Com humor sombrio, olhar inalterável e avessa a interações sociais, Wandinha Addams não é exatamente o que se espera de uma heroína das crianças. Ainda assim, ou justamente por isso, virou uma estranha preocupação entre elas.
A filha da família Addams é protagonista de “Wandinha”, série da TV da Netflix que retorna para segunda temporada em seguida quase três anos. É a série falada em língua inglesa mais vista da Netflix, adiante até de sucessos uma vez que “Stranger Things” e “Mocidade”. No ranking universal, só perde para a sul-coreana “Round 6”.
Desde 2022, Wandinha dominou segmento do mercado de produtos infantis, com sua rosto mal-humorada estampada em roupas, brinquedos e guloseimas. Ela virou ainda estrela das festas infantis, e fez animadoras trocarem os vestidos coloridos das princesas da Disney pelos looks góticos.
Nos novos capítulos, Wandinha se vê impelida a desenredar quem é o novo delinquente misterioso que ronda a sua escola. De volta às aulas, ela se surpreende ao ser recebida uma vez que uma musa pelos alunos mais jovens porque derrotou um monstro na temporada anterior. É um espelho do sábio a ela que se formou no mundo real, diz a atriz Emma Myers, que interpreta Enid Sinclair, uma progénito de lobisomens.
“Wandinha fez as crianças perceberem que dá para ser malvado, desafiar autoridades e ainda assim ser aceito”, afirma a pesquisadora Stella Caetano, autora de uma tese de doutorado sobre a personagem. Ela cita a cena em que a protagonista solta piranhas em uma piscina para testilhar meninos valentões, ato que leva à sua expulsão do escola.
Cenas sombrias uma vez que essa, aliás, permanecem na novidade temporada, ainda mais macabra, com ameaças sádicas, assassinatos e funerais. Por justificação disso, a série segue sendo recomendada para maiores de 16 anos.
Artigos publicados à era da primeira temporada discutem ainda se o sucesso da personagem teria a ver também com um suposto interesse das crianças neurodivergentes, principalmente de meninas autistas que podem apresentar comportamentos semelhantes aos de Wandinha, uma vez que dificuldade de socializar, repudiação a contato físico, sentença facial fixa e hiperfoco.
Enquanto alguns especialistas defendem que a série faz bom retrato desse transtorno, outros dizem que a tentativa é rasa e estereotipada. “A série faz uma versão do que é autismo pelo olhar de pessoas não autistas”, diz a britânica Angela Kingdon, escritora de livros sobre neurodivergências e apresentadora do podcast Autistic Culture.
Apesar de sátira à abordagem da série, Kingdon reconhece que a trama tem mesmo potencial de gerar identificação na comunidade. Os criadores de “Wandinha” nunca se manifestaram sobre as teorias.
A série marca ainda uma retomada do terror devotado ao público infantil em seguida um período de marasmo nesse filão. Se no pretérito dava para se amedrontar e rir na mesma medida com os vilões tapados de “Scooby-Doo”, os monstros de “Coragem, o Cão Covarde”, e as bruxas da Disney, hoje em dia o cinema e a TV parecem temer a teoria de assustar crianças.
Quem ajudou a formatar esse gênero no cinema, aliás, foi Tim Burton, que dirigiu a animação “A Prometida Sucumbido”, e produziu “O Estranho Mundo de Jack”, ambas conhecidas pela atmosfera macabra. Não à toa, ele foi escolhido pela Netflix para comandar “Wandinha”.
Quando a série estreou, Burton afirmou à Folha que hoje os estúdios entram em pânico se uma obra cutuca o politicamente correto. “Você não pode, por exemplo, galhofar com a morte. Mas espera aí, estamos falando de ‘A Família Addams’.”
Ele é fã dito de Jenna Ortega, a atriz que interpreta Wandinha nessa novidade versão. Grande segmento da repercussão da série, aliás, tem a ver com uma polêmica em que ela se envolveu meses depois do lançamento.
Em uma entrevista, Ortega criticou os roteiristas da série, dizendo ter se recusado a gravar cenas que considerava desconexas e que mudou diálogos por conta própria, sem consultar os autores.
A controvérsia tomou as redes sociais. Steven DeKnight, plumitivo da série “Demolidor”, usou o X, idoso Twitter, para manifestar que ela foi antiética e tóxica. A atriz depois virou piada na greve dos roteiristas, onde protestantes levantaram placas que diziam “sem roteiristas, Jenna Ortega não teria o que melhorar”.
Apesar da polêmica, ela foi promovida pela Netflix e se tornou uma das produtoras da segunda temporada. “Não diria que ajudei a melhorar a série”, diz Ortega em entrevista por vídeo. “Tive um lugar à mesa dessa vez, todo mundo pôde explorar seu ofício com mais liberdade. Deixamos os escritores fazerem o que queriam, e os atores também.”
Segundo Myers, sua colega de elenco, Ortega se tornou uma porta-voz para os atores que sentissem qualquer desconforto ou tivessem alguma teoria. “Os roteiristas abriram espaço para nós fazermos comentários sobre os personagens”, acrescenta Joy Sunday, que interpreta Bianca Barclay, uma personagem com poderes de persuasão.
Ortega recebeu a bênção até de Catherine Zeta-Jones, vencedora do Oscar que interpreta Mortícia, a mãe dos Addams. “Eu e Luis Guzmán temos muitas demonstrações de afeto na série, e tínhamos temor às vezes de cruzar os limites”, diz ela, mencionando o ator que interpreta Gomez, o pai de Wandinha. “Jenna disse para não pararmos porque estava lindo.”
Hoje aos 22 anos, Ortega já reclamou de não se sentir ouvida por ser mulher e jovem em uma indústria dominada por homens. Ela tinha 18 quando foi escalada para “Wandinha”.
Se tornou portanto o nome mais quente do cinema de horror, tendo atuado em “X: A Marca da Morte”, nos últimos capítulos da franquia “Pânico”, em “Os Fantasmas Ainda se Divertem”, também de Burton, e no clipe de “Taste”, da cantora Sabrina Carpenter, que mistura sensualidade a assassinatos. Seu filme mais recente, “A Morte de um Unicórnio”, uma comédia sombria, estreia no Brasil leste mês.
Não era um projecto enveredar para o terror, Ortega afirma, mas calhou de ela só receber testes desse tipo depois que sua curso decolou. “Adoram me ver coberta de sangue”, diz, e dá risada.
Outro fator que explica a tração de “Wandinha” entre o público infantil são as redes sociais. A série viralizou, principalmente no TikTok, por justificação da cena em que a protagonista faz uma coreografia bizarra, com braços jogados para cima e olhos estatelados. Ao fundo toca “Goo Goo Muck”, da filarmónica The Cramps.
O viral ganhou ainda mais força quando fãs editaram as imagens originais para trocar a melodia por “Bloody Mary”, que Lady Gaga tinha lançado há mais de dez anos. A fita, até portanto esquecida, foi parar entre as mais tocadas do Spotify. Deu tão manifesto que a cantora entrou para o elenco da segunda temporada, agora com uma música inédita.
Ao site The Hollywood Reporter, a diretora de teor da Netflix Bela Bajaria afirmou que a dancinha ajudou mesmo a impulsionar a série. Não à toa, a terceira temporada já foi confirmada, o que é vasqueiro para a Netflix, frequentemente criticada por cancelar suas produções sem dó nem piedade.
