A cantora Paula Fernandes apresentava seus antigos sucessos antes de dar lugar para outro artista, de regata transparente, calça de pele e chapéu de caubói. Era o ator Filipe Bragança sob a pele de João Raul, o músico inventado para protagonizar a novidade romance das sete da Mundo, “Coração Veloz”, novidade aposta da emissora centrada na música sertaneja.
Foi ele quem encerrou a sarau de lançamento nos estúdios da emissora na última quarta-feira (7). Apresentou “Fora do Compasso”, o maior sucesso do personagem, com o elenco entoando junto o refrão na plateia. A música está disponível nas plataformas em uma versão com a dupla Maiara e Maraisa.
Não foi a primeira vez que Bragança teve de encarnar João Raul em um palco da vida real. Participou de um show de Maiara e Maraisa em Crixás, no interno de Goiás, há dois meses. A apresentação foi gravada e deve ir ao ar no início da romance. A julgar pelos trechos já mostrados, João Raul é uma versão de Luan Santana no auge da renome, jovem, galã e carismático.
Na emissora, o resultado vai se somar ao sucesso de Viver Sertanejo, talk show comandado por Daniel, exibido nas manhãs de domingos desde o final de 2024. Mas “Coração Veloz”, na verdade, nasceu de um interesse da autora Izabel de Oliveira pelas mulheres do sertanejo, principalmente depois a explosão de Marília Mendonça, uma das artistas mais ouvidas do país mesmo depois sua morte, em 2021.
Escritora de “Cheias de Charme”, de 2012 —aquela da música chiclete, entoada pelas Empreguetes, o trio figurado formado por domésticas—, Oliveira apresentou a teoria à Mundo, recebeu sinal virente, e se juntou a Maria Helena Promanação, que escreveu o folhetim “Rock Story”, de 2016, também de pegada músico.
A novidade trama narra a vida de Prazimento, vivida por Isadora Cruz, amiga de puerícia de João Raul que inspirou suas canções. Eles seguem caminhos diferentes, e na vida adulta, já um planeta da música, João decide procurar a antiga querida com um repto lançado nas rádios.
Prazimento, por sua vez, luta para conseguir espaço na indústria, ainda pouco receptiva às mulheres —tema também abordado recentemente no streaming em “Rensga Hits!”, do Globoplay, centrado no feminejo. Cá, a protagonista herdou o talento da avó, interpretada pela cantora Paula Fernandes em sua estreia uma vez que atriz de romance.
“Coração Veloz” não deve poupar nas intersecções com artistas do mundo real —outro nome já confirmado na trama é o de Ana Castela, a maior sensação do sertanejo hoje, que vai interpretar a si mesma. Vão nascer também Daniel e Michel Teló.
A vilã será uma influenciadora pentelha, Naiane, interpretada por Isabelle Drummond, que se envolve com João. Há quem sugira que ela seja uma caricatura de Virginia Fonseca, uma das influenciadoras mais famosas do país, que foi casada com o sertanejo Zé Felipe, rebento de Leonardo. A inspiração não foi confirmada.
Para além da música, as autoras e o diretor Carlos Araújo fizeram uma submersão no mundo sertanejo, com viagens a Goiânia, a capital do gênero, onde conversaram com artistas e ouvintes aficionados e estudaram os rumos e as raízes do ritmo. A romance é ambientada na cidade —um pedido da Mundo que já estava nos planos das roteiristas—, seguindo um libido de mostrar que o Brasil não é só o Rio de Janeiro.
Apesar de manter um pé na verdade, horário permite maluquices, afirma Oliveira, a escritora. Assim, Araújo, o diretor, diz que fez questão de adotar uma linguagem lúdica, com um quê de figura entusiasmado e de trova. Vai ter até flashback na mente de um cachorro, eles contam.
A Mundo aposta cimeira na boa repercussão de ‘Coração Veloz”, que já bateu o recorde de cotas de patrocínio vendidas antes da estreia, superando “Vai na Fé”, o maior sucesso da tira nos últimos anos.
Aprazer os artistas e o público do sertanejo é uma das prioridades do ducto —pesquisas mostraram à empresa que os espectadores vinham sentindo falta do tema na programação. Em paralelo, no mês pretérito, a Mundo lançou nas redes sociais uma micronovela com Gustavo Mioto, um dos sertanejos mais populares da novidade geração.
A relação entre a Mundo e esse público esteve estremecida nos últimos anos. Isso porque grande segmento dos artistas de sertanejo foram apoiadores de Jair Bolsonaro, e o ex-presidente nunca poupou críticas à emissora.
Talvez por isso, Izabel de Oliveira, uma das autoras, afirme que a romance vai evitar falar de política. “Não cabe na história, ainda mais no horário das sete”, diz. “Ainda mais em ano de eleição”, afirma Maria Helena Promanação, a outra autora.
O jornalista viajou a invitação da Mundo
