Depois de estrelar “Ainda Estou Cá”, filme de Walter Salles que trouxe ao Brasil o seu primeiro Oscar, Selton Mello foi convidado para treinar cobras. Se o aclamado drama que retrata o peso da ditadura sobre uma família de classe média subida projetou o artista mundialmente, o novo capítulo da franquia “Anaconda” reforça o brasiliano uma vez que estratégia para o sucesso —mesmo num processo marcado por desconfianças.
“É a primeira vez que posso manifestar que um filme meu estreia no mesmo dia, no mundo todo”, diz ele à Folha, numa entrevista em que, assim uma vez que Carlos Santiago, seu papel, arrisca respostas em língua portuguesa e em inglês. “Sempre fiz um ‘mix’ entre produções independentes, com grande potencial crítico, e filmes com grande potencial de bilheteria. Nossos trabalhos estão sempre nos preparando para próximos.”
Numa Hollywood carente de produções originais e que todos os anos prenúncio restaurar sagas clássicas, o longa que estreia neste Natal aposta na ironia. Protagonizada por Jack Black e Paul Rudd, a trama da vez coloca dois fãs da obra original —besteirol de 1997 que se tornou popular ao reunir Jennifer Lopez e Ice Cube na luta contra uma ofídio gigante— para regravar o título de maneira independente. Com câmeras baratas, equipe amadora e um domador de serpentes vivido por Mello, a dupla embarca para a Amazônia.
É onde monstros maiores do que os esperados começam a surgir e colocam todos em risco. Nos trailers, inclusive, esse clima de prenúncio despertou mortificação por secção de seguidores do brasiliano. Muitos foram às redes para criticar as poucas cenas, em prévias, com o ator, alegando que Santiago era um estereótipo e a teoria de que o personagem seria um dos primeiros a morrer se tornou quase consenso do dedo.
Essa atmosfera, aliás, já era dissemelhante da empolgação deixada pelo pregão, simultâneo à turnê de “Ainda Estou Cá”, deste novo “Anaconda”: num embarcação, na Austrália —apesar do roteiro, assim uma vez que o do original, se passar no Brasil—, Black, Rudd e Mello dançavam e cantavam juntos.
Questionado sobre essa controvérsia, o diretor Tom Gormican não se esforça para desmentir o tramontana de Santiago, mas afirma que os brasileiros receberão o personagem de braços abertos. Reconhecido também por publicar memes no TikTok e sequaz ao mundo virtual, Mello, por sua vez, defende que a internet está repleta de “Sherlock Holmes” —usuários que atuam uma vez que detetives e chegam a conclusões precipitadas.
De toda forma —zelo com os possíveis “spoilers”—, mesmo que as consequências de alguns ataques fiquem em cândido por qualquer tempo, Santiago é, sim, uma das primeiras vítimas do réptil.
Mas, em seu tempo de tela, ele é motivo de risos pela aparente notícia com animais selvagens e pela sensibilidade em relação à natureza. Sua duração pode não ser das mais longas, mas não mina o ânimo de Mello em relação ao projeto.
Ele exalta a liberdade dada por Gormican durante o processo e agradece a receptividade dos colegas de elenco. Antes e depois das indicações de “Ainda Estou Cá”, relatos descrevem que Mello foi tratado uma vez que realeza.
Segundo Black e Rudd, que elogiam a estranheza do ator, a pasmo é mútua. “Tinham momentos em que ficávamos admirando ele atuar em takes extras. ‘Deixe ele luciluzir’, pensávamos'”, diz Black, que se anima ao saber que o repórter também é brasiliano.
“O filme é uma espécie de homenagem ao Brasil”, afirma Gormican, “da música que usamos até algumas das localizações”. “E foi importante ter alguém uma vez que Selton para que o projeto ficasse ainda mais genuíno.” Entre os núcleos paralelos da trama, que ainda conta com uma aparição do também brasiliano Rui Ricardo Diaz, homens armados correm pela Austrália, fantasiada de Amazônia, na tentativa de prender uma ladra.
De um jeito ou de outro, “Anaconda” foi recebido com aplausos em pré-estreias no Brasil. No outro esquina da América, veículos especializados uma vez que o Deadline e o IndieWire apontam a irreverência de Mello uma vez que o trunfo do longa e previsões de boa bilheteria, se concretizadas, podem provar a eficiência do filme em entreter com duas tendências do momento.
Popularizados por séries de comédia uma vez que “O Estúdio” e “A Franquia”, a primeira são os autodiagnósticos, com projetos que tiram sarro de Hollywood e denunciam a procura alucinada pelo lucro, os investimentos em propagandas e a falta de originalidade. À sombra da verosímil fusão entre a Netflix e a Warner, Gormican, Black e Rudd também defendem, com garras e dentes, a urgência de se presenciar ao filme nos cinemas.
A segunda, e que se depender dos artistas nacionais terá uma vida longa, é a expansão dos brasileiros em premiações de prestígio e gravações de grandes estúdios americanos. Na agenda das estatuetas, Wagner Moura pode repetir o feito de Fernanda Torres no Mundo de Ouro com seu papel em “O Agente Secreto”. Já nos sets, Bruna Marquezine testemunhou os poderes do “Besouro Azul”, Alice Braga enfrentou os “Novos Mutantes” e Maria Fernanda Cândido contracenou com feiticeiros em um derivado da série “Harry Potter”.
Não quer manifestar que os artistas nacionais só achem espaço em adaptações da Marvel e da DC Comics ou em sagas de bichos assassinos. Há dois anos, o renomado diretor Michael Mann escolheu Gabriel Leone uma vez que um dos pilotos do seu “Ferrari”, e hoje o próprio Moura concorre também, ao Critics Choice Awards, por uma série elogiada da Apple TV, “Ladrões de Drogas”.
“Fizemos história com ‘Ainda Estou Cá’ e agora o mundo está de olho na gente”, diz Mello. Seu autodiagnóstico é menos doloroso que o de remakes desnecessários. Finalmente, uma vez que Gormican sugere, o “sabor brasiliano” é sempre bem-vindo.
