Como jean claude bernardet e geraldo sarno se uniram 16/07/2025

Como Jean-Claude Bernardet e Geraldo Sarno se uniram – 16/07/2025 – Ilustrada

Celebridades Cultura

Há poucos dias em Londres cujas temperaturas passam de 30 ºC —e 7 de agosto de 1965 foi um deles. Clarice e Vladimir Herzog haviam desembarcado na capital britânica poucas semanas antes. Com o exílio em Londres, o jornalista precisou largar a equipe de “Viramundo”, primeiro filme dirigido por um cineasta baiano recém-chegado de Cuba, Geraldo Sarno.

Preocupado com os rumos do Brasil depois do golpe de 1964, Vlado escreve uma epístola a um parelha de amigos de São Paulo, o crítico de cinema Jean-Claude Bernardet —morto no último sábado, aos 88— e a professora de literatura Lucila Bernardet: “Geraldo, a meu ver, é o protótipo do que o cinema brasílico precisa”.

Ao mesmo tempo em que deposita em Sarno o horizonte do cinema brasílico, faz um alerta ao crítico: “O grande problema, a meu ver, é uma certa moleza intelectual que permeia tudo, todas as iniciativas, fazendo com que quase zero seja levado às últimas consequências e com rigor. Acho que dia mais, dia menos pagaremos o preço desse desleixo e nos tornaremos, queiramos ou não, cúmplices dos causadores e mantenedores do status quo”.

Um mês depois, em 10 de setembro de 1965, a primeira exibição pública de “Viramundo”, desculpa rebuliço. No Masp, o filme é apresentado por Lina Bo Bardi e depois trilha uma longa e premiada curso em festivais de cinema mundo afora. Apesar disso, Bernardet estava ressabiado com a obra.

Dez anos depois, publica item no jornal Opinião no dia 26 de dezembro de 1975, tal qual título é: “O nordeste gelado pelo cinema”. No texto, que ocupa toda a página 20, ataca filmes que, segundo ele, cometem atos de desapropriação cultural ao se servirem da cultura popular porquê matéria-prima na filmagem e depois são exibidos exclusivamente a intelectuais e ao público instruído. Bernardet nomeia Geraldo Sarno porquê figura representativa dessa tendência.

A tese de Bernardet baseia-se na desatino do trabalho proposta por Marx, o cinema documentário brasílico escaparia aos grupos sociais retratados nos filmes, que raramente voltariam a eles porquê espectadores. Furioso, Sarno escreve a Bernardet uma epístola de quatro páginas, o chamando de facultativo.

O cineasta desconstrói cada ponto da tese apresentada pelo crítico e, ao final, ainda diz que aceita o preconceito discriminador de Bernardet: “ao que eu saiba, não me consta que os vendedores de folhetos cantem Invenção do Orfeu ou recitem ‘Grande Sertão: Veredas’, nem que já se deixou de projetar filmes de embaixadas nas praças públicas para, por exemplo, projetarem ‘Vidas Secas’, de Nelson/Graciliano”.

Bernardet e Sarno se encontravam ocasionalmente, seja na vivenda de amigos em geral ou em eventos de cinema. Não eram formalmente amigos e nem inimigos, mas possuíam surpresa e saudação mútuos.

O último encontro dos dois foi na Mostra de Cinema de Tiradentes em fevereiro de 2020, quando Sarno apresentou pela primeira vez “Sertânia” (2020). Assim porquê “Viramundo” (1965), o filme causou rebuliço na sátira cinematográfica e foi eleito o melhor filme do ano pela Abraccine (Associação Brasileira de Críticos de Cinema).

Pouca gente sabe, mas Bernardet pediu a Sarno revisões do texto final do livro “Cineastas e Imagens do Povo”. Geraldo escreve a Bernardet na véspera do Natal de 1983: “seu escrito me fez pensar no processo de geração de Viramundo, agudizou pra mim a dialética de geração consciente/inconsciente, me provocou pra saber melhor o filme e a mim mesmo”.

As anotações, feitas a mão por Sarno, são tão ricas quanto o material original de Bernardet. Tanto que o cineasta confessa que, no fundo, se identificava com os personagens da obra: “na cidade grande, desconhecida para quem estava sem ofício, sem verba, morando de obséquio num pequeno apartamento, filha recém-nascida, enfim um viramundo”.

Em outra epístola, no início de 1984, Sarno labareda a atenção para outro ponto do texto: o papel do locutor porquê justificativa dos intelectuais derrotados pelo golpe de 1964. “Essas análises ideológicas são complexas. Minha intenção consciente (de todos os meus filmes até hoje) é reprovar os intelectuais por não compreenderem o Brasil, por não terem o conhecimento suficiente do país que lhes permitisse atuar politicamente com mais eficiência”, reflete. “Não compreendemos o povo, não sabemos escutá-lo e quando o escutamos não o entendemos”. O livro “Cineastas e imagens do povo” foi publicado em 1985 com exclusivamente uma pequena secção das anotações feitas pelo cineasta absorvidas por Bernardet.

A frase de Bernardet, destacada por Claudio Leal no obituário feito cá na Folha, nos ajuda a entender um pouco esse varão que não gostava de olhar para o pretérito: “Sou um faceta que vive no presente, que tem poucas recordações e não faz muita questão delas!” Pelo menos, nas cartas, podemos expressar que Bernardet e Sarno faziam questão um do outro.

Folha

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