Alguns cineastas têm um período áureo muito pequeno, passando logo a viver dos louros acumulados dentro desse período, com um ou outro pequeno acerto numa curso errática.
É precisamente o caso do diretor germânico Wim Wenders, que agora retorna com “Dias Perfeitos”, indicado do Japão ao Oscar de melhor filme estrangeiro. Cá, Wenders retorna à terreno de um de seus heróis, Yasujiro Ozu, onde havia filmado “Tokyo-Ga”, de 1985, um documentário em que ele procura o espírito do cineasta por Tóquio.
O longa acompanha Hirayama, um limpador de banheiros públicos na capital japonesa, sua rotina de manifesto feitiço e o trânsito entre parques e praças, pequenas lanchonetes e lojas, livrarias e lojas de discos.
Hirayama, um varão que sonha imagens de vanguarda em preto e branco, é interpretado por Koji Yakusho, magnífico ator, mais sabido por protagonizar algumas obras magníficas de Kiyoshi Kurosawa, porquê “Tratamento”, de 1997, ou “Pulse”, de 2000, entre outros.
A trilha sonora, com músicas do Velvet Underground, Otis Redding, do obrigatório Lou Reed, porquê sugere o título original, ou dos Animals, parece comentar a internacionalização do Japão contemporâneo e, principalmente, de sua capital, Tóquio, onde já não encontramos tanto a tradição que Ozu tão muito retratou.
Mas é também uma tentativa de retorno ao início da curso de Wenders, quando filmou seu primeiro longa, “Summer in the City”, de 1971, tal qual título remete a um sucesso da filarmónica The Lovin’ Spoonful. Ou um curta simpático chamado “Três LPs Americanos”, de 1969, que passeava pelo pop-rock da quadra.
Esse retorno razoavelmente orquestrado parecia tramar para que Wenders tivesse o seu primeiro bom filme de ficção em muitos anos, fazendo-nos olvidar de bobagens recentes porquê “Tudo Vai Permanecer Muito”, de 2015, e “Submersão”, de 2017.
A grande tempo de Wim Wenders, na verdade, se encerrou com “O Estado das Coisas”, lançado em 1982 —justamente no ano em que morreu Rainer Werner Fassbinder, o maior nome do cinema na Alemanha da segunda metade do século pretérito.
A partir de logo, falou-se muito, e com razão, de uma possante decadência do cinema germânico, pela irregularidade ou pela internacionalização de seus principais nomes. Essa queda melhorou aos poucos graças à chegada dos cineastas da Escola de Berlim, principalmente Christian Petzold e Angela Schanelec, que nos anos 2000 se firmaram porquê ótimos diretores.
Por mais que o americano-europeu “Paris, Texas”, de 1984, e o franco-alemão “Asas do Libido”, de 1987, fossem belos filmes, já se sentia que alguma coisa havia mudado. A inspiração de Wenders parecia estar chegando ao termo. A confirmação veio com “Até o Termo do Mundo”, de 1990, longa que demonstrava um beco sem saída.
Sua curso em seguida 1987 tem documentários medianos ou razoáveis porquê “Buena Vista Social Club”, de 1999, “Pina”, 2011, ou “O Sal da Terreno”, de 2014, e longas de ficção constrangedores porquê “Terror e Preocupação”, de 2004, e “Estrela Solitária”, de 2005.
O diretor fez um único longa de ficção decente nesse período todo: “O Firmamento de Lisboa”, de 1994, filmado em Portugal, terreno de Manoel de Oliveira. O rabino português aparece, no eminente de seus 85 anos, com uma dança simpática e chapliniana no filme.
Wenders consegue restaurar sua força em “Dias Perfeitos” até manifesto ponto. O interessante trabalho com repetições é parcialmente interrompido por alguns encontros intrusivos, embora a chegada da sobrinha inicie uma bela sequência em que, do ponto de vista dela, dois modos de vida se opõem: o contemplativo e simples, que ela admira no tio, e o apressado e rico, que ela parece recusar na mãe.
Com o Wenders atual, mas, alguma coisa está sempre prestes a trespassar dos trilhos. Aspectos de sátira social porquê o preconceito da mana do protagonista com sua profissão, ou de sátira comportamental, porquê a descaracterização de uma pátria de costumes e cultura tão possante, são tratados de forma enviesada, sem a força que poderiam ter se tudo estivesse mais muito estruturado.
Por querer abranger coisas demais sem dar conta da maioria delas, o filme se torna um desperdício de Koji Yakusho, uma resposta meio fracassada ao dinamismo sintético do cinema contemporâneo e uma tentativa sem fôlego de retorno ao primícias de um trajectória que há muito havia perdido o fulgor.
A inquietação dos primeiros filmes desapareceu no horizonte. O que sobra é um olhar terno para os rejeitados e uma certa recusa à pressa dos nossos dias, embora sem a coragem de ser realmente simples e contemplativo.
