Daniela Thomas dirige Bianca Comparato em solo 27/02/2026

Daniela Thomas dirige Bianca Comparato em solo – 27/02/2026 – Mise-en-scène

Celebridades Cultura

O Sesc Paulista torna-se o palco da adaptação teatral de “Autobiografia do Vermelho”. Sob a direção sensível de Daniela Thomas e protagonizada por Bianca Comparato, a montagem dá corpo e voz ao arrebatador romance em versos de Anne Carson, obra que subverte a mitologia clássica para investigar as dores e as belezas de quem nasce com asas em um mundo que exige pés no pavimento.

Há monstros que habitam o imaginário clássico porquê bestas a serem dizimadas. Gerião, o gigante alado que pastoreia bois vermelhos numa ilhéu remota, é um deles — talhado a morrer pelas mãos de Héracles (ou Hércules, na tradição latina) no décimo dos doze trabalhos do herói. Mas e se esse monstro pudesse racontar sua própria história? E se suas asas, em vez de anomalia, fossem o testemunho de uma sobrevivência sagrada?

Essas perguntas atravessam “Autobiografia do Vermelho”, trabalho que a poeta canadense Anne Carson publicou em 1998 e que se tornou um fenômeno improvável: um livro de trova que vendeu milhares de cópias e rendeu à autora o prestigiado “Genius Grant” da Instauração MacArthur. Agora, a obra ganha sua primeira adaptação teatral no Brasil sob a direção de Daniela Thomas e com Bianca Comparato em cena.

O romance que desafia gêneros

Para compreender o que sobe ao palco, é preciso submergir na arquitetura fragmentária de Carson. Partindo dos sobras dilacerados da “Gerioneida”, do poeta helênico Estesícoro de Hímera (século 7 a.C.), a autora reconstrói a trajetória do monstro não porquê uma besta estática, mas porquê um sujeito dotado de interioridade e voz. No experimento que abre o livro, Carson argumenta que Estesícoro revolucionou a literatura ao soltar as “travas do ser” que, em Homero, mantinham o mar invariavelmente “escuro porquê vinho” e o sangue sempre “preto”.

É dessa maleabilidade linguística que nasce o Gerião de Carson: um menino que vive com a mãe e o irmão mais velho numa ilhéu chamada “O Lugar Vermelho”, tentando esconder sob os casacos as asas que denunciam sua natureza. Aos cinco anos, posteriormente suportar abusos e isolamento, ele inicia sua autobiografia — um ato de autopreservação para “colocar para fora as coisas de dentro”, construindo uma subjetividade que resista às violências externas.

A narrativa salta no tempo: Gerião tem quatorze anos quando conhece Héracles, um jovem de dezesseis, carismático e volúvel, num ponto de ônibus. O encontro é o “oposto da facciosismo”. Inicia-se uma relação amorosa marcada pela assimetria: enquanto Héracles vê o sexo porquê forma casual de conhecimento, Gerião experimenta uma intensidade devocional que o levará ao “período azul” da depressão quando for ermo.

Anos depois, já adulto, Gerião viaja para Buenos Aires. É lá que reencontra Héracles, escoltado por Ancash, um jovem peruviano. Os dois estão numa missão para gravar sons de vulcões. Gerião aceita acompanhá-los aos Andes — e é nessa jornada que Ancash, ao desvendar suas asas sob um cobertor, não recua com horror: toca-as com ternura. Mais que isso, ele conta a Gerião a mito dos que foram lançados em vulcões e emergiram das chamas com pele vermelha e asas, tendo queimado toda a mortalidade.

A revelação ressignifica a monstruosidade: Gerião não é um erro, mas uma testemunha do que há de incandescente no mundo. No auge da viagem, ele finalmente decide usar suas asas, voa sobre a cratera do vulcão e tomada o som da vigor primordial — um ato de autossuficiência que subverte o mito original. No palco e na trova, o monstro não morre; ele sobrevive e voa.

