Encenar “O Mercador de Veneza” hoje é um ato de coragem. Mais do que um clássico, a peça é um campo minado ético, equilibrando-se entre comédia romântica e um denso drama sobre antissemitismo. No contexto atual de desenvolvimento global do preconceito, montá-la no Brasil exige mais que fidelidade a Shakespeare – exige uma mediação sátira. A produção, traduzida e adaptada por Bruno Cavalcanti e dirigida por Daniela Stirbulov, abraçou nascente duelo com uma proposta arrojada, reposicionando a vingança do usurário Shylock não porquê malvadeza individual, mas porquê fruto de uma vexação estrutural.
A encenação troca a Veneza renascentista pelo envolvente de subida finança dos anos 90, com uma cenografia impecável de Carmem Guerra que evidencia a frieza das relações regidas pelo capital. No entanto, a riqueza é uma “pista falsa”: o motor da trama não é a ganância, mas a vingança de Shylock contra o preconceito religioso que sofreu a vida toda.
Para substanciar essa leitura contemporânea, a direção lança mão de recursos dinâmicos. Uma orquestra ao vivo e projeções em LED – que convertem as dívidas da peça em reais – conectam a narrativa shakespeariana ao presente. Uma câmera em cena amplia o julgamento final, sugerindo o escrutínio da mídia e da sociedade. Já as projeções de bocas acusatórias traduzem visualmente o assédio moral que define a existência de Shylock.
No meio dessa tempestade está Dan Stulbach, cuja atuação porquê Shylock é digna de prêmios. Ele construiu um personagem múltiplo e multíplice, fugindo do estereótipo do usurário para revelar um varão movido por carências e um profundo libido de legalização. Sua performance é o eixo que sustenta a tese da montagem: humanizar a figura do judeu para revelar que sua sede por justiça retributiva é uma reação previsível a uma vida de violência sistêmica.
A força da montagem está em provar porquê a lei, quando esvaziada de isenção, torna-se mera utensílio de vexação.
Três perguntas para…
… Dan Stulbach
Shylock é um dos papéis mais complexos do teatro, onusto de séculos de representações antissemitas. Qual foi o seu maior pavor ao concordar esse duelo e que caminhos você buscou para evitar tombar no estereótipo do “usurário judeu vilão”?
Busquei ser o mais humano verosímil. Dar luz a todo tipo de emoção. Fazer dele um ser humano multíplice, com qualidades e defeitos, verdadeiro, com varias camadas. Uma pessoa. Ao longo dos anos, muitas vezes atores fizeram trabalho brilhantes e profundos e outros, uma caricatura que só reforçava o preconceito e a inépcia. Cá, não me importo que o achem visível ou inexacto, ou que não saibam o que descobrir, mas que sobretudo o entendam. Assim a plateia se pergunta ” e se fosse eu?” Coloquei humor, o riso no pranto, o pranto no riso. Se não for óbvio nem previsível, não cabe em nenhum estereótipo . Meu pavor era não interpretar tudo, fiquei obsessivo prazerosamente lendo e vendo tudo que há sobre. E junto da direção, desenhando essas cores.
Depois tive pavor que a montagem não se realizaria no seu potencial, que as peças não iriam se encaixar. Foram muitas ousadias juntas.
A cena do tribunal é o orgasmo da peça. Porquê você e a direção trabalharam para lastrar a frieza de Shylock ao exigir a libra de músculos com a empatia que o público pode (ou não) sentir por ele nesse momento?
Quando a cena começa todos sabem o que Shylock quer. O porque dele estar ali.
A melhor maneira de trabalhar essa cena foi não ter pavor dela. Da sua teatralidade, de todos seus momentos. Ali todos se revelam. Quem realmente são. Heróis e vilões se confundem. É fácil amar o herói, odiar o vilão. Há pessoas que querem encaixar tudo nessa dualidade, e isso diz muito do mundo que vivemos. Mas não me interessaria uma obra assim. Portanto apostamos na verdade, na vocábulo e nos silêncios. É porquê uma dança com a plateia. Em saudação à lucidez das pessoas não precisa se expor tudo. Cada um completa o espetáculo dentro de si, sem que eu diga o que deve sentir ou pensar.
“O Mercador de Veneza” é, inevitavelmente, uma peça sobre ódio e exclusão. O que você espera que o testemunha ligeiro para moradia em seguida presenciar a essa montagem? Que conversa você gostaria que a peça provocasse na sociedade brasileira hoje?
Espero que o testemunha saia do teatro querendo ver mais peças e admirando a genialidade de Shakespeare. Em 1596, ele escreveu uma obra que é, feliz e infelizmente, ainda tão atual.
Que essa montagem de “O Mercador de Veneza” provoque uma conversa necessária sobre porquê a nossa sociedade, impulsionada pelas redes sociais, abraça certezas absolutas com rapidez perigosa, tornando-se intolerante, violenta e preconceituosa com quem é dissemelhante.
Tucarena – rua Bartira, s/n (esquina com a Rua Monte Satisfeito, 1024 ), Perdizes, região oeste. Sex. e sáb., 21h; dom., 18h. Até 14/12. Duração: 110 minutos. A partir de R$ 70 (meia-entrada) em sympla.com.br e na bilheteria do teatro
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