Como Wagner Moura se tornou rosto do Brasil em Hollywood

Como Wagner Moura se tornou rosto do Brasil em Hollywood – 14/03/2026 – Ilustrada

Celebridades Cultura

Numa das cenas de “O Agente Secreto”, o personagem de Wagner Moura se abstém de manifestar o que realmente pensa ao solicitador corrupto que o ronda com promessas de proteção e amizade. Convidado por ele a saber um judeu teuto, perseguido na Segunda Guerra, o protagonista fica praticamente silente, desconfortável, observando a assimetria de poder que separa os dois.

Uma atitude impensável para o Wagner Moura da vida real. Primeiro brasílio indicado ao Oscar de melhor ator, o baiano virou figura notória da cena artística pátrio por uma miríade de papéis emblemáticos, simples, mas também por manifestar o que pensa, se posicionando sem pavor de escorchar sua imagem, com frequência mirando a direita.

Tamanha espontaneidade, incomum para uma classe artística treinada por estúdios e agentes que orientam seus passos e suas falas, caiu no paladar dos gringos, que o alçaram a um dos três favoritos na disputa deste domingo, primeiro de Leonardo DiCaprio e Ethan Hawke, e em pé de paridade com Timothée Chalamet e Michael B. Jordan.

Numa Hollywood feita de aparências, o molho do baiano —mistura de carisma, autenticidade e talento— o ajudou a se firmar porquê o grande rosto brasílio do cinema mundial. Um papel que Moura, aos 49 anos, já reivindicava, mas que ganha lastro com a aderência de prelo, sátira e público estrangeiros.

Primeiro foram os elogios no Festival de Cannes, na França, no ano pretérito, quando ele trouxe o prêmio inédito de atuação masculina ao Brasil. Mais recentemente, foram entrevistas a jornais porquê o The New York Times, com críticas ferozes a Jair Bolsonaro e Donald Trump, e a talk shows porquê o de Jimmy Kimmel, em que os comentários ganharam ares de pirraça.

“Wagner é o carisma em pessoa, baiano na origem, viril ‘pacas’, mas malemolente, molinho, proprietário de feromônios extraordinários”, diz Fernanda Torres, que dividiu a cena com ele em “Saneamento Indispensável, o Filme”, de 2007. Moura trilha caminho parecido com o dela, que no ano pretérito esteve indicada ao Oscar de atriz, por “Ainda Estou Cá”.

“Ele é uma mistura curiosa de pavio pequeno com muito paixão para dar, um vira-lata puro, um galã caramelo, um Marlon Vagaroso do Pelourinho. O Wagner é muito sério e também muito humorado, não foge de combate, mas não se empenha em entrar nelas”, continua a atriz, que lembra os anos de “vira-latice” nos palcos da Bahia, ao lado de Lázaro Ramos e Vladimir Brichta, porquê essenciais na formação do companheiro.

Soteropolitano, Moura deu início à curso no teatro diletante, enquanto cursava jornalismo na Universidade Federalista da Bahia, na viradela dos anos 1980 para os 1990. Formado, atuou brevemente porquê assessor de prelo na espaço cultural, até invocar a atenção com “A Máquina”.

A montagem de João Falcão, em que contracenou com Ramos, Brichta e Gustavo Falcão, expôs a renovação da cena teatral baiana que estava em curso. Não à toa, seus nomes chegaram ao eixo Rio-São Paulo, que concentra a produção de TV e cinema.

“Eu dei uma sorte grande na minha vida e na minha curso, não só por ser contemporâneo de Wagner, mas por ter trabalhado com ele e com Lazinho”, diz Brichta.

O ano de 2026 é de sarau também por marcar três décadas da primeira parceria de Brichta e Moura, na peça “A Moradia de Eros”, dirigida por José Possi Neto. “Havia um libido de superação de si mesmo e do que o outro estava fazendo. Havia um fomento de fazer melhor”, diz Brichta, sobre o veste de que eles revezavam os mesmos papéis.

