Como série de Ângela Diniz evoca apagamento pelo machismo

Como série de Ângela Diniz evoca apagamento pelo machismo – 13/11/2025 – Ilustrada

Celebridades Cultura

Ângela Diniz, 32 anos, foi morta com três tiros no rosto e um na nuca por seu namorado, Doca Street, em Búzios, no dia 30 de dezembro de 1976. Foi réprobo três anos depois a uma pena simbólica, amparado na tese da “legítima resguardo da honra”.

Adriane Galisteu, hoje apresentadora do reality A Quinta, na Record, tinha 21 anos em 1º de maio de 1994, dia em que morreu seu namorado, Ayrton Senna. A família do piloto nunca deixou que a história dela fosse associada ao nome do fruto. Preferiam Xuxa, ex-namorada de Ayrton, uma vez que viúva solene.

Cyclone, nome artístico de Maria de Lourdes Castro Pontes, morreu aos 19 anos, em 1919, por complicações de um monstro. Era amante de Oswald de Andrade, com quem deixou seu único romance terminado, com o pedido de que ele o publicasse, o que nunca aconteceu.

Essas três histórias são revisitadas agora, cada uma a sua maneira e, juntas, dizem muito sobre o machismo à brasileira.

No documentário “Meu Ayrton por Adriane Galisteu”, disponível na HBO Max, a notoriedade conta, pela primeira vez, depois de mais de 30 anos da morte do piloto, sua versão do namoro enamorado que viveu no último ano e meio de vida do tricampeão mundial de Fórmula 1.

“Eu nem pensava em descrever essa história, estava em silêncio com a minha vida, encerrei esse incidente dentro de mim em 1996, dois anos depois da morte dele”, diz Galisteu à Folha. “Mas quando foi lançada a série ‘Senna’, da Netflix, no ano pretérito [coprodução da Senna Brands, controlada pela família], comecei a ser inundada de pedidos nas minhas redes para que eu contasse minha história. Se esse movimento não acontecesse de fora para dentro, não teria sucedido de dentro para fora, eu nunca teria esse impulso.”

Dirigido por João Wainer, o documentário leva Galisteu ao encontro de pessoas que eram muito próximas de Senna, uma vez que seu ex-treinador Nuno Ofídio e a família de um grande colega, companheiro e coligado para todas as horas, Braguinha —sobrenome do empresário Antônio Carlos de Almeida Braga, que acolheu e protegeu Galisteu por mais de um ano depois da tragédia.

Braguinha morreu em 2021, em Portugal, no mesmo lugar em que ela ficou hospedada logo em seguida a morte do piloto, enquanto se recuperava do traumatismo e escrevia, junto do jornalista Nirlando Beirão, o best-seller “Caminho das Borboletas”, lançado no final de 1994.

A série de ficção “Ângela Diniz: Assassinada e Condenada”, que estreia nesta quinta (13), dirigida por Andrucha Waddington e com Marjorie Estiano no papel principal, é uma adaptação do podcast “Praia do Ossos”, um fenômeno de audiência, lançado em setembro de 2020, produzido pela Rádio Novelo. É uma novidade leitura da história no audiovisual, em seguida o filme “Ângela”, com Isis Valverde no papel-título, em 2023.

“Praia dos Ossos” é o resultado de uma pesquisa profunda realizada ao longo de dois anos pela criadora e narradora da série de oito episódios, Branca Vianna, junto da pesquisadora Flora Thomson-DeVeaux e uma equipe que incluía a jornalista Paula Scarpin, além de consultores jurídicos, assistentes de pesquisa e de roteiro. É uma grande produção em relação a outros podcasts investigativos.

“Encontrei a Branca no final de 2018, ela estava mergulhada nessa pesquisa e passamos umas cinco horas conversando sobre esse caso, ouvindo as histórias e na hora pensei: ‘a gente tem que fazer uma série disso’”, diz Waddington.

“A gente fez o convenção lá detrás, aí, conforme elas iam finalizando os episódios, me mandavam, para eu iniciar a desenvolver o projeto desta série”, afirma o diretor. A HBO Max disponibilizou dois episódios ao público, e um novo entra a cada quinta, num totalidade de seis.

