Compositores negros de música clássica são destaque em mg

Compositores negros de música clássica são destaque em MG – 20/09/2025 – Ilustrada

Celebridades Cultura

Em uma iniciativa incomum em festivais ligados à música clássica, a edição deste ano do Artes Vertentes, em Tiradentes, leva os compositores negros para o núcleo da sua programação.

O evento na cidade mineira reúne diferentes linguagens, uma vez que literatura, teatro, artes visuais e cinema. Mas a música, principalmente de inclinação mais clássica, ocupa um espaço de maior visibilidade, muito em virtude do roupa de que o curador, o mineiro Luiz Gustavo Roble, tem uma curso de mais de três décadas uma vez que pianista.

Com uma proposta curatorial intitulada “Entre as Margens do Atlântico”, esta edição do Artes Vertentes tem boa secção da programação guiada pelas reflexões em torno da diáspora africana. O festival vai até nascente domingo (21).

Entre os autores negros brasileiros que tiveram suas obras interpretadas, está o carioca Henrique Alves de Mesquita, um dos mais importantes nomes da música sacra no Segundo Reinado.

Dos compositores de outros países, estão nomes uma vez que Joseph Bologne, o Chevalier de Saint-George, que nasceu em Guadalupe, no Caribe, e atuou na segunda metade do século 18; e a americana Florence Price, com uma obra produzida na primeira metade do século 20.

Alves de Mesquita e companhia não são os únicos com músicas em Tiradentes —há homenagens, por exemplo, ao gaulês Maurice Ravel, nascido há 150 anos. Mas esses autores negros estão entre os protagonistas da programação, o que fica evidente com Price, com suas criações distribuídas em quatro programas do festival.

O curador conta que três eixos foram determinantes para montar esse repertório. “Inicialmente, buscamos fazer uma travessia transatlântica no sentido usado por Pierre Verger, que fala em fluxo e refluxo. A gente trouxe elementos de timbre e ritmo que têm origem no continente africano e se misturam nas Américas. E vários desses elementos influenciaram depois a música europeia.”

Aliás, diz Roble, existiu a preocupação de realçar “compositores afrodescendentes que não se restringem aos nomes da atualidade”.

O mineiro Sérgio Rodrigo, que explora os intercâmbios da música de concerto contemporânea com o repertório popular, está na programação, assim uma vez que o inglês Samuel Coleridge-Taylor, que se destacou na viradela do século 19 para o 20 ao levar aspectos da cultura da África Ocidental para a música clássica.

“O terceiro eixo foi buscar um repertório que desconstruísse essas fronteiras entre música erudita e popular. Veja, por exemplo, as canções folclóricas da Florence Price, que utilizam algumas técnicas acadêmicas, mas o universo popular se imiscui.”

De modo universal, esses compositores foram menos valorizados do que mereciam quando estavam em atividade. Price, uma mulher negra, menos ainda.

“Ela chegou a ter uma sinfonia tocada pela Orquestra Sinfônica de Chicago, mas não se pode expressar que tenha sido reconhecida em vida. Na verdade, seu resgate é um fenômeno deste terceiro milênio”, diz Irineu Franco Perpetuo, crítico de música e membro do recomendação curatorial do Artes Vertentes.

A redescoberta de Price começou efetivamente em 2009. Na ocasião, 56 anos depois da sua morte, foi encontrado um baú com dezenas de partituras em sua morada de verão em Illinois, que estava abandonada.

“Price foi apagada da história e está sendo recuperada agora graças às pesquisas em torno de compositores negros. É evidente que não foi a única a ser prejudicada pelo racismo. Embora fosse um músico respeitado, Chevalier de Saint-George foi impedido de assumir um missão importante na Ópera de Paris porque era preto”, diz Uiler Moreira, violinista baiano que estuda na Universidade de Música, Teatro e Mídia de Hannover, na Alemanha.

Segundo Perpetuo, as atenções em torno de Saint-George “talvez representem o mais importante resgate de um compositor do século 18 realizado recentemente”.

Além de Saint-George e Price, Uiler Moreira interpretou peças de outros compositores negros, uma vez que o norte-americano George Walker, que morreu há sete anos.

“Walker venceu o Pulitzer de Música em 1996, foi o primeiro preto a invadir esse prêmio. Mas alguns dos meus professores na Alemanha nunca ouviram falar dele”, afirma o violinista que passou pelo projeto Neojiba (Núcleos Estaduais de Orquestras Juvenis e Infantis da Bahia) antes de iniciar o trajectória universitário.

Na noite de quarta (17), o violinista de 26 anos foi muito aplaudido depois uma apresentação solo de “Louisiana Blues Strut”, música do americano Coleridge-Taylor Perkinson, que recebeu nascente nome em homenagem a outro compositor preto, o inglês Samuel Coleridge-Taylor.

Neste mesmo programa, na capela São João Evangelista, o pianista paulista Cristian Budu tocou “Quadrilha Heroica”, de Alves de Mesquita, gravada por ele no álbum “Pianolatria”, do ano pretérito.

“Alves de Mesquita é um dos predecessores mais importantes da linguagem do pranto”, diz Budu. “É um dos primeiros por cá que vão ao piano, um instrumento europeu, com outros ouvidos, incorporando origens, de roupa, brasileiras e africanas.”

De harmonia com o pianista, esta edição do Artes Vertentes “nos dá esperança de que cada vez mais instituições se abram para o valor infinito da cultura negra”.

Segundo o curador Luiz Gustavo Roble, não foi simples fazer essa seleção de repertório. “Não queríamos partir de um olhar eurocêntrico, que predomina na música de concerto. E também buscamos obras de elevado nível, que não estivessem ali só para preencher esse libido curatorial. São obras que se sustentam em qualquer sala de concerto.”

Aliás, diz ele, há desatenção às partituras depois da morte do compositor. O curador cita as edições das sonatas e quartetos de Saint-George, com erros que prejudicaram os ensaios.

Diante da formosura dessas composições e também dos entraves para interpretá-las, Roble já se perguntou algumas vezes. “Quantos repertórios ainda estão apagados e precisam ser trazidos de volta?”

O jornalista Naief Haddad viajou a invitação do festival Artes Vertentes

Folha

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