Danielle Winits e Helena Ranaldi estrelam peças em SP

Danielle Winits questiona a modernidade em lixão com ETs – 01/02/2026 – Ilustrada

Celebridades Cultura

As modelos que Danielle Winits interpretou em produções da Mundo, porquê “Sex Appeal” e “Corpo Dourado”, dificilmente se sentiriam à vontade num lixão a firmamento descerrado. Mas é exatamente onde sua novidade protagonista, uma catadora que acredita em ETs, está agora, em “Choque! Procurando Sinais de Vida Inteligente”, espetáculo em papeleta no Teatro Faap, em São Paulo.

“Estou sempre buscando personagens que talvez as pessoas não esperem de mim”, diz ela, que se firmou na TV com mulheres obcecadas pela venustidade e por usar a sensualidade para conseguir o que queriam. “Sinto que, hoje, furar bolhas é uma tarefa necessária para o feminino e para aqueles que procuram um lugar distante do que os outros desejam que você ocupe.”

É com o cabelo desarrumado e sem maquiagem que Trudy, papel de Winits, vaga por um verdadeiro término de mundo. Ela encontra um cenário sem zero, à exceção dos sobras de comida, das latas amassadas e das sacolas de lixo enormes. São sobras de uma sociedade que abusou das técnicas de produção em tamanho.

Distante da vida materialista moderna, a personagem devaneia e esconjura a rotina que deixou —antes, era consultora criativa de uma empresa de marketing.

O projeto é o primeiro solilóquio de Winits, ainda que outros seres apareçam vez ou outra durante a peça. Coprodutora detrás das cortinas, a artista sequer tem tempo para sentir a solidão desse universo em palco.

“A recepção que tivemos no Rio de Janeiro [onde a peça foi apresentada, no ano passado] foi incrível, mas estou longe de estar com a luta ganha. Sou coprodutora há anos, mas quis vir com um pé a mais na porta porque sempre sobra espaço para o preconceito”, afirma Winits, comentando a vigilância das redes sociais.

Gerald Thomas, diretor da peça, é tão célebre pelo radicalismo do seu trabalho teatral nas últimas décadas quanto pelas polêmicas em que se envolveu na curso. Em 2003, por exemplo, agitou o Theatro Municipal do Rio de Janeiro depois mostrar a bunda e simular uma onanismo diante da plateia que vaiava sua montagem da ópera “Tristão e Isolda”. Foi parar na Justiça, sob querela de ato obsceno e absolvido pelo Supremo Tribunal Federalista.

Já no ano pretérito, se desculpou por proteger Leo Lins —à estação, disse ter visto a pena do humorista, denunciado de propagar discursos considerados discriminatórios, porquê um ataque à liberdade. Depois, diz ter entendido melhor o caso e se compungido.

“Gerald é um artista provocador, que sempre povoou meu imaginário. Ele tem uma habilidade enorme de desmembrar o que é feito para ser belo o tempo todo. No processo, não dá respostas ao público, e faz do teatro um lugar livre em que artista e plateia se transformam”, diz Winits.

Se trabalhar com Gerald, para ela, foi a realização de um sonho, o dramaturgo diz que não a conhecia antes de receber um invitação. Zero que uma ida à internet não tenha resolvido —ele explica que três cenas curtas da atriz, eróticas e intensas, serviram para convencê-lo do talento dela. Dias depois, diz ter espargido, por Zoom, uma mulher muito sábia, séria e “politicamente por dentro das coisas”, longe da imagem exclusivamente sexy que projetara.

“Eu mesma me questiono muito”, afirma a artista. “Já fui uma mulher de excessos. Eu tinha peito, mas botei um pouco mais. Nessa profissão, cada dia é dissemelhante e vivo em eterna construção de mim mesma.”

Dona de sua própria produtora, a atriz fez sua primeira peça em 2006. Assinada por Marcelo Rubens Paiva, responsável de “Ainda Estou Cá”, “Senhoril-Te” trazia Winits porquê vítima de um relacionamento censurável e debatia com humor a complicação das conexões amorosas.