“Daí se formou uma grande amizade, hoje uma irmandade. Fazemos trabalhos pensando que um de nós [Brichta, Moura e Ramos] vai ser o primeiro público. Um faz do outro um ator melhor.”

O apego às raízes, três décadas depois, se faz presente também na morada onde Wagner Moura vive, em Los Angeles, para onde se mudou com a mulher, Sandra Franzino, e os três filhos há quase dez anos, quando a curso internacional começou a deslanchar. É “uma morada brasileira com certeza”, diz Torres.

Porquê muitas coisas na vida de Moura, a mudança teve motivação artística e política. Mais ou menos na mesma era, ele preparava sua estreia na direção, em “Marighella”, biografia do guerrilheiro comunista morto pela ditadura.

Por razão do clima de polarização que sequestrava o país, ele e outros nomes envolvidos no projeto passaram a receber ameaças de grupos de extrema direita. Seguranças foram contratados e outros obstáculos se impuseram na distribuição —Moura disse a levante jornal, quando enfim lançou o trabalho, há cinco anos, ter sofrido repreensão da Sucursal Vernáculo do Cinema, a Ancine, sob Jair Bolsonaro.

Segundo Humberto Carrão, que integrou o elenco de “Marighella” ao lado de Seu Jorge e Bruno Gagliasso, Moura, na direção, é concentrado e curioso, observa tudo com lucidez e esmero e se dedica profundamente à função.

“Ele é dessas pessoas que transformam o lugar, e eu acho que isso tem a ver com uma robustez vigorosa e com uma simplicidade muito originário”, diz Carrão, sobre o companheiro, que em meio aos silêncios do set encontra momentos de “safadeza enxurrada de perdão”. Juntos, eles apareceram em rodas de samba num vídeo no Instagram que ganhou as redes há dois anos.

Flagrado cantando e tocando pandeiro, Moura era a estrela de um registro vasqueiro, quase voyeurista. Um olhar para a intimidade de um ator que não tem perfis nas redes sociais e que faz questão de separar o público do privado.

É porquê se vivesse duas vidas, porquê as de Armando e Marcelo —nome real e identidade secreta, respectivamente, do protagonista de “O Agente Secreto”. E não é exatamente justo manifestar que o personagem é isento. A troca de nomes é justamente motivada pela fúria de Armando, que combate com um empresário poderoso e por isso passa a ser Marcelo, um fugitivo jurado de morte.

Na vida real, o lado público de Moura encontrou tempo, no término do ano, para se posicionar contra os rumos da regulamentação do streaming, projeto de lei que se vagar no Congresso e que pretende impor regras e tributos a plataformas porquê a Netflix, coprodutora do filme de Kleber Mendonça Fruto.

“São projetos muito ruins, não só para o setor audiovisual brasílio da cultura, porquê, de um modo universal, ruim para o Brasil, para a autoestima, para a autonomia do país”, disse ele ao Ministério da Cultura, no vídeo que gravou.

Moura tampouco se preocupou com as repercussões de sua fala ao manifestar a levante repórter, no término do ano pretérito, que a democracia brasileira está tirando vaga com a americana —em referência à pena de Bolsonaro pela trama golpista— e que os deputados bolsonaristas que pediam a Donald Trump que deportasse o baiano tinham pensamento de “vira-lata, muito colonizado”.

Na ocasião, ele lançava a peça “Um Julgamento”, seu retorno aos palcos depois de 16 anos, sob a direção de Christiane Jatahy. Foi um malabarismo em sua agenda em meio aos primeiros passos na corrida pelo Oscar. Na releitura de Henrik Ibsen, que Moura ajudou a redigir, ele decidiu misturar opiniões suas às do protagonista de “Um Inimigo do Povo”, tecendo comentários sobre fake news e a subida da extrema direita no mundo.

Durante o processo, Jatahy conta que Moura deixou interferências externas para fora da coxia —mesmo que o mundo já começasse a assediar o ator com expectativas para o Oscar. Ela conta que guiar Moura foi fácil justamente porque ele se dedica integralmente ao trabalho da vez. “Cada dia de experiência era porquê um dia de estreia, eu nunca vi isso. Isso puxa o processo e puxa todo mundo para uma dinâmica possante, criativa”, diz ela.

Quem faz coro é Karim Aïnouz, que o dirigiu no drama gay “Praia do Porvir”. Para o cearense, Moura é um ator “absolutamente presente”, que “domina os personagens emocionalmente e fisicamente” e que não os julga. “Tem uma magia na presença dele, eu acho que é isso que o torna um ator tão gigante. Ele traz para a tela esse coração pulsante”, diz, sobre o que seriam marcas de sua maturidade enquanto artista.

O retorno a Salvador para apresentar “Um Julgamento” foi uma oportunidade para tomar um banho de Brasil em meio a trabalhos no exterior. Desde que fez sua estreia lá fora com o blockbuster “Elysium”, de 2013, Moura acumulou papéis sob a batuta de diretores de peso. Entre eles, Stephen Daldry, no quase brasílio “Trash: A Esperança Vem do Lixo”; Olivier Assayas, em “Wasp Network: Rede de Espiões”; os irmãos Anthony Russo e Joe Russo, em “Agente Oculto”, e Alex Garland, no recente “Guerra Social”.

Para os estrangeiros, porém, o primeiro papel que vem à mente é —ou ao menos era, agora que “O Agente Secreto” reorganizou a curso de Moura— Pablo Escobar, na série “Narcos”, pela qual foi indicado ao Mundo de Ouro, muito antes de vencer o prêmio neste ano, pelo filme pátrio. Para a trama, o baiano passou meses morando na Colômbia e ganhou peso, num processo de preparação intenso, mas não estranho a José Padilha.

“O Wagner é o ator com quem trabalhei que mais investe na preparação”, diz o diretor de alguns episódios, que já tinha trabalhado com Moura em “Tropa de Escol”. “Em ‘Narcos’ eu o escalei dizendo que ele falava espanhol, quando não falava. Ele foi para a Colômbia e morou lá por três meses.”

Vencedor do Urso de Ouro em Berlim, “Tropa de Escol” também ajudou a posicionar Moura no rol de talentos do cinema mundial.

Capitão Promanação foi um fenômeno pop, que ainda hoje gera discussões sobre sua truculência. Mas antes dele vieram Matheus, de “Abril Despedaçado”; Zico, de “Carandiru”; Naldinho, de “Cidade Baixa”; Boca, de “Ó Paí, Ó”, e Olavo, da romance “Paraíso Tropical”.

O opositor é responsável por uma das cenas mais memoráveis da curso de Moura, que voltou a viralizar em anos recentes. “Você é a cadela mais burra desse calçadão”, diz ele a Bebel, vivida por Camila Pitanga, numa fala ressignificada por fãs dos dias atuais, que se derretem pela pose de galã que Moura foi lucrar depois de mais velho.

Com Oscar ou sem Oscar, o horizonte de Moura deve seguir dividido entre a pátria-mãe e Hollywood, agora com papéis de maior destaque. “É um prêmio importante e dá muita visibilidade. Uma consequência direta da indicação é que o Wagner terá mais valor porquê ator, e os produtores vão invocar para seus filmes porque ter ele no filme faz o filme suceder”, diz Padilha.

Independentemente do Oscar, Moura já está envolvido em meia dúzia de projetos estrangeiros, incluindo “Last Night at the Lobster”, seu segundo longa porquê diretor. Em desenvolvimento, o filme vai disputar a atenção com os vários roteiros que, segundo ele, se avolumam desde que o mundo provou o tempero baiano de “O Agente Secreto”.

Folha

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