Coreografia gera vaias e aplausos no festival de avignon

Coreografia gera vaias e aplausos no Festival de Avignon – 06/07/2025 – Ilustrada

Celebridades Cultura

A 79ª edição do Festival de Avignon, um dos mais tradicionais do mundo devotado às artes cênicas, foi ensejo no término da noite deste sábado, com uma guerra entre vaias e aplausos para a coreógrafa cabo-verdiana Marlene Monteiro Freitas, que apresentou seu novo trabalho, intitulado “Nôt”, no Recinto de Honra do Palácio dos Papas, o palco principal do festival.

Desde o início, a coreografia gerou burburinho no público, que se mostrou incomodado com a obra. Cá e ali, era provável ouvir tiradas irônicas sobre o espetáculo, além de expressões de insatisfação. Algumas pessoas foram embora durante a apresentação. Freitas, que em 2018 ganhou o Leão de Prata da Bienal de Veneza de Dança, é a artista associada desta edição do Festival de Avignon.

Autora de “Bacantes” e “Guintche”, ela se tornou célebre por gerar uma linguagem que explora as deformações do corpo humano, valorizando o grotesco e o bizarro. Seu objetivo, em suma, é tentar atribuir uma forma ao informe. Talvez por isso o espetáculo não tenha sido tão muito recebido pelo público em Avignon. A apresentação se iniciou às 22h, quando os últimos resquícios do dia davam lugar à trevas. A escolha do horário remeteu à teoria de transformação e ao próprio nome da obra. Enfim de contas, “Nôt”, em crioulo de Cabo Verdejante, significa noite. A vocábulo também designa a diva noite, na mitologia nórdica.

Correspondendo ao libido do festival de valorizar a cultura do Oriente Médio num contexto de guerras, Freitas desenvolveu a coreografia, inspirada por “As Milénio e uma Noites”, clássico da literatura de língua arábico, que passou a ser sabido no Oeste, graças a uma tradução para o gaulês, em 1704. Nos contos, Sherazade inventa histórias para prorrogar o seu assassínio pelo nubente, o rei Xariar, da Pérsia, que, traído pela ex-mulher, resolve dormir com uma mulher a cada noite, matando-a no dia seguinte. Em “Nôt”, é difícil, porém, identificar referências claras ao livro.

Porquê é geral na dança contemporânea, Freitas rechaça a literariedade, preferindo declamar suas referências por meio de símbolos. Mesmo assim, “Nôt” é, na maior secção do tempo, inapreensível. Na primeira meia hora do espetáculo, não se ouviu música alguma, o que entediou os presentes. Dois dos oito bailarinos da P.OR.K, companhia de Freitas sediada em Lisboa, zanzavam pelo palco e pela plateia, gemendo, de dor e prazer, tentando se expressar sem conseguir.

Marca registrada da coreógrafa, os bailarinos usavam máscaras o tempo todo, deformando seus rostos. O resultado assustou, porque os artistas se tornaram bonecas, típicas de filmes de terror. A cenografia foi composta por duas imensas grades brancas, que fizeram referência aos domínios do rei Pérsio e reforçaram a teoria de aprisionamento. Nesse ponto, é provável associar “Nôt” à requisito de Sherazade e de secção das mulheres, ainda hoje, no Oriente Médio. O que se viu, em seguida, foi uma sequência coreográfica, alicerçada na teoria de ritual, tão presente no mundo arábico. Num dos rituais, a presença de Sherazade pareceu ser evocada por Maria Tembe, bailarina moçambicana nascida sem as duas pernas, que protagonizou movimentos eróticos, uma vez que uma odalisca.

Em outro, várias das bonecas assassinas vestiram aventais e, empunhando facas, sugeriram se esfaquear, se sujando de tinta vermelha, para imitar sangue. Foi um morticínio similar ao que ocorreu com as mulheres de “As Milénio e uma Noites”. Sob o paisagem músico, Freitas apostou, uma vez que sempre, numa combinação desassombrada de repertório, justapondo “As Núpcias”, do russo Igor Stravínski, a canções de Nick Cave ou de seu país.

Decerto, o Cabo Verdejante continua sendo importante para a coreógrafa. Buscando dar vazão à linguagem dos rituais, Freitas usou uma vez que parâmetro o carnaval de São Vicente, a famosa ilhéu cabo-verdiana. Tanto que a coreografia evolui, consoante a um desfile de rua, com os bailarinos que dançam e tocam instrumentos a um só tempo. No Oriente Médio ou no carnaval de São Vicente, o ritual surge uma vez que sentença dionisíaca.

Avignon amanhece agora tentando digerir a sarau macabra. Já é poderoso a repercussão nos jornais, que reproduzem o estranhamento causado por “Nôt”. “O que ocorreu exatamente, no dia 5 de julho, no Palácio dos Papas?”, pergunta a primeira frase da reportagem do Le Monde. Talvez já tenhamos a primeira polêmica do festival.

O jornalista viajou a invitação da temporada Brasil-França

Folha

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