Como guerra ideológica conduz gestão do theatro municipal 23/09/2025

Como guerra ideológica conduz gestão do Theatro Municipal – 23/09/2025 – Ilustrada

Celebridades Cultura

A decisão do prefeito de São Paulo, Ricardo Nunes, do MDB, de pedir a rescisão, na última sexta-feira, do contrato com a Sustenidos, gestora do Theatro Municipal, expõe uma guerra ideológica que foi conflagrada, nos últimos quatro anos, num dos palcos mais importantes do país.

De um lado, a Sustenidos teve sua direção artística orientada por pautas ligadas à esquerda, envolvendo a procura por mais multiplicidade e a desconstrução da ópera, da música clássica e da dança contemporânea. Do outro, vereadores conservadores, aliados a Nunes, se posicionaram contra a administradora, por uma suposta doutrinação ideológica no teatro.

Existe ainda um terceiro grupo, com artistas da morada e profissionais da música clássica, que também se manifestam contra a organização social, insatisfeitos com o trabalho da direção artística e com aspectos referentes à requisito dos corpos estáveis da morada.

“Quando a gente erra, também precisa falar. Era para ter encerrado o contrato em 2023, estou assumindo uma omissão. O Tribunal de Contas já havia solicitado isso lá detrás, não teria por que ter levado esse contrato até agora”, afirma Nunes. “Nesse período, eu duvido que você me fale um tanto que o Municipal fez que tenha chamado a sua atenção. Não conseguiram trazer para a cidade um protagonismo digno de um investimento de R$ 160 milhões por ano.”

Em 2023, o Tribunal de Contas do Município, o TCM, determinou um novo edital de solicitação público, que nunca foi posto em prática. Em seu voto, o relator mentor Domingos Dissei lembrou aspectos que levaram à emprego de multas à gestão, uma vez que o não cumprimento de metas de produção e de economicidade.

Nunes diz ter resolvido romper o contrato depois de um funcionário da Sustenidos ter comemorado o homicídio do influenciador trumpista Charles Kirk. Nas redes sociais, Pedro Guida, diretor de elenco do Municipal, republicou um vídeo de um influenciador americano que afirmava que Kirk era nazista. Procurado, Guida não respondeu à reportagem.

O deputado federalista Nikolas Ferreira, do PL, chegou a reivindicar contra Guida. Nunes diz que a Sustenidos não atendeu o pedido da Instauração Theatro Municipal para destituir o funcionário.

Porquê ocorre desde 2021, quando a Sustenidos assumiu o espaço, as diretoras da organização social, Alessandra Costa e Andrea Caruso Saturnino, negaram pedidos de entrevista da reportagem. Publicaram, porém, nota em que dizem já ter ausente o profissional.

O texto diz que a decisão pela exoneração não poderia ter se oferecido na mesma velocidade que a história se desenrolou nas redes e que a postagem não foi feita na conta do Municipal nem em nome do teatro ou da Sustenidos. Reafirma ainda apartidarismo da Sustenidos e enumera feitos uma vez que a geração do programa Municipal Circula e turnês do balé. A organização avalia medidas administrativas e judiciais para manter o contrato —eles têm 15 dias para recorrer.

Foi agedanda para esta quarta uma assembleia-geral com todos os artistas da instituição. Sobre o procedimento do TCM, a gestora diz que o questionamento é direcionado à prefeitura por uma organização que perdeu a concorrência para gerir o teatro. “Não há questionamento sobre a lisura da Sustenidos”, afirma a nota.

Se a rescisão prosseguir, Nunes disse que pode ser necessário um contrato emergencial para dar seguimento às atividades do teatro até o término do processo de licitação. Uma versão prévio do edital já está em consulta pública.

Toda a querela envolvendo o funcionário parece ser pretexto, porém, para uma disputa ideológica. A postagem de Pedro Guida foi mostrada ao prefeito por uma série de vereadores conservadores, insatisfeitos com a visão da organização social sobre cultura.

“A Sustenidos vem em um desenvolvimento de sua ideologização da arte. O Municipal se tornou palco de propaganda política ideológica”, diz o vereador Adrilles Jorge, do União Brasil. Ele diz ter ligado para Nunes e conquistado maioria na Câmara dos Vereadores antes de apresentar um ofício, pedindo a rescisão do contrato.

Durante o período que administrou o Municipal, a Sustenidos promoveu montagens polêmicas, caso da recente encenação de “Don Giovanni”, de Mozart, idealizada por Hugo Possolo. Os diretores cortaram os recitativos da partitura e, no lugar, foram inseridos diálogos em português com críticas políticas. Entre esses dizeres, se destacaram as frases “respeita as mina”, “sem anistia” e comentários contra o agronegócio —zero que estivesse previsto no libreto.

Há dois anos, “O Guarani”, de Carlos Gomes, ganhou uma montagem vista uma vez que militante. Sob direção de Cibele Forjaz, o espetáculo teve a participação de indígenas, faixas de protesto pela demarcação de terras e o galanteio do balé. Em 2022, foi a vez do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terreno, o MST, lucrar o palco, na ópera “Moca”, de Felipe Senna. Já em agosto, “Réquiem”, espetáculo do Balé da Cidade de São Paulo, foi culpado de satanismo durante o Festival de Joinville, em Santa Catarina.

“A Sustenidos está fazendo cultura de extrema esquerda. Os tais apartidários levaram o MST para o palco e enrolaram para destituir o Guida”, afirma a vereadora Sonaira Fernandes, do PL, que também liderou o movimento contra a Sustenidos. Questionada, ela diz que não acompanha a temporada lírica do Municipal.

A vereadora Luana Alves, do PSOL, diz que não há ideologização no Municipal e que Guida não deve ser deposto. “É um prefeito mais bolsonarista do que nunca. É um ideológico de extrema direita que prioriza direitos desses grupos. A exoneração imediata geraria transe jurídico para eles.”

Entretanto, a Sustenidos também gerou insatisfação nos próprios artistas da morada e entre os aficionados da lírica. Apesar de a montagem de obras de séculos passados não ser vedado, existem tendências quanto à encenação. Em universal, encenadores buscam respeitar os fundamentos da obra do compositor e do período na qual foi concebida. Para uma boa secção dos fãs do gênero, a visão da Sustenidos descaracterizou as obras montadas no teatro e a ópera em universal.

É o que afirmam funcionários do Municipal, que preferem não se identificar. Há avaliação de que a Sustenidos trouxe um peso ideológico exagerado, que descaracterizou obras canônicas, tornando a programação divisiva. Há queixas sobre a escolha de elenco, com cantores despreparados, e a escalação de diretores que nunca dirigiram óperas.

A Sustenidos ainda acumulou confusões com seus corpos artísticos. No início do ano, a orquestra, numa ação na Justiça do Trabalho, criticou o novo edital para contratação dos músicos, que, segundo o conjunto, ignorava o regimento interno. Em 2023, o balé denunciou sucateamento, e o coro temeu uma vaga de demissões, depois que a gestora anunciou uma audição interna para determinar a qualificação dos cantores.

A atual crise, por término, retoma um macróbio debate sobre o padrão de gestão ideal para um teatro lírico. Por ironia, Adrilles Jorges e Luana Alves, direita e esquerda, dizem preferir gestão direta do poder público.

Folha

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