Construção de estradas impacta mangue amazônico

Construção de estradas impacta mangue amazônico

Brasil

No nordeste do Pará, a rodovia PA-458 divide a paisagem. De um lado, árvores que chegam a 30 metros de profundidade. Do outro, as mesmas espécies não passam de 3 metros. As dimensões podem enganar, mas a rota não corta a floresta amazônica e, sim, uma região de mangue, mais especificamente um trecho da maior extensão contínua de manguezal do mundo.

Basta olhar para o pé das árvores para notar as grandes raízes fixadoras, que se parecem com patas de aranhas que superam a profundidade de uma pessoa, e as muitas raízes aéreas, que emergem da limo porquê milhares de galhos cravados no solo.


Bragança (PA), 12/06/2025 – Área de manguezal na Reserva Extrativista Marinha de Caeté-Taperaçu monitorada pelo projeto Mangues da Amazônia. Foto: Fernando Frazão/Agência Brasil
Bragança (PA), 12/06/2025 – Área de manguezal na Reserva Extrativista Marinha de Caeté-Taperaçu monitorada pelo projeto Mangues da Amazônia. Foto: Fernando Frazão/Agência Brasil

Espaço de manguezal na Suplente Extrativista Marinha de Caeté-Taperaçu monitorada pelo projeto Mangues da Amazônia. Fernando Frazão/Escritório Brasil

Coordenador-geral do projeto Mangues da Amazônia, o professor titular da Universidade Federalista do Pará (UFPA) Marcus Fernandes afirma que, nesses ambientes, as estradas são as maiores vilãs. Além de 90% das vias não pavimentadas estarem a 3 km das áreas de mangue, rodovias porquê a PA-458 impedem que a chuva escorra por todo o ecossistema, o que seca a limo, precípuo para sua vegetação. Com isso, as árvores têm dificuldades para crescer e se desenvolver, o que pode levá-las a morte.

A obra da rodovia PA-458, que liga o município de Bragança à praia de Ajuruteua, começou na dez de 1970 no governo de Fernando Guilhon, mas foi concluída unicamente em 1991, na gestão do portanto governador Jader Barbalho, que atualmente é senador pelo MDB. O objetivo era escoar a produção de pesca e melhorar a acessibilidade das comunidades locais.

Segundo Fernandes, a rodovia é considerada um dos maiores impactos na região, na porção amazônica desse ecossistema, atingindo 200 hectares de mangue, o equivalente sobre 180 campos de futebol. 

Com dimensões superlativas, o manguezal amazônico é também de difícil entrada. A brecha de estradas, principalmente as não pavimentadas, é o que possibilita a ingresso nesse ecossistema. Se, por um lado, ajuda as populações locais, por outro, facilita a exploração dos mangues também de forma prejudicial. “Esse é o grande progressão soturno em direção ao manguezal. Eu tiro caranguejo e ninguém me vê, corto madeira e ninguém vê”, diz o professor.  

Além de facilitar o entrada, as estradas causam, por si só, impacto, porquê o observado ao longo da PA-458. “Esse barramento de chuva fez com que esse mangue morresse”, diz o biólogo Paulo César Virgulino, um dos coordenadores do projeto Mangues da Amazônia. “Cá, não era vegetado, tinham troncos da floresta antiga que morreu”.


Bragança (PA), 12/06/2025 – O biólogo Paulo César Virgulino, coordenador de planejamento de manguezais do projeto Mangues da Amazônia, em área de reflorestamento. Foto: Fernando Frazão/Agência Brasil
Bragança (PA), 12/06/2025 – O biólogo Paulo César Virgulino, coordenador de planejamento de manguezais do projeto Mangues da Amazônia, em área de reflorestamento. Foto: Fernando Frazão/Agência Brasil

O biólogo Paulo César Virgulino, coordenador de planejamento de manguezais do projeto Mangues da Amazônia, em superfície de reflorestamento. Fernando Frazão/Escritório Brasil

Virgulino se refere a um trecho, ao longo da rodovia PA-458, de 14 hectares ─ o equivalente a quase 13 campos de futebol. Nesse sítio, onde antes havia tocos de árvores, foi o trabalho de projetos de recuperação do mangue, que possibilitou a volta da vegetação ao sítio.