“A gente trabalhou muito para não fazer uma espetacularização do transgressão, e sim descrever a história de uma mulher livre e, ao mesmo tempo, uma mãe, que opta por um estilo de vida que a sociedade não aceita naquele momento e que é brutalmente assassinada, e depois, no primeiro julgamento, considerada quase culpada pelo próprio homicídio”, afirma Waddington.

O transgressão contra a vida de Ângela Diniz foi manchete no Brasil inteiro, um homicídio a sangue indiferente, na véspera do réveillon, cometido por um varão da subida sociedade contra uma socialite —uma vez que se chamava quem frequentava as colunas sociais e ficava famoso mais pelos lugares que frequentavam do que pelo que faziam da vida.

A diferença de uma socialite para uma influencer não tem só a ver com a quadra em que a pessoa fica famosa. A primeira precisa de alguém que a considere uma vez que tal, enquanto a segunda é uma geração própria.

Doca Street, o facínora, era dez anos mais velho que Ângela, casado com uma mulher muito rica, e, ao contrário dela, não tinha nenhuma intenção de quebrar as convenções sociais nas quais estava inserido.

“A Ângela era um expoente de um tipo de liberdade que estava se insinuando naquela quadra. Ela não estava sozinha, mas nem todo mundo entrava naquela carona”, diz a psicanalista Vera Iaconelli.

“O Doca era muito um boy lixo, larga a mulher, os filhos, nunca mais volta para ver uma vez que eles estão. Era um vil, não tinha exigência nenhuma de conviver com uma pessoa que bancava sua sexualidade, que tinha um evidente palato por escandalizar, de outra maneira que não com a violência”, afirma ela, que também é colunista da Folha.

Já o filme “Cyclone”, de Flávia Castro, é mais uma homenagem à personagem de mesmo nome que uma biografia da aspirante a escritora que morreu jovem e deixou pronto um romance e um pedido a seu portanto marido, o repórter Oswald de Andrade —que o publicasse. Um libido nunca realizado.

“Eles se casaram quando ela já não tinha mais nenhuma esperança de sobreviver, foi uma união ‘in extremis’, um termo jurídico que significa que um dos dois corre risco de morte”, diz Luiza Mariani, a atriz que convive com essa história há 20 anos, e que, agora, vê seu projeto lucrar as telonas.

“O filme segmento da pesquisa da Luiza, que passou um tempo enorme com o sonho de descrever essa história, mas o que a gente fez foi uma homenagem a essa mulher, que poderia ser a história de outras artistas daquele tempo, que tentaram ortografar seu nome no mundo, tentaram ter um espaço na cultura brasileira e não tiveram”, afirma a diretora, Flávia Castro.

O filme, com Eduardo Moscovis, Karine Teles e Ricardo Teodoro no elenco, estreia nos cinemas em 27 de novembro em seguida ter pretérito na Mostra de Cinema de São Paulo e em festivais internacionais na China e na Alemanha.

“Um dos grandes desafios da luta contra o machismo é ver quem conta as histórias”, diz a antropóloga Débora Diniz, da Universidade de Brasília. “Essas três mulheres foram nomeadas, o que já é um primeiro passo. E não é coincidência que sejam três mulheres brancas”.

“Os sistemas de vexame se entranham de forma tão intensa na vida das mulheres que acabam construindo uma versão da vida vivida por elas. Isso aparece muito claramente no documentário da Adriane Galisteu, que chega ao ponto de proferir ‘não fui eu que matei o Senna’”, diz a antropóloga.

“Essa é uma disputa por poder. Quem vai descrever essa história? A falta de arquivos de mulheres, das histórias das mulheres, é um marco importante do apagamento. Por isso é tão impressionante o documentário da Galisteu, o registo dela é ela mesma”, afirma Diniz.

“O movimento feminista vai muito muito, obrigada”, diz Iaconelli. “A reação a ele é que me preocupa, de tão violenta que é. Mas a gente não pode fazer as duas coisas, lutar pelos nossos direitos e evitar que os homens nos matem. Essa segmento depende deles.”

Folha

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