Um piloto bonitão de espírito rebelde serve o Tropa americano em uma missão para explodir usinas de urânio de uma país distante e salvar o mundo. Se fosse lançado hoje, “Top Gun: Maverick”, de 2022, talvez não pegasse tão muito. Fora das telonas, os bombardeios dos Estados Unidos e de Israel sobre o Irã, ordenados por Donald Trump, não pareceram heroicos ao despertarem uma guerra no Oriente Médio, no último sábado (28).
O novo conflito se soma a uma política interna que inclui exprobação, perseguição a imigrantes e repressão a protestos. Os Estados Unidos de hoje parecem distantes da terreno da liberdade enxurrada de paladinos dispostos ao sacrifício pelo muito maior, uma vez que Hollywood retratou por mais de centena anos, de “O Promanação de uma Pátria” a “O Resgate do Soldado Ryan”, “Super-Varão”, “Argo”, e por aí vai.
Na vida real, os caças mataram o líder do Irã, Ali Khamenei, e atingiram alvos civis —entre eles uma escola primária para meninas, matando 85 estudantes. Trump não usou a promoção dos valores democráticos para justificar a empreitada, uma vez que fizeram outros líderes americanos em guerras uma vez que a do Iraque, em 2003, ou a invasão à Líbia, em 2009.
“O público vai percebendo esse escancaramento da hipocrisia da política externa americana, que com o Trump só aumenta”, diz Fernando Mascarello, profissional em cinema e relações internacionais e responsável do livro “História do Cinema Mundial”.
Ainda é cedo para declarar uma vez que a hostilidade do governo Trump vai ressoar entre o público internacional de blockbusters americanos. Segundo especialistas, porém, ela pode correr um cenário que vem se desenhando nos últimos anos, em que Hollywood vem perdendo seu alcance —e, consequentemente, influência— ao volta do mundo.
Esse processo se reflete no Oscar, sobretudo depois o marco, em 2020, do sul-coreano “Sevandija”, o primeiro longa não falado em inglês a vencer a estatueta de melhor filme. Na edição deste ano, disputam a principal categoria duas narrativas que se passam muito longe dos Estados Unidos —o brasílico “O Agente Secreto”, que ainda concorre em outras três alas, e o norueguês “Valor Sentimental”.
Entre as animações, a favorita é “Guerreiras do K-pop”, que apesar de ser uma produção americana, surfa no boom do gênero músico coreano e compete com as francesas “Roda” e “A Pequena Amélie”. No Mundo de Ouro, até “Demon Slayer: Fortaleza Infinito”, anime nipónico, gênero já popular que vem ganhando ainda mais tração no Poente, esteve indicado.
A franqueza a filmes internacionais é um revérbero direto da pressão sobre a Ateneu de Artes e Ciências Cinematográficas para variar seus votantes e laureados. “O Oscar não se apresenta uma vez que um prêmio do cinema americano, mas mundial. E estava totalmente fechado para fora”, diz Pedro Butcher, professor da ESPM, a Escola Superior de Propaganda e Marketing, e responsável do livro “Hollywood e o Mercado de Cinema no Brasil: Princípios de uma Supremacia”.
Para o profissional, ainda é difícil medir se o interesse do público americano sobre títulos internacionais aumentou. Isso porque a distribuição dessas produções no país ainda é tímida, uma estratégia antiga para prometer a priorização de títulos americanos. “Criou-se uma cultura lá de que o filme estrangeiro é uma coisa estrangeiro. Quando há um filme de sucesso internacional, ele é distribuído em pequena graduação”, diz Butcher.
Há uma mudança clara, porém, na forma uma vez que outros povos aparecem em filmes americanos. “A maneira uma vez que o sul global era representado, latino-americanos, árabes, chineses, africanos, sempre foi muito depreciativa, desde o ‘Tarzan’ até os faroestes. Agora é menos explícito”, diz Mascarello.
A guinada vem da premência de atrair novos públicos em meio às mudanças na indústria. Em um mundo multipolar, diz o profissional, conforme outros países apostam em suas próprias produções e aprimoram a distribuição em seus territórios, Hollywood passa a disputar com os animes do Japão, com os musicais de Bollywood ou, ainda, com os dramas coreanos. Esses gêneros também crescem nos streamings, ainda que os números exatos não sejam divulgados pelas plataformas.
