David Byrne diz que não faz músicas em procura de respostas para suas questões existenciais. Acontece que, no processo de criá-las, ele acaba encontrando algumas delas.
“Não comecei pensando nisso, mas quando o disco estava ficando pronto, percebi que as músicas são uma espécie de terapia —talvez uma resposta, uma resistência, ao mundo que vivemos hoje”, ele afirma à Folha. “E ele pode ser muito insuportável, deprimente, irritante e triste.”
O ex-vocalista do Talking Heads lança nesta sexta-feira (5) seu novo álbum solo, “Who Is the Sky?”, o primeiro desde “American Utopia”, de 2018. Naquele disco, elogiado pela sátira, que rendeu uma turnê —incluindo um show memorável no Lollapalooza Brasil— transformada em filme por Spike Lee, Byrne revisava as premissas do sonho americano à luz do primeiro governo Donald Trump.
Agora, com o republicano de volta ao poder, ele procura motivos para não ceder a esse “mundo deprimente”. “Achei que permanecer nesse estado [de depressão] não ia resolver nenhum problema”, afirma. “Precisamos de fé e alegria para trespassar dessa situação. Percebi, depois de fazer o álbum, que estava fazendo isso por mim.”
Somente pensar no horror da subida do fascismo ao volta do mundo, ele diz, não traz nenhuma mudança. “Acho que de certa maneira essas músicas nos dão alguma resposta —alguma razão para ter esperança.”
É uma postura que moradia com a trajetória de Byrne. Avante do Talking Heads, nos anos 1970 e 1980, ele desenvolveu uma teoria de coletividade que era conceitual, mas também músico, rendendo alguns álbuns clássicos de estilo único, em meio ao caldo criativo do qual nasceu o punk em Novidade York.
O interesse de Byrne e seus companheiros por gêneros musicais praticamente desconhecidos para americanos e europeus —incluindo aí segmento da música brasileira— fez a sonoridade do Talking Heads extrapolar o rock. Esteticamente, era uma ode ao intercâmbio de culturas e à convívio pacífica entre povos diferentes ao volta do mundo.
Uma teoria de certa forma ameaçada pelo progresso do individualismo intrínseco ao padrão numulário. “A música tem de dar o contraveneno”, ele diz. “Não adianta falar sobre o quão terríveis as coisas estão. A música tem o poder de unir as pessoas, e fazê-las sentir que não são somente indivíduos. Somos uma espécie social, prosperamos e florescemos quando estamos juntos.”
É a contraposição da experiência individual, de escutar canções no fone de ouvido, contra o cenário coletivo, quando não existia música gravada e, para consumir essa arte, as pessoas tinham que se reunir em torno dos músicos. Mas mesmo com as novas tecnologias, diz o cantor, esses hábitos resistem.
“Vivemos em nossos mundos privados, sim, mas veja, as pessoas ainda saem de moradia para ouvir, juntas, a música sendo tocada ao vivo. As pessoas ainda saem e se encontram para dançar. Essas coisas não acabaram —elas estão aí.”
Ainda que essas questões não sejam tratadas de maneira literal em “Who Is the Sky?”, elas fornecem o contexto para que o otimismo típico do músico, nascido na Escócia, desabroche novamente. Guiado por um violão resplandecente, o single “Everybody Laughs” reúne um coro de vozes confiantes no refrão, depois de ele expressar que procura por inspiração numa lixeira.
A ode à coletividade se sobressai nas 12 faixas expansivas do disco, que contaram com arranjos do conjunto de câmara Ghost Train Orchestra, sediado em Novidade York. Byrne ficou seduzido, e decidiu incorporar a abordagem do grupo de 15 instrumentistas —incluindo bateria, percussão, guitarra e reles, além de cordas e sopros— à sua obra.
Mas apesar da resguardo do bom humor e da união entre pessoas contra o caos do mundo, Byrne faz tudo isso com o eminente proporção de estranheza que lhe é peculiar. Porquê a revestimento psicodélica do álbum, é uma visão de mundo colorida, em que essas cores se embaraçam e se confundem em excesso desarmônico.
Esse choque fica evidente em “Avant Garde”, na qual o artista brinca com sons esquisitos e a vontade de ser diferentão e vanguardista, antes de desaguar um refrão de estrutura convencional e expressar que as coisas não precisam ter significado. Mas zero representa tão muito seu lado sem razão quanto à abordagem surrealista das letras —hábito do compositor desde os tempos de “Psycho Killer”, grande hit do Talking Heads.
Em “Who Is The Sky?”, Byrne vê seu apartamento uma vez que camarada íntimo (“My Apartment Is My Friend”), acorda transformado em bebê em seguida passar um creme anti-aging antes de dormir (“Moisturizing Thing”) e encontra um Buda guloso numa sarau no núcleo (“I Met The Buddha at a Downtown Party”).
Ele cria essas histórias malucas para transcender uma existência ordinária. “Me imagino, imagino esses personagens e o que eles estão fazendo, o que podem fazer e expressar para nos surpreender”, afirma. “A do Buda começou pelo título. Onde você menos esperaria encontrá-lo? Talvez numa sarau em Novidade York. Agora, são histórias, portanto em certa medida, há um pouco de mim nelas também.”
No disco, Byrne divide os microfones com duas amigas da música —a vocalista do Paramore, Hayley Williams, no dueto “What Is The Reason For It?”, e St. Vincent em “Everybody Laughs”. O produtor Kid Harpoon, que já trabalhou com Harry Styles e Miley Cyrus, e o percussionista brasílico Mauro Refosco engrossam o caldo.
Notável amante e divulgador da música brasileira, Byrne celebra ter participado de duas canções do disco mais recente de Arnaldo Antunes e diz que está sempre em contato com artistas daqui. Também afirma estar torcendo para que Margareth Menezes —ex-backing vocal de sua orquestra nos anos 1990— esteja indo muito avante do Ministério da Cultura.
Ele não ficou empolgado em voltar a colaborar com os antigos companheiros de Talking Heads quando eles se reencontraram no relançamento do filme “Stop Making Sense” —um dos registros de show mais celebrados de todos os tempos. “Não é provável voltar no tempo e ser quem você era há 30 ou 40 anos.”
Sua vontade, diz, é continuar malhando os músculos da originalidade —mesmo quando não está na melhor forma. “A inspiração vai e vem. Acho que minha produção ali no meio dos anos 1990 não é tão boa quanto o resto, por exemplo. O que aprendi é a continuar criando. Você tem de manter aquele músculo ativo porque se não, quando as boas ideias chegarem, você não está pronto para elas.”
