Embora o Corinthians tenha guardado uma polpuda premiação em torno de R$ 98 milhões pela campanha vitoriosa rumo ao quarto título da Despensa do Brasil, a maior parcela do valor será consumida por dívidas. A Folha localizou mais de R$ 57 milhões em 36 protestos contra o time feitos em cartórios do país até a primeira quinzena de dezembro.
A situação financeira da sociedade é muito ruim. De negócio com balanços apresentados pelos times brasileiros neste ano, o Corinthians está no topo da lista de clubes mais endividados do país, com uma dívida de tapume de R$ 2,7 bilhões. Procurado, o time não se manifestou até esta publicação.
O principal credor nos cartórios é a Herdade Vernáculo, que concentra 99% do montante negado. No dia 23 de setembro, a Procuradoria-Universal da Herdade Vernáculo registrou uma certificado de dívida ativa contra o Corinthians no valor de R$ 39 milhões referentes a uma dívida com a União.
No dia 21 de novembro, a Herdade fez outros dez protestos em diferentes cartórios, totalizando outros R$ 17 milhões, por falta de retenção de diferentes tributos que deveriam ser repassados à Receita Federalista e de outras contribuições federais obrigatórias.
Na sequência aparece uma empresa de coleta de lixo, à qual o Corinthians deve R$ 35 milénio. Os 12 protestos foram feitos nos meses de junho e julho. O terceiro credor é uma empresa de medicina diagnóstica, com um protesto apresentado em julho no valor de R$ 13 milénio.
Entre outros credores estão empresas de informação, embalagens e bancos. O protesto de menor valor, R$ 145, foi apresentado no dia 21 de junho pelo Governo de São Paulo, por uma taxa judiciária não paga.
“Quando você pensa que o clube tem que sentenciar o que ele vai remunerar e o que não vai remunerar, ele decide remunerar o salário do jogador, mas não o fornecedor. E o fornecedor é quem garante a operação do clube no dia a dia. Isso é típico de clubes que vão ser estrangulados financeiramente em um oferecido momento, com penhora de receita, bloqueio de contas”, afirmou Amir Somoggi, diretor da consultoria Sports Value.
Mesmo que excluídos os custos referentes à construção do estádio em Itaquera, o saldo restante de R$ 1,9 bilhão cresce de forma consistente desde 2014 “e tem uma vez que propriedade um comportamento recorrente de não recolher impostos e encargos trabalhistas”, assinalou o economista César Grafietti, sócio da consultoria Convocados.
Desse montante, tapume de R$ 1 bilhão são salários e encargos atrasados, além de acordos e parcelamentos fiscais de imposto de renda, INSS e FGTS. “São valores que foram crescendo ao longo do tempo de forma premeditada: contrata-se o que não se pode remunerar, a um dispêndio de pelo menos 15% ao ano em juros. Ou seja, o problema foi criado pelo clube, em diversos mandatos.”
O revérbero disso é uma sociedade que não é capaz de remunerar as despesas correntes, nem aquelas que foram repactuadas, disse Grafietti. “No final, os credores passam a usar as ferramentas disponíveis para tentar receber pelo serviço prestado, impactando ainda mais a situação do clube. O que se inicia uma vez que uma esfera de neve já virou uma avalanche, com consequências graves para o horizonte do clube.”
O economista afirmou que a dívida totalidade do Corinthians representa tapume de 2,5 vezes a receita anualizada do clube. “O Corinthians não chegou a esses números por eventualidade. Eles foram construídos a partir de gestões que não se preocuparam com o horizonte do clube”, afirmou Grafietti.
Somoggi, da Sports Value, lembra que a origem do buraco financeiro em que o Corinthians se encontra está, em boa segmento, vinculada à construção da Neo Química Estádio, finalizada em 2014, a um dispêndio de aproximadamente R$ 1 bilhão.
“Nesse período, os juros bancários cresceram muito no Brasil. Hoje estamos falando em 15% do CDI. Portanto, o numerário que o clube faz de bilheteria vai todo para o fundo talhado ao pagamento do estádio”, afirmou Somoggi, lembrando que o Corinthians ainda tem uma pendência em torno de R$ 700 milhões unicamente referente ao estádio.
Mais de uma dezena depois o estádio ter sido palco da fenda da Despensa do Mundo, apesar do pagamento de parcelas ao longo dos anos, a dívida com a Caixa não caiu uma vez que o clube projetava devido a juros, correções e encargos, provocados por atrasos na quitação do financiamento.
“A questão é que o Corinthians gasta uma vez que se fosse um clube saudável, sendo que hoje ele está completamente estrangulado financeiramente”, afirmou o consultor —somente considerando o ano de 2025, o clube projeta um prejuízo em torno de R$ 270 milhões.
Somoggi acrescentou que o Corinthians precisa gastar o mínimo provável neste momento para poder se lastrar financeiramente, ou logo terá de recorrer à opção de se tornar uma SAF (Sociedade Anônima de Futebol). “Se o time não reduzir os custos de forma drástica e lastrar suas finanças, a tendência será de só a SAF salvar o clube.”
Com notórios problemas de fluxo de caixa, a diretoria tenta equacionar obrigações de pequeno prazo para entrar respirando em 2026. Uma das urgências é remunerar tapume de R$ 40 milhões ao Santos Laguna, do México, pela contratação de Félix Torres. Pela inadimplência na obtenção do zagueiro equatoriano, o clube alvinegro foi punido pela Fifa (Federação Internacional de Futebol) com um “transfer ban” e está impedido de registrar jogadores.
A reportagem foi produzida em parceria com o Google. A Folha coletou certidões em cartórios que estão disponíveis à consulta na instrumento Pinpoint. Veja cá todas as coleções.