Hoje, um dos mercados mais cobiçados é o da China, que tem o maior público de cinema do mundo e pode definir o sucesso mundial de um filme —uma vez que fez com a animação pátrio “Ne Zha 2”, que se tornou a maior de todos os tempos, e recentemente com “Zootopia 2”, da Disney. Não por contingência, uma vez que retaliação a Trump pelo tarifaço no ano pretérito, o país asiático ameaçou barrar blockbusters americanos no país.
“Todos os filmes importados precisam passar pela validação do órgão de regulamentação da China. Em alguns casos, podem ter cenas editadas para a exibição pública mercantil”, diz a cineasta Milena de Moura Barba, profissional em documentário pela Ateneu de Cinema de Pequim.
Estúdios americanos vêm alterando a trama de suas produções para adequá-las às regras chinesas e garantirem sua estreia nas salas do país. “Há uma competição muito grande, não só para ocupar mais o público, mas para ocupar os executivos que fazem a decisão por concordar ou não determinado filme americano na prestação de tela”, diz Barba.
“Hoje, tapume de 70% dos títulos [em cartaz na China] são nacionais. A indústria chinesa se desenvolveu para dar conta, inclusive, de suprir a demanda interna de conteúdos que dialogassem com a sua população.”
Se, por um lado, a produção de outros países ainda não consegue suprir a demanda mundial uma vez que os blockbusters americanos, por outro, Hollywood enfrenta o duelo de fabricar novas narrativas atraentes. “Há uma saturação de formatos e o propagação de uma repudiação. De alguma forma, uma segmento do público está mais desconfiada”, afirma Butcher.
Ele se refere aos filmes de super-heróis da Marvel e da DC, representados pela Disney e Warner Bros., que na dezena de 2010 encheram as salas de cinema com legiões de fãs. Ainda são histórias muito populares, mas o fracasso de bilheteria dos últimos lançamentos, uma vez que “Capitão América: Estupendo Mundo Novo” e “Quarteto Fantástico: Primeiros Passos”, indicam um desgaste.
Um tanto semelhante ocorre com narrativas em que americanos salvam a pátria ou lutam contra um mal maior para restaurar a sossego mundial. “Esses filmes não são mais abundantes uma vez que já foram décadas detrás”, diz Butcher.
Naturalmente, a indústria americana, em seu século de cinema, não fez somente filmes alinhados aos ideais do “soft power” americano. Sobretudo a partir do término dos anos 1960, a chamada novidade Hollywood pôs nas telas todo o lado B dessa suposta glória patriótica, em títulos uma vez que “Apocalypse Now”, com a decadência moral da Guerra do Vietnã, ou “Taxi Driver”, e sua estudo brutal dos reflexos do sonho americano entre os marginalizados.
De alguma forma, porém, produções mais afiadas contribuíram para a assombro de um país no qual a liberdade de frase era levada a sério, e o dissenso de artistas não era reprimido.
As coisas mudaram. Desde que assumiu a presidência, em janeiro do ano pretérito, Trump vem tomando uma série de medidas para vituperar o setor cultural, de exposições de arte até talk shows. Na semana passada, a compra da Warner Bros. pela Paramount, estúdio que tem influência direta do presidente, arrepiou o setor, que teme o silenciamento de futuras produções que toquem em temas políticos, de raça, sexualidade ou gênero.
Nesse cenário, é provável que produtoras independentes, uma vez que a A24 —que já vêm ganhando espaço nos últimos anos com títulos uma vez que “Moonlight: Sob a Luz do Luar” e “Tudo em Todo Lugar ao Mesmo Tempo”— podem crescer ainda mais ao abordar temas de forma mais criativa e corajosa. O mesmo vale para filmes internacionais.
“Tanto ‘Ainda Estou Cá’ quanto ‘O Agente Secreto’ são críticas à ditadura e, por tábua, uma sátira ao Trump”, diz Mascarello. Os dois longas brasileiros concorreram, de forma inédita, ao Oscar de melhor filme consecutivamente. O profissional lembra que o sentimento antirrepublicano é poderoso entre os profissionais da indústria cinematográfica, muitos deles votantes do Oscar.
Jane Fonda, uma das atrizes mais prestigiadas do país, foi uma das primeiras celebridades a se manifestar contra a guerra no Irã, durante um protesto em Los Angeles, no último domingo. “Eu acredito que muita gente nesse país aprendeu a prelecção da Guerra do Vietnã, do Iraque, do Afeganistão, e das outras guerras desnecessárias e ilegais.”