Desde 2005, o professor Marcus Fernandes trabalha na região. Na estação, não havia plantios específicos para o mangue e foi preciso importar técnicas da Ásia. A teoria é que um solo plantado é também capaz de reter mais a chuva que chega, ainda que em volume menor que o de antes. A redução do entrada à chuva faz com que as vegetalidade não se desenvolvam plenamente e formem a denominada floresta anã, mais baixa que a vizinha, do outro lado da estrada, com maior entrada hídrico. 

“A gente tem uma floresta que ainda não é a ideal, mas já é muito melhor do que não ter. Aquele envolvente totalmente nu, aquele solo nu que parecia um sertão no verão, já não tem mais”, diz Virgulino.

Mangues e a chuva

O caso da rodovia PA-458 é um exemplo da fragilidade do ecossistema e dos impactos que a privação do entrada à chuva pode gerar em manguezais. O projeto Mangues da Amazônia trabalha com o mapeamento dos mangues, com o reflorestamento e também com a sensibilização das populações que vivem próximas aos manguezais e que deles tiram o sustento de suas famílias. O projeto atua nos municípios paraenses de Tracuateua, Bragança, Augusto Corrêa e Viseu, que abrigam, respectivamente, as reservas extrativistas (resex) Resex Marinha de Tracuateua, Resex Marinha de Caeté-Taperaçu, Resex Araí-Peroba, e Resex Gurupi-Piriá.

Para restabelecer o mangue, são usadas diferentes técnicas de plantio. Uma delas é o cultivo de mudas em viveiros, que, posteriormente, são plantadas em áreas degradadas. O projeto conta com dois viveiros, cada um com capacidade para 20 milénio mudas. Na Vila do Tamatateua, Moisés Araújo, de 44 anos, atua porquê agente social do projeto, mobilizando a comunidade e cuidando do viveiro.

“A gente morava em torno do mangue e não tinha consciência da prestígio dele. Muitas vezes, a gente que mora próximo do mangue acha que o mangue é só para tirar o caranguejo, tirar o sustento, tirar o sururu, e ninguém deve fazer zero. A partir do projeto, a gente passou a ter essa consciência de que, além de tirar o sustento, a gente tem que preservar, a gente tem que que reflorestar”, conta.


Bragança (PA), 12/06/2025 – O agente social do projeto Mangues da Amazônia Moisés Araújo, na Vila do Tamatateua, na área da Reserva Extrativista Marinha de Caeté-Taperaçu. Foto: Fernando Frazão/Agência Brasil
Bragança (PA), 12/06/2025 – O agente social do projeto Mangues da Amazônia Moisés Araújo, na Vila do Tamatateua, na área da Reserva Extrativista Marinha de Caeté-Taperaçu. Foto: Fernando Frazão/Agência Brasil

O agente social do projeto Mangues da Amazônia Moisés Araújo, na Vila do Tamatateua, na superfície da Suplente Extrativista Marinha de Caeté-Taperaçu. Fernando Frazão/Escritório Brasil

Segundo Araújo, o viveiro é um projeto para o horizonte da sociedade. “A partir do momento que a gente usa o mangue de forma não sustentável, a gente está esquecendo que tem outras gerações que podem precisar. Logo, o ideal é que a gente tire de forma sustentável, tendo consciência de que outras pessoas precisam”.

Atuando há 20 anos na recuperação do mangue, ele já percebe os resultados. “Mais adentro, tinha um grande espaço degradado que, hoje, a gente vê todo pleno. A gente anda daqui para lá e vê a presença de caranguejo e de muitos outros animais”, diz.