Com o tempo, a Winits Produções Artísticas também chegou aos musicais, e títulos recentes porquê “O Mágico de Oz”, em que a atriz encarnou a Feitiçeira Má do Oeste, e “Meninas Malvadas”, representam outra paixão da artista.

“Essa espaço me permite manifestar o que realmente quero falar. Os projetos se tornam mais genuínos e, mesmo sendo um evidente ato político, não deixa de ser uma conquista pessoal. Sempre serei essa mulher que bate em todas as portas. Talvez muitos nem queiram saber que sou assim, mas isso já não é problema meu.”

Em “Choque!”, esse mundo do dedo que embaralha sinais de vida inteligente vira motivo de piada. Inspirado num texto da americana Jane Wagner, de 1985, o espetáculo atualiza a obra e condensa as várias personagens do original numa só figura que contesta os desdobramentos do capitalismo.

Assim, preserva referências a nomes porquê Andy Warhol —com quadros que surgem no palco e tensionam limites entre a arte e os bens de consumo—, zomba de influenciadores e plataformas, porquê o Instagram, e abusa de efeitos de luz, canções e outros estímulos que satirizam a hiperconexão.

Por fim, os ETs que Trudy insiste serem reais —cuja existência é sugerida, no palco, por roupas gigantes que saem do teto— não são tão diferentes dos usuários que mantém a relevância de celebridades no projecto real. São presenças que se manifestam, o tempo todo, por ideias e rastros de uma vida concreta.

Gerald compara o Speaker’s Corner, espaço em Londres onde os cidadãos podem subir para criticar tudo e todos —à exceção da família real e do governo britânico—, com a lógica dos debates online.

“De tarde, você vê muitas pessoas ao lado umas das outras, discursando em várias línguas, pregando e vomitando verdades diferentes. Zero mais são do que um quadrilha de malucos, cada um com a sua verdade. A internet é exatamente assim”, afirma o dramaturgo, de sua residência em Novidade York.

“A igreja é assim, o teatro é assim, a ateneu é assim, o mundo inteiro é assim desde sempre e zero mudou. Mas, hoje, há uma sede enorme de falar e pular para fora das telas de monitores e celulares, de convencer o outro de um tanto, mesmo que o próximo post vá contradizer absolutamente tudo que foi dito.”

No ano pretérito, o diretor veio ao Brasil para lançar “Sabius, Os Moleques”, espetáculo apocalíptico em que a própria Terreno sucumbe à humanidade. Em seguida alguns meses no país, voltou para os Estados Unidos, onde sua rotina foi registrada pela equipe de um documentário sobre sua vida. “Só paravam a câmera quando eu ia ao banheiro”, diz. Enquanto isso, deixou a temporada em São Paulo às ordens de seu assistente, Osni Silva, e vai escoltar o processo porquê um avatar virtual.

“O Gerald é uma verdadeira entidade. Estou acostumada com espetáculos com equipes muito grandes, mas durante esse meu primeiro solo eu nunca me senti só”, diz Winits. O contraste que ela descreve se aplica à peça em si, que mobiliza um espaço cênico rico em detalhes, mas sintetiza dramas de toda a humanidade em uma só personagem.

É o tipo de dualidade, explica Gerald, que encanta os mais jovens e pode desgostar veteranos, porquê a sua amiga Fernanda Montenegro, habituada a produções mais intimistas. “Acho que o meu excesso nunca é demais. Cabe ao público ignorar o que não querem ver ou olvidar o que ele não gostaram. É um pouco porquê a digestão —você caga aquilo que não digeriu.”

À luz de episódios recentes, o diretor defende que o choque humano não será banalizado. Ele diz que as mortes que vem acontecendo em Minneapolis, nos Estados Unidos, evidenciam que grandes líderes mundiais se esforçam cada vez menos para manter as boas aparências. “Não há metáfora. Eles estão construindo o quarto Reich dentro da sua própria lar.”

Para Winits, essa força eletromagnética também não vai se dissipar. “Não posso entrar numa zona de conforto, porque muitos dos avanços que acontecem hoje se dão na retórica, mas não nas atitudes”, diz. “Minha marcha não possui risco de chegada, mas devo mostrar para outras mulheres que ela perseverá.”

Folha

Deixe um comentário

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *