Conto infantil de caio fernando abreu ganha vida no palco

Conto infantil de Caio Fernando Abreu ganha vida no palco – 05/08/2025 – Mise-en-scène

Celebridades Cultura

Imagine um lugar seduzido, longe do mundo dos humanos, onde criaturas mágicas vivem em simetria. Essa é “A Comunidade do Roda-Íris”, uma peça inspirada no narrativa infantil de Caio Fernando Abreu que, em sua recente montagem no CCBB São Paulo, resgata a urgência poética dos anos 1970/80 enquanto dialoga com as inquietações do presente. Sob a direção de Suzana Saldanha e supervisão de Gilberto Gawronski, o espetáculo mantém o núcleo da história — uma utopia comunitária ameaçada por conflitos morais —, mas enriquece a narrativa com camadas visuais e sonoras que a transformam em uma experiência lúdica, interativa e profundamente reflexiva.

Voltada principalmente para o público infantil, mas com uma riqueza que encanta todas as idades, a peça aborda, de forma divertida e sensível, temas porquê amizade, saudação, democracia e magnanimidade. No meio da trama, personagens marginalizados — uma feitiçeira de tecido, uma sereia cansada da poluição, um soldado que odeia a guerra e outros seres fantásticos — encontram refúgio em uma floresta, criando uma espécie de paraíso. A chegada de três gatos oportunistas desestabiliza essa simetria, levando o público a sentenciar, por meio de uma votação democrática, o orientação da comunidade. Essa interatividade não só envolve as crianças na narrativa, mas também as convida a refletir sobre perdão, consequências e a valor das escolhas coletivas.

A trilha sonora, composta por Tony Bellotto e João Mader, a partir do hino presente no texto, mistura rock e dissonâncias, reforçando a dualidade entre a venustidade efêmera do arco-íris e a tempestade dos conflitos. Já o cenário minimalista, com estruturas lúdicas que lembram um jardim meio parque de diversões, conecta o exposição ecológico de Caio à crise ambiental atual. Com Bianca Byington no papel da feitiçeira de tecido, a montagem prova que o teatro é um veículo supimpa para reativar clássicos: em vez de encerrá-los no pretérito, lança suas perguntas ao presente.

“A Comunidade do Roda-Íris” abre espaço para a incerteza moral, ensinando às novas gerações — e relembrando aos adultos — a valor da convívio, da empatia e da participação. Enfim, em um mundo cada vez mais dividido, a peça nos lembra que a vida em comunidade é bela apesar de frágil.

Três perguntas para…

… Suzana Saldanha

Quais foram os maiores desafios e as maiores recompensas de revisitar um texto tão significativo para você e para o teatro infantil brasílio depois tanto tempo?

Dei ao elenco uma entrevista precípuo de Caio Fernando Abreu ao Instituto Estadual do Livro [feita por Roberto Antunes Fleck, Vera Aguiar e Charles Kiefer]. Nela, Caio fala desde sua puerícia no interno gaúcho até sua visão, já nos anos 1970, de um mundo onde todos pudessem ser quem são.

Montei essa peça pela primeira vez em 1979, mas o que Caio denunciava na estação – sobre ecologia, liberdade – ainda ecoa hoje. Não à toa, ele segue sendo lido e querido pelas novas gerações.

A trilha sonora com Tony Bellotto e João Mader, e a participação de Malu Mader, trazem elementos interessantes para a peça. Porquê você trabalhou para integrar esses elementos mais “rock’n’roll” com a delicadeza e a ludicidade da história?

A Malu Mader é uma querida – amorosa, gentil, faria a Feitiçeira de Tecido com todo o coração, mas problemas familiares a impediram.

Quando convidei o Tony Bellotto, ele topou na hora! No texto do Caio tem um hino da Comunidade do Roda-Íris – o Tony e o João Mader (rebento da Malu) criaram a música juntos, porquê parceiros do Caio. Ficou ótimo e muito jocoso!

Qual você considera ser o papel do teatro infantil na formação de novas gerações? Que tipo de mensagem ou experiência você procura proporcionar aos jovens espectadores em seus trabalhos?

Em 2008, quando a diretora Manuela Anabuki me convidou para montar “A Comunidade do Roda-Íris” na Escola Carlitos, vi porquê é crucial levar teatro às novas gerações – um aluno de 11 anos, profundamente impactado pela peça, me disse: “Eu queria votar para que os gatos ficassem na comunidade, eles pediram perdão e se arrependeram do que fizeram”, e eu respondi: “Mas eles também roubaram os objetos…”, deixando no ar aquela reflexão que só o teatro sabe provocar.

CCBB SP – rua Álvares Penteado, 112, Meio Histórico. Sáb., 11h e 15h. Dom., 15h. Até 31/8. Duração: 60 minutos. A partir de R$ 15 (meia-entrada) em bb.com.br/cultura e na bilheteria do CCBB


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Folha

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