrou seu próprio desfile num figurino que poderia ter saído de um de seus shows. O Carnaval imita a vida.

Outro momento sublime deste ano foi o desfile criado por Leonardo Bora e Gabriel Haddad em sua estreia na Vila Isabel, lembrando Heitor dos Prazeres. Sambista, compositor, dândi carioca, sua arte de múltiplos talentos foi o tópico para a badalada dupla de carnavalescos discorrer seu rigor ao pormenor, sua paixão pela cor —em muitas pinceladas na avenida—, onde o Rio de Janeiro aparece uma vez que cenário e protagonista de antigos carnavais.

Foi cá que tivemos a monumental Sabrina Sato uma vez que uma rainha de muitas tintas e cores, absoluta na passarela, apresentando os ritmistas em roupas tingidas à mão, e as mais bonitas baianas da Sapucaí, em prata e dourado, referência a Oxum.

Já a jovem e aclamada Mayara Lima levou consigo tanto a bateria da Unidos do Tuiuti, quanto uma movimentação que convida ao porvir das escolas de samba, dentre as agremiações que celebram a ancestralidade africana em seus temas —cá com um dos sambas-enredo mais cantados do ano. O início do desfile, todo em branco, abria os caminhos do afrofuturismo na Sapucaí.

A Beija-Flor, por sua vez, rainha de enredos de temática afro, encheu a Sapucaí de formosura com seu Bembé do Mercado, dando perenidade ao vigoroso e rico estilo da escola nas mãos de João Vitor Araújo, vencedor com o enredo em homenagem a Laíla no ano pretérito.

Neste ano, quatro escolas gabaritaram nos quesitos de alegorias, adereços e fantasias —Imperatriz Leopoldinense, Vila Isabel, Viradouro e Mangueira. Na verdejante e rosa, o carnavalesco Sidnei França sedimenta sua posição, fortalecido por mais estrutura —verba—, conseguindo bons resultados e contornos para seu estilo, sobretudo a partir dos figurinos e alegorias dos rituais do Amapá, do bonito e lisérgico início do desfile.

Sua abordagem de look totalidade —luvas, acessórios, muitas camadas de roupas e pinturas— funcionou, num ano de maquiagens criativas em todas as escolas. Notas à secção, destaca-se a Grande Rio, que falou do Manguebeat com domínio cromático e óptimo volumetria na avenida, bom trabalho do carnavalesco Antônio Gonzaga, em sua estreia avante da escola. Olho nele.

Com tantos talentos, sendo o Carnaval a celebração da produção periférica, negra, brasileira, será mesmo que se justifica a “ação” da grife italiana Dolce & Gabbana ao vestir a atriz Juliana Paes para seu retorno junto à bateria da Viradouro? Cá não tem alta-costura. E nem precisa.

Folha

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