Os viveiros recebem também a visitante de escolas que ajudam no plantio de mudas e usam o espaço para instrução ambiental. Clarice dos Santos, de 17 anos, e Taynara da Silva, de 15 anos, participaram pela primeira vez do projeto. Embora vivam próximas ao mangue, não conheciam de perto as especificidades da vegetação e nunca tinham participado de um plantio.

“Eu achei muito importante para nós. Às vezes, estão desmatando muito, e é importante plantar, para estar sempre lindo assim do jeito que ele é”, diz Taynara.

“Uma experiência muito lítico, que eu nunca ia saber se não tivesse vindo. Eu quero passar a ajudar nesse projeto”, concorda Clarice.

 


Bragança (PA), 12/06/2025 – A estudante Taynara da Silva trabalha no viveiro de mudas de mangue do projeto Mangues da Amazônia da Vila do Tamatateua, na área da Reserva Extrativista Marinha de Caeté-Taperaçu. Foto: Fernando Frazão/Agência Brasil
Bragança (PA), 12/06/2025 – A estudante Taynara da Silva trabalha no viveiro de mudas de mangue do projeto Mangues da Amazônia da Vila do Tamatateua, na área da Reserva Extrativista Marinha de Caeté-Taperaçu. Foto: Fernando Frazão/Agência Brasil

A estudante Taynara da Silva trabalha no viveiro de mudas de mangue do projeto Mangues da Amazônia da Vila do Tamatateua, na superfície da Suplente Extrativista Marinha de Caeté-Taperaçu. Fernando Frazão/Escritório Brasil

Mangues na Amazônia

Os manguezais são áreas úmidas que estão entre o mar e a terreno firme. As espécies vegetais e animais que ali vivem são resistentes ao fluxo das marés e ao sal. As raízes densas dos manguezais ajudam a estabilizar o solo, prevenindo a erosão costeira causada por ondas e correntes marítimas. Ou por outra, a vegetação densa age porquê uma barreira proveniente, reduzindo o impacto de tempestades e furacões, protegendo as áreas costeiras e as comunidades próximas. 

Os manguezais são ainda ecossistemas com subida capacidade de sequestrar e armazenar carbono atmosférico, contribuindo significativamente para a mitigação das mudanças climáticas. 

 


Bragança (PA), 12/06/2025 – Vista de um braço do Rio Caeté em área de manguezal na Reserva Extrativista Marinha de Caeté-Taperaçu monitorada pelo projeto Mangues da Amazônia. Foto: Fernando Frazão/Agência Brasil
Bragança (PA), 12/06/2025 – Vista de um braço do Rio Caeté em área de manguezal na Reserva Extrativista Marinha de Caeté-Taperaçu monitorada pelo projeto Mangues da Amazônia. Foto: Fernando Frazão/Agência Brasil

Vista de um braço do Rio Caeté em superfície de manguezal na Suplente Extrativista Marinha de Caeté-Taperaçu monitorada pelo projeto Mangues da Amazônia. Fernando Frazão/Escritório Brasil

O Brasil é o segundo país com maior extensão de manguezal, com 14 milénio quilômetros quadrados (km²) ao longo da costa, ficando detrás unicamente da Indonésia, com murado de 30 milénio km². 80% dos manguezais em território brasílio estão distribuídos em três estados do bioma amazônico: Maranhão (36%), Pará (28%) e Amapá (16%).

De toda a extensão amazônica, a maior secção está em 120 unidades de conservação que abrangem 12 milénio km², 87% do ecossistema em todo o Brasil. Isso faz com o que o Brasil tenha o maior território contínuo de manguezais sob proteção lítico de todo o mundo, de consonância com os dados do Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade (ICMBio).

*A equipe da Escritório Brasil viajou à Bragança entre os dias 11 e 14 de junho para saber o projeto Mangues da Amazônia, a invitação da Petrobras, patrocinadora do projeto.

Fonte EBC

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