A multipropriedade no futebol se refere aos casos em que um mesmo grupo empresarial controla vários clubes em diferentes ligas, uma vez que o consórcio americano BlueCo, possessor do Chelsea, na Premier League, e do Strasbourg, na Ligue 1. O treinador do clube galicismo, Liam Rosenior, acaba de ser contratado pela equipe inglesa.
O padrão se estrutura em torno de um clube economicamente poderoso, ao volta do qual gravitam equipes satélites menores que disputam diferentes campeonatos. Esses clubes menores costumam receber recursos para desenvolver sua infraestrutura e contratar jogadores, além de se beneficiarem do empréstimo de atletas do clube principal. Em contrapartida, ficam em certa medida obrigados a vender seus melhores jogadores para o time líder.
O economista do esporte Christophe Lepetit traça uma “tipologia dos clubes na multipropriedade”, conforme sejam ou não o carro-chefe do grupo.
No mundo, entre 200 e 300 clubes fazem secção hoje de qualquer padrão de multipropriedade, “contra menos de 100 há cinco anos e menos de 40 em 2012”, segundo explicaram recentemente os senadores franceses Laurent Lafon e Michel Savin em um relatório parlamentar. Trata-se de um fenômeno que envolve grandes clubes europeus e que ganhou força nos últimos anos.
Na Premier League, instituições de peso integram estruturas desse tipo, uma vez que o Manchester City (City Group, que também controla o Troyes, na Ligue 2 francesa, e o Bahia, da primeira separação brasileira), o Manchester United (Ineos, proprietário do Nice, da Ligue 1) e o Chelsea (BlueCo). O padrão também está presente na Itália, com o Milan (RedBird, ligado ao Toulouse, da França), e se expandiu amplamente na própria França.
Na escol francesa, dez dos 18 clubes são afetados pela multipropriedade: PSG, Monaco, Lens, Metz, Lyon, Toulouse, Strasbourg, Nice, Le Havre e, em breve, o Lorient. O caso mais emblemático é o do Strasbourg, adquirido em 2023 pelo consórcio BlueCo, também possessor do Chelsea. Nesta terça-feira, Liam Rosenior, técnico do clube desde 2024, deixou a equipe para assumir o comando do carro-chefe do grupo, o que provocou a revolta dos torcedores alsacianos.
Há algumas semanas, o Lorient anunciou sua integração ao grupo Black Knight Football Club, que já controla o Bournemouth, da Inglaterra, e o Moreirense, de Portugal. Em dezembro, o Qatar Sports Investments (QSI), proprietário do PSG desde 2011, anunciou que assumiria o controle totalidade do Eupen, clube da segunda separação belga. A multipropriedade também alcança o futebol feminino: uma das principais redes é liderada pela empresária americana Michele Kang, dona do OL Lyonnes, na França, e do London City Lionesses, na Inglaterra.
O padrão, no entanto, sofreu alguns reveses recentes. Em julho, o Lyon, pertencente à Eagle Football Holdings, quase foi rebaixado administrativamente à segunda separação em secção por motivo de seu padrão econômico fundamentado na multipropriedade. O fundador do grupo, o empresário americano John Textor, foi réu no Brasil de privilegiar as finanças do Lyon em detrimento do Botafogo, um dos clubes satélites do fundo. Para proporcionar os franceses, o clube onde Garrincha brilhou nas décadas de 1950 e 1960 teria vendido jogadores a valores muito inferior dos praticados pelo mercado.
Na temporada passada, o fundo americano 777 Partners, proprietário do Red Star, da segunda separação francesa, quebrou, deixando a gestão do clube nos periferia de Paris nas mãos dos credores e seu horizonte indefinido. O Standard de Liège, na Bélgica, e o Vasco da Gama, no Brasil, também foram afetados pela falência do grupo.
A Uefa acompanha o fenômeno de perto, já que a presença, numa mesma competição, de clubes pertencentes ao mesmo grupo pode distorcer o estabilidade esportivo. Assim, o Crystal Palace, que havia conquistado em campo uma vaga na Europa League nesta temporada, foi deslocado para a Conference League para dar lugar ao Lyon, já que ambos tinham o mesmo acionista.
Em 2024, a entidade europeia autorizou, por outro lado, a participação simultânea do Manchester United e do Nice na Europa League, em razão das “mudanças significativas” promovidas pela Ineos, dona dos dois clubes. O mesmo ocorreu com o Manchester City e o Girona na Liga dos Campeões. Em setembro, o presidente da Uefa, Aleksander Ceferin, afirmou em entrevista à revista Politico que há discussões em curso sobre uma mudança nas regras, mas descartou uma proibição totalidade da multipropriedade.
A Fifa, por sua vez, impediu o León de participar da primeira edição do Mundial de Clubes com 32 equipes, realizada em meados de 2025 nos Estados Unidos. O clube mexicano foi barrado por compartilhar os mesmos donos do Pachuca, também do México, que acabou disputando o torneio.