Do papel ao corpo: o duelo cênico

Transformar essa obra para o teatro impôs uma pergunta médio: porquê transcrever a métrica e as metáforas de Carson em ação dramática? “O livro brinca com vários estilos: trova, teoria, romance de formação e retrato. É um mix de linguagens”, explica Bianca Comparato, que também assina a dramaturgia. “Na adaptação, buscamos trazer essa mesma mistura para o palco.”

A atriz destaca que a escrita de Carson possui uma “simplicidade de superfície” que esconde abismos. No palco, a estratégia foi buscar uma tradução coloquial, quase uma “não-atuação”, para aproximar o público da dificuldade da obra. Bianca encarna, sozinha, os sete personagens que povoam essa jornada de formação, recorrendo à dança, ao quina e a interrupções teóricas que espelham os apêndices do livro.

O processo de geração foi orgânico. Daniela Thomas chegou ao projeto através de sua paixão por audiolivros; a leitura que Bianca fez da obra para a plataforma Supersônica foi o embrião da montagem. A diretora, com formação no teatro experimental de Novidade York dos anos 80, reconheceu no texto de Carson a mesma sobreposição mitológica que animava grupos porquê o Wooster Group: uma paisagem onde a Grécia Antiga se funde à secura contemporânea.

Bianca menciona ter aprendido com Carson a “errar deliberadamente”. No palco, isso se traduz em uma estética que foge do polido. “É me permitir ser esquisita, monstruosa, estranha. Eu me pinto de vermelho. Tudo na peça é um pouco ‘inexacto’ em relação à sublimidade das redes sociais. Trabalhamos com o dissemelhante e o quebrado.”

Uma moral da alteridade

O espetáculo propõe o que Bianca labareda de “moral da monstruosidade”. A peça inverte a lógica clássica: os monstros não são os diferentes, mas aqueles que tentam dizimar o que não compreendem. Sob essa ótica, os trabalhos de Héracles são vistos porquê atos de colonização violenta contra amazonas, bichos e tudo o que foge ao padrão.

Para a atriz, a parábola de Gerião toca profundamente a questão queer. “O preconceito e as violências que a comunidade LGBTQIA+ sofre estão ali. Eu sou uma mulher lésbica e vejo essa conexão direta, mas o livro é popular porque é relacionável para qualquer um que já se sentiu ‘fora’. Gerião sofre abusos, lida com uma mãe carinhosa porém omissa — vítima do mesmo sistema patriarcal — e se envolve com um varão tóxico. É uma jornada de dor que culmina no encontro consigo mesmo.”

Daniela Thomas define o projeto porquê “maravilhosamente perturbador”. A crédito entre diretora e atriz permitiu um estado de vulnerabilidade totalidade, onde Bianca projeta a experiência da leitura para o corpo, transitando entre a ironia e a dor profunda de quem conhece os abismos do paixão.

O vermelho e o tempo

Na obra, o vermelho não é unicamente cor, mas uma entidade viva. Descreve as asas de Gerião, mas também seus sonhos e sua reação emocional. No palco, essa dimensão ganha materialidade literal através da pintura corporal, da luz e da cenografia, evocando o que Carson labareda de “substância que escorre para fora dos olhos” e tinge o mundo.

A preocupação de Gerião pela natureza do tempo encontra na retrato uma resposta. A câmera torna-se uma “prótese mecânica” para processar a dor a uma intervalo segura. O voo final sobre o vulcão, sem câmeras, é o momento em que ele decide possuir a si mesmo totalmente.

Carson utiliza ainda a teoria da “palinódia” — o gênero da retratação poética. Assim porquê o poeta vetusto recuperou a visão ao reescrever o mito de Helena, Gerião recupera a sua ao deixar de ser objeto do mito alheio para se tornar sujeito da própria história. A montagem no Sesc Paulista é, em última estudo, o voo dessa testemunha ocular. É o encontro entre a sapiência clássica e a urgência contemporânea de quem descobriu que a monstruosidade pode ser a forma mais radical de formosura.

Sesc Paulista – av. Paulista, 119 – Bela Vista, região médio. Qui. a sáb., 20h. Dom., 18h. Até 22/3. Duração: 90 minutos. Classificação indicativa: 14 anos. A partir de R$ 15 (credencial plena) em sescsp.org.br e nas bilheterias das unidades

Folha

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