Na toga de seu último disco, “Cowboy Carter”, Beyoncé empunha a bandeira dos Estados Unidos, montada em um cavalo e com um chapéu de caubói. “Disseram que eu não era country o suficiente/ o que é isso cá, portanto?”, ela diz na tira de franqueza, “Ameriican Requiem”, um pouco porquê luto americano.
Na turnê dedicada a nascente álbum, em curso no hemisfério Setentrião, Beyoncé tenta romper a relação entre a música country e o conservadorismo, junto com uma série de artistas jovens, a maioria não brancos e LGBTQIA+.
Historicamente atrelado à branquitude, à masculinidade e à flanco mais conservadora da sociedade americana, o estilo músico se tornou fim de disputa entre esses artistas e os mais tradicionais. Beyoncé venceu o troféu de melhor disco country na última edição do Grammy, o prêmio mais importante da música, tornando-se a primeira pessoa negra laureada nesta categoria, que existe há quase 60 anos.
“Vamos detrás dela. Essa porcaria não é country nem nunca será”, afirmou Gavin Adcock, um dos novos nomes do country, mas mais tradicionalista, no rastro de um movimento iniciado por outro artista da mesma seara, Dylan Scott, que chamou a premiação de uma farsa.
No lado oposto dessa estádio está Dolly Parton, que emprestou a “Cowboy Carter” seu megahit “Jolene”, repaginado por Beyoncé, que também recebeu a bênção de Willie Nelson e Shania Twain, figuras importantes do country, além de Linda Martell, pioneira negra no gênero.
Essa disputa levou a uma mudança no Grammy, que a partir do próximo ano vai premiar dois discos de country —um contemporâneo e um tradicional. A mudança, na opinião de vários profissionais da indústria, só aconteceu para extinguir o rastro deixado pela vitória polêmica de Beyoncé, depois ainda que Lil Nas X, preto e gay, viu seu primeiro hit, “Old Town Road”, ser removido da paragem de country da Billboard, sob a justificativa de que a tira não tinha elementos suficientes desse gênero.
O debate tem ainda uma dimensão política. Beyoncé se posicionou contra o presidente Donald Trump, na contramão da maioria dos artistas do country. “Artistas e fãs puristas não gostam de compartilhar a música country. Para eles, o gênero deve pertencer aos Estados Unidos rústico, dos agricultores e fazendeiros”, afirma o jornalista americano Kyle Coroneos, instituidor e editor do site Saving Country Music, um pouco porquê salvando a música country.
Esses fãs têm porquê fim, além de Beyoncé, nomes porquê Shaboozey, que estourou no ano pretérito com “A Bar Song (Tipsy)”, além de Brittney Spencer, Tiera Kennedy e Reyna Roberts. Os quatro cantam com Beyoncé em “Cowboy Carter”.
Quem também aparece no disco é Miley Cyrus, estrela do pop, mas filha do planeta country Billy Ray Cyrus, e Post Malone, que mudou da rota do rap, que o consagrou, para lançar um álbum country. Sabrina Carpenter, um dos nomes mais quentes do pop hoje, também se juntou a Dolly Parton para um remix.
Lana Del Rey, que ataca as raízes do sonho americano em seu indie melancólico, lançou duas músicas country, na esteira de Chappell Roan, uma drag queen que subverteu o gênero ao trovar um paixão lésbico ambientado no interno, mesmo caso de Trixie Mattel, vencedora do reality show RuPaul’s Drag Race.
“Ainda há um caminho a percorrer, mas o gênero está mesmo se abrindo”, afirma Kacey Musgraves, que há seis anos venceu o prêmio de álbum do ano no Grammy com “Golden Hour”, uma obra country que desde aquela era já fugia do lado mais tradicional desse universo. “Beije muitos meninos/ ou muitas meninas/ se você estiver a termo”, diz a melodia “Follow Your Arrow”, desse álbum.
Para além do conservadorismo que rejeita as bandeiras do pop e, por consequência, a ingressão desses artistas no country, há uma discussão técnica, diz Coroneos, do site Saving Country Music. Para ele, o que faz “Cowboy Carter” não ser um álbum de country, por exemplo, é a carência de instrumentos porquê banjo e bandolim e o excesso dos sons eletrônicos e das misturas com hip-hop, R&B e até funk brasiliano.
“A intenção não era fazer um álbum country, mas mesclar vários gêneros. Ela própria disse isso”, ele afirma. “Os fãs e a mídia quiseram vender a teoria de que o disco era country. Por motivos de marketing, ela deve ter entrado no jogo.”
Mas há quem discorde da definição que Coroneos tem de country. A pesquisadora canadense Jada Watson, doutora em musicologia, lembra que homens brancos sempre misturaram country com outros ritmos e não foram criticados. Ela cita Tyler Hubbard e Brian Kelley, da dupla Florida Georgia Line, conhecida por unir country, pop, hip-hop e música eletrônica. “Essa indústria não é amigável com forasteiros, com quem não vive ou bajula o mercado de Nashville.”
Watson celebra Beyoncé, mas diz não crer que a cantora terá força para perfurar essa porteira sozinha. “A vitória dela vai encorajar mais artistas não brancos a perseguir sua paixão pelo country, mas não deve dar conta de mudar a forma porquê Nashville funciona.”
“Cowboy Carter”, aliás, nasceu da inconformidade de Beyoncé com essa repudiação. Em 2016, ela foi convidada para trovar numa premiação de country e, apesar de sua participação ter oferecido audiência, foi criticada por figuras porquê Travis Tritt e Alan Jackson, que teria deixado o salão enquanto ela cantava.
Mas Beyoncé, na verdade, está se reapropriando desse gênero, que tem raízes negras. Prova disso é a história do banjo, que ela toca em “Texas Hold’Em”, levado aos Estados Unidos pelos escravizados africanos. No sul do país, hoje conservador, eles cantavam sobre sofrimento, resistência e fé.
Até que, na dez de 1920, a indústria passou a invocar essa música de “race records”, ou gravações de raça, guarda-chuva no qual inseriu ainda o blues, o gospel e o jazz. O country, por sua vez, passou a ser dos brancos, conta a professora americana Francesca Royster, que explora esse tema no livro “Black Country Music: Listening for Revolutions”.
“Músicos brancos hoje vistos porquê criadores do gênero, porquê o grupo The Carter Family, na verdade foram aprendizes dos negros. Essa história foi apagada para substanciar a teoria de segregação, de que essas comunidades viviam, tocavam e amavam separados, cada um à sua maneira”, diz.
Talvez seja por isso que os shows de Beyoncé, que levam o country para fora dos Estados Unidos, lembram que a América é mesmo enxurro de problemas. “Aquelas ideias antigas/ agora estão enterradas cá/ amém.”